Diário · Meditação

Duas horas por uma mesa, cinco minutos para você

Por que a fila do restaurante passa e a almofada não passa nunca.

Edson Ramos4 min de leitura

Ontem fui a um restaurante e fiquei quase duas horas esperando para entrar.

A fila só aumentava. As pessoas chegavam, colocavam o nome e esperavam. Algumas conversavam. Outras pegavam o celular. Algumas reclamavam um pouco.

Mas ninguém parecia realmente disposto a ir embora.

Eu também fiquei.

Em algum momento, olhando aquela fila, comecei a pensar:

Por que duas horas esperando na porta de um restaurante parecem aceitáveis e cinco minutos de meditação incomodam tanto?

Achei curioso. Porque nosso problema não é exatamente esperar.

Nós sabemos esperar muito bem.

Somos ótimos em esperar

Esperamos uma mesa no restaurante.
Esperamos no aeroporto.
Esperamos no trânsito.
Esperamos uma encomenda chegar.
Esperamos meses pelas férias.

Passamos anos trabalhando por alguma coisa que queremos conquistar.

Quando existe uma recompensa no final, somos capazes de esperar bastante.

Naquele restaurante era assim. Existia uma promessa. Daqui a pouco meu nome será chamado. Vou entrar. Vou sentar. Vou comer.

Então aquelas duas horas tinham uma direção.

Agora experimente sentar alguém em uma almofada e dizer:

Feche os olhos.
Fique aqui cinco minutos.
Não tem comida chegando.
Não tem ninguém chamando seu nome.
Não tem prêmio.
Não tem nada para conquistar.
Apenas fique.

De repente cinco minutos parecem duas horas.

O problema não é o tempo

Na fila do restaurante eu podia conversar. Olhar o telefone. Observar quem chegava. Ver quantas pessoas estavam na minha frente. Pensar no que iria pedir. Reclamar da demora. Criar expectativa.

Minha mente tinha dezenas de lugares para onde ir.

Na meditação acontece justamente o contrário. Quando fechamos os olhos, começamos a retirar essas possibilidades.

E sobra quem?

Você.

É aí que cinco minutos começam a ficar interessantes.

O corpo incomoda. A perna precisa mudar de lugar. Surge uma coceira. Você lembra de uma mensagem que precisa responder.

Uma coisa absolutamente sem importância se transforma, naquele momento, na tarefa mais urgente da sua vida.

A mente começa a procurar qualquer desculpa para sair dali.

E facilmente chegamos à conclusão de que foi a meditação que criou aquela inquietação.

Não foi.

A meditação não criou a inquietação.
Ela apenas tirou o barulho que impedia você de percebê-la.

Fomos ensinados a buscar

Existe outra coisa que fiquei pensando. Somos educados para buscar.

Desde pequenos existe sempre alguma coisa depois.

Termine isso para ganhar aquilo.
Estude para passar.
Trabalhe para ganhar.
Treine para melhorar.
Produza para crescer.
Faça alguma coisa para chegar a algum lugar.

Não existe nada errado nisso. Eu mesmo gosto de movimento, de construção, de aprender, de fazer.

O problema aparece quando nossa mente só consegue encontrar sentido se houver alguma coisa para conquistar no final.

A meditação nos propõe quase o oposto.

Por alguns minutos você não precisa chegar a lugar algum.
Não precisa melhorar seu corpo.
Não precisa melhorar sua respiração.
Não precisa produzir.
Não precisa resolver.
Não precisa nem tentar se tornar uma pessoa mais espiritual.

Só precisa permanecer.

E permanecer é uma das coisas que menos treinamos.

Isso também é prática

No Yoga fazemos coisas difíceis. Permanecemos em posturas desconfortáveis. Aprendemos movimentos complexos. Desenvolvemos força, flexibilidade, mobilidade, controle da respiração.

Mas existe uma dificuldade muito mais simples esperando por nós.

Sentar.
Fechar os olhos.
E ficar.

Sem transformar aqueles minutos em mais uma coisa que precisamos fazer perfeitamente.

A meditação não precisa ser uma experiência extraordinária.

Você pode sentar e encontrar uma mente completamente agitada. Tudo bem. Cinco minutos podem parecer vinte. Tudo bem.

O importante é começar a perceber o que acontece quando não oferecemos imediatamente à mente aquilo que ela pede.

É aí que começamos a conhecê-la.

Por que esperamos?

Ontem eu esperei duas horas porque acreditava que alguma coisa boa me esperava no final daquela fila.

E é justamente aí que está a questão.

Nós aprendemos a reconhecer o valor daquilo que está fora. Uma boa comida merece duas horas. Uma viagem merece uma espera. Uma compra merece alguns dias. Um objetivo profissional pode merecer anos.

Mas quanto tempo acreditamos que vale a pena esperar para encontrar um pouco de silêncio dentro de nós?

Nosso problema nunca foi apenas falta de tempo para meditar. Existe também o valor que damos ao que acreditamos encontrar no final dessa espera.

E aqui existe uma diferença importante.

Na fila do restaurante, depois de duas horas, finalmente chamaram meu nome.

Na meditação ninguém vai chamar.

Porque você já chegou.

— Edson Ramos


Por uma mesa, esperamos duas horas.
Por nós mesmos, cinco minutos parecem demais.

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