Diário · Tecnologia e Atenção

Quem está usando quem?

Sobre as ferramentas que nos levam até a prática e o momento em que começamos a entregar a elas a nossa atenção.

Edson Ramos6 min de leitura

Hoje usamos tecnologia para praticamente tudo.

Eu mesmo uso.

Uso para trabalhar.
Para estudar.
Para criar música.
Para construir o Dojo.
Para ensinar Yoga.

Uso código, inteligência artificial, vídeo, música, sites, aplicativos.

Seria bastante hipócrita da minha parte escrever aqui dizendo que tecnologia é o problema.

Não é.

O problema começa quando uma ferramenta que deveria estar a nosso serviço começa a determinar aquilo que fazemos.

E existe um lugar muito interessante para observar isso: a meditação.

Sente cinco minutos

Experimente.

Sente.
Feche os olhos.
Não faça nada durante cinco minutos.

Rapidamente alguma coisa começa a acontecer.

Pensamentos.
Memórias.
Planos.
O corpo incomoda.
Você lembra de alguma coisa que precisa fazer.

E existe uma sensação muito característica de que deveríamos estar fazendo outra coisa.

Hoje ainda acrescentamos mais uma camada.

O celular está perto.
Pode existir uma mensagem.
Uma notificação.
Alguma coisa aconteceu.
Alguém pode estar querendo falar comigo.

E, de repente, cinco minutos parecem muito tempo.

Já escrevi aqui sobre ficar duas horas esperando para entrar em um restaurante e achar cinco minutos de meditação insuportáveis.

Continuo achando essa comparação maravilhosa.

Porque ela mostra que não perdemos a capacidade de esperar.

Perdemos a capacidade de permanecer sem estímulo.

“Eu não consigo parar minha mente”

Escuto isso há muitos anos.

Não consigo meditar porque não consigo parar minha mente.

Mas quem disse que você precisa parar a mente?

Esse já é o primeiro engano.

Pensamento não significa que a meditação deu errado.
Distração também não.

Você senta.
Um pensamento aparece.
Você percebe.
Volta.

Outro aparece.
Você percebe.
Volta novamente.

É isso.

O treinamento não está em nunca sair.

Está em perceber que saiu e conseguir voltar.

Se durante dez minutos você se distraiu vinte vezes e voltou vinte vezes, alguma coisa foi treinada ali.

Para mim isso é muito mais interessante do que criar uma guerra contra os pensamentos.

Acho que existe uma diferença hoje

Eu dou aula há tempo suficiente para ter acompanhado gerações diferentes de alunos.

A mente humana sempre foi distraída.

Não inventamos a distração com o smartphone.

Há milhares de anos já existiam ensinamentos sobre uma mente inquieta, desejante, saltando de uma coisa para outra.

O que mudou foi outra coisa.

Nós carregamos uma máquina de distração no bolso.

Antigamente o pensamento surgia.

Hoje o pensamento surge e existe imediatamente uma ferramenta capaz de alimentá-lo.

Fiquei curioso.
Google.

Fiquei entediado.
Instagram.

Lembrei de alguém.
WhatsApp.

Quero ouvir alguma coisa.
Spotify.

Não sei.
Inteligência artificial.

Não existe mais necessariamente um espaço entre sentir uma necessidade e tentar satisfazê-la.

E esse espaço é precioso.

A tecnologia espiritual

Existe ainda uma coisa curiosa.

Transformamos até a espiritualidade em tecnologia.

Aplicativo para meditar.
Aplicativo para respirar.
Relógio dizendo quando respirar.
Playlist para relaxar.
Mantra no Spotify.
Timer.
Frequências.
Cursos.
Vídeos.

Eu uso algumas dessas coisas.

O próprio Dojo oferece ferramentas assim.

Então não vejo nenhum problema em alguém utilizar um aplicativo para começar a meditar.

Se uma ferramenta ajuda você a sentar todos os dias, ótimo.
Se um timer ajuda a sustentar sua prática, use.
Se uma música ajuda você a entrar em determinado estado, maravilhoso.

A pergunta que considero importante é outra:

Você está usando aquilo para praticar ou já não consegue praticar sem aquilo?

Essa diferença é enorme.

Ferramenta ou muleta?

Uma ferramenta deveria ampliar uma capacidade.

Não substituí-la.

Posso usar um aplicativo para organizar minha respiração.
Mas em algum momento preciso conhecer minha própria respiração sem olhar para uma tela.

Posso ouvir um mantra perfeitamente gravado.
Mas existe algo completamente diferente quando várias pessoas respiram juntas e o mantra sai de dentro dos próprios corpos.

Posso colocar uma música maravilhosa para meditar.
Mas também preciso conhecer o silêncio.

Posso usar um relógio para medir meu sono.
Mas nenhum gráfico substitui minha capacidade de acordar e perceber:

como eu realmente estou hoje?

Esse é o risco.

Começamos utilizando tecnologia para aumentar nossa percepção e acabamos terceirizando nossa percepção para ela.

O relógio diz se dormimos bem.
O aplicativo diz se respiramos bem.
A tela diz quando devemos parar.
O algoritmo escolhe aquilo que vamos ouvir.

E lentamente deixamos de perguntar ao próprio corpo.

Eu vivo essa contradição

Isso me interessa especialmente porque eu vivo exatamente no meio dessa contradição.

Ensino uma prática antiga utilizando ferramentas extremamente modernas.

E gosto disso.

Não acredito que precisamos voltar para uma caverna para praticar Yoga.

Quero utilizar tudo aquilo que nosso tempo oferece.

Tecnologia.
Ciência.
Música.
Vídeo.
Inteligência artificial.

Tudo isso pode nos ajudar a estudar, ensinar e levar conhecimento para muito mais pessoas.

Mas existe uma linha que tento não esquecer.

A tecnologia pode me levar até a prática.
Ela não pode praticar por mim.

Posso construir o melhor aplicativo de respiração do mundo.
Ainda preciso respirar.

Posso ter milhares de horas de aulas disponíveis.
Ainda preciso abrir o tapete.

Posso ter acesso a todos os textos sobre meditação já escritos.
Ainda preciso sentar.

Esse último pedaço continua sendo nosso.

E ainda bem.

Quem está usando quem?

Por isso não acho que a discussão seja tecnologia contra espiritualidade.

Isso seria simplificar demais.

Uma faca pode preparar uma refeição ou machucar alguém.

A ferramenta não decide.
Nós decidimos.

A questão é observar nossa relação com ela.

Você consegue ficar alguns minutos sem pegar o celular?
Consegue caminhar sem colocar alguma coisa no ouvido?
Consegue esperar sem procurar imediatamente uma tela?
Consegue respirar sem alguém contar o tempo?
Consegue sentar em silêncio sem precisar produzir um estado especial?

Não precisamos abandonar a tecnologia.

Precisamos preservar algumas capacidades que existiam antes dela.

A capacidade de esperar.
De observar.
De sentir tédio.
De escutar.
De respirar.
De permanecer.

De não saber o que fazer durante alguns minutos e não precisar imediatamente preencher esse espaço.

Porque é justamente nesse espaço que começamos a encontrar coisas que nenhum algoritmo consegue entregar prontas.

A prática de hoje

Então hoje proponho uma experiência muito simples.

Não quero que você desligue o celular durante um dia inteiro.
Não precisa desaparecer do mundo.

Em algum momento do dia, encontre cinco minutos.

Só cinco.

Sem aplicativo.
Sem música.
Sem mantra gravado.
Sem relógio dizendo como você está.

Sente.
Respire.

Sua mente vai pensar.
Deixe pensar.

Você vai se distrair.
Perceba.
E volte.

Não tente fazer uma boa meditação.

Só observe como é estar cinco minutos sem receber nada de fora.

Porque tecnologia é uma ferramenta extraordinária.

Eu quero continuar usando.
Quero continuar aprendendo.
Quero continuar criando com ela.

Mas existe uma pergunta que precisamos fazer de vez em quando:

Ainda sou eu quem escolhe quando utilizá-la?

Ou já é ela quem decide quando terá minha atenção?

No final, essa discussão não é sobre celular.

É sobre liberdade.

Use todas as ferramentas que puder.
Só não entregue a nenhuma delas aquilo que deveria continuar sendo seu.

— Edson Ramos


Sua atenção.

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