Diário · Oss Yoga Mandala

A distância até aquilo que importa

Uma frase de aluna no meio do curso, e o tamanho que a distância ganha quando o destino importa.

Edson Ramos4 min de leitura

Hoje, durante o curso, uma aluna me disse uma coisa que ficou na minha cabeça.

Ela falou sobre como as pessoas daqui são agraciadas por terem tudo isso tão perto.

O curso.
Os professores.
O método.
A possibilidade de estar presente.

E achei interessante porque, ao mesmo tempo, existem pessoas que reclamam de precisar sair da Zona Sul e vir para a Zona Oeste.

Como se fosse longe demais.

Enquanto isso, tem gente que sai de Niterói, atravessa o outro lado do Rio e chega na hora.

Tem gente que vem de outra cidade.
De outro estado.

Organiza a vida.
Muda compromisso.
Pega estrada.
Viaja.

Tudo para estar aqui por alguns dias.

E isso me fez pensar muito sobre uma coisa:

A distância muda completamente de tamanho dependendo da importância que damos ao destino.

Quando algo realmente importa

Quando alguma coisa é importante para nós, encontramos um jeito.

Não estou falando de romantizar dificuldade.

Nem de achar que todo mundo tem as mesmas condições.

Não tem.

Mas existe uma diferença entre não poder e simplesmente não querer sair do conforto.

Eu penso nisso porque faço exatamente o contrário.

Eu saio do Brasil e vou até o Nepal atrás dos meus professores.

Horas de voo.
Cansaço.
Dinheiro.
Organização.
Tempo.
Desconforto.

E nunca penso:

“É muito longe.”

Eu penso:

“É lá que está aquilo que quero aprender.”

Então eu vou.

Existem coisas que não vêm até nós.

Existem ensinamentos que exigem deslocamento.

E não apenas deslocamento físico.

Exigem sair da rotina.
Do conforto.
Daquilo que já conhecemos.

O professor não precisa estar perto

Vivemos uma época em que começamos a esperar que tudo esteja disponível imediatamente.

A aula no celular.
O conhecimento gravado.
O professor online.
A resposta em alguns segundos.

E tudo isso é maravilhoso.

Eu mesmo utilizo tecnologia para ensinar.

Existe algo, no entanto, que não consigo substituir.

Estar presente.
Dividir o espaço.
Observar.
Perguntar.
Praticar perto.
Conviver alguns dias com quem está ensinando.

Existe um aprendizado que acontece na aula.

E existe outro que acontece simplesmente porque você decidiu estar ali.

O Budismo sempre me ensinou muito sobre isso.

Durante séculos, pessoas atravessaram montanhas, países e continentes em busca de professores.

Não porque o conhecimento estivesse escondido.

E sim porque reconhecer o valor de um ensinamento também significava estar disposto a caminhar até ele.

Hoje temos a vantagem de um avião.

Mesmo assim reclamamos do trânsito.

Talvez o problema seja a proximidade

Existe uma coisa curiosa no ser humano.

Quando alguma coisa está muito perto, começamos a achar que sempre estará disponível.

“Depois eu faço.”
“Na próxima turma.”
“Outro dia eu vou.”
“Quando ficar mais perto.”

E aquilo que é raro começa a parecer comum simplesmente porque está ao nosso alcance.

Às vezes alguém precisa vir de longe para nos lembrar do privilégio que existe em ter alguma coisa perto.

Foi exatamente isso que senti hoje.

Uma aluna olhando para tudo aquilo e dizendo:

“Vocês são muito agraciados por terem isso aqui.”

Enquanto alguém que mora a poucos quilômetros pode pensar:

“Zona Oeste? Muito longe.”

A mesma distância.
Dois significados completamente diferentes.

O que você está disposto a atravessar?

Isso não vale apenas para um curso.

Vale para quase tudo.

Quanto estamos dispostos a atravessar por aquilo que dizemos ser importante?

Uma hora de trânsito?
Um desconforto?
Uma mudança na rotina?
A insegurança de começar alguma coisa nova?
O orgulho de pedir ajuda?
O medo de não ser bom?

Às vezes colocamos uma coisa no discurso como prioridade, mas basta aparecer o primeiro incômodo e ela deixa de ser prioridade.

A prática espiritual também revela isso.

Todo mundo quer paz.

Até descobrir que paz exige olhar para algumas coisas desconfortáveis.

Todo mundo quer transformação.

Até perceber que transformação exige abandonar alguma coisa.

Todo mundo quer aprender.

Até o aprendizado exigir deslocamento.

Hoje eu olhei diferente para a sala

Hoje, enquanto olhava as pessoas praticando o Oss Yoga Mandala, pensei nisso.

Algumas vieram de perto.

Outras vieram de longe.

Mas todas chegaram ao mesmo lugar.

E isso é muito bonito.

O Oss Yoga está crescendo.

O método está sendo conhecido por pessoas de lugares cada vez mais distantes.

E ver alguém atravessar uma distância para estar conosco aumenta ainda mais minha responsabilidade com aquilo que estou ensinando.

Porque quando alguém percorre um caminho para chegar até você, não está entregando apenas dinheiro.

Está entregando tempo.
Confiança.
Energia.
Uma parte da própria vida.

Isso precisa ser respeitado.

Eu também continuo indo

Talvez por isso eu nunca queira perder minha condição de aluno.

Eu ensino.

E continuo procurando meus professores.

Continuo viajando.

Continuo sentando diante de alguém que sabe alguma coisa que eu ainda não sei.

Continuo disposto a atravessar uma distância para aprender.

No dia em que eu achar que tudo precisa vir até mim, provavelmente alguma coisa importante no caminho terá se perdido.

O professor também precisa continuar caminhando.

E eu caminho.

Às vezes alguns quilômetros.
Às vezes até o outro lado do mundo.

Porque, quando existe algo que considero realmente valioso, a pergunta nunca é:

“É longe?”

A pergunta é:

“Vale a caminhada?”

Se a resposta for sim, eu vou.

— Edson Ramos


A pergunta nunca é se é longe.
É se vale a caminhada.

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