Hoje acordei com meu joelho doendo. Sensível.
E toda vez que isso acontece existe uma história que volta junto. Esse joelho já me levou para uma sala de cirurgia, e a lesão aconteceu praticando Yoga. Mais especificamente, durante um ajuste.
Por isso existe uma coisa que faço questão de dizer, principalmente para quem acredita que Yoga é sempre sinônimo de saúde:
Yoga também pode machucar. E pode machucar sério.
O corpo não sabe que é Yoga
Existe uma ideia quase romântica de que, por estarmos fazendo Yoga, aquilo que fazemos com o corpo é automaticamente saudável.
Não é.
Seu joelho não sabe que você está praticando Yoga. Seu ombro não conhece os Yoga Sutras. Sua coluna não sabe se aquela postura tem cinco mil anos de tradição.
O corpo responde a carga. Amplitude. Velocidade. Repetição. Pressão. Alavanca. Fadiga. E às condições que ele apresenta naquele dia.
Se ultrapassarmos aquilo que uma estrutura consegue tolerar, ela pode se machucar. Mesmo dentro de um asana.
“Mas eu sempre fiz essa postura”
Essa frase é perigosa.
Eu fiz durante anos.
Meu aluno sempre fez.
Meu professor fazia.
Eu conseguia quando era mais novo.
Nada disso garante o que seu corpo consegue sustentar hoje, porque o corpo não é uma fotografia. Ele muda.
Hoje acordei com o joelho sensível. Isso significa que minha prática precisa conversar com o joelho que acordou comigo hoje, não com o joelho que eu tinha dez anos atrás.
E existe maturidade nisso. Às vezes evoluir na prática significa conseguir fazer mais. Depois de algum tempo, evoluir também significa perceber quando não fazer.
A lesão mudou minha maneira de ensinar
Passar por uma cirurgia me obrigou a rever muita coisa, inclusive aquilo que eu acreditava saber sobre asana. Percebi que compreender uma postura apenas através da tradição do Yoga não era suficiente para mim.
Comecei a querer entender mais sobre movimento. Articulações. Carga. Mobilidade. Compensações. Individualidade.
Comecei a olhar menos para a fotografia final da postura e mais para a pessoa que estava tentando construí-la.
Porque duas pessoas podem chegar a uma forma externamente muito parecida por caminhos internos completamente diferentes. Uma pode estar distribuindo bem o movimento. A outra pode estar conseguindo a mesma forma cobrando tudo de uma única articulação.
Na fotografia, talvez ninguém perceba.
O corpo percebe.
Ajustar também é uma responsabilidade
Minha lesão aconteceu durante um ajuste, e por isso esse assunto também mudou profundamente para mim.
Quando colocamos nossas mãos sobre o corpo de um aluno, estamos entrando em um território que não é nosso. Não sentimos exatamente aquilo que ele sente. Não conhecemos completamente sua história. Não sabemos tudo que aquela articulação já viveu.
Um ajuste não deveria existir para obrigar alguém a caber na imagem que temos de uma postura.
Às vezes o melhor ajuste é uma orientação. Às vezes é oferecer uma alternativa. Às vezes é simplesmente perguntar:
“Como está isso para você?”
E ouvir a resposta.
Dor não é troféu
Durante muito tempo, em diferentes práticas corporais, aprendemos a admirar quem suporta. Aguenta mais. Vai mais longe. Não desiste.
Existe valor na disciplina, e eu continuo acreditando profundamente nela. Mas disciplina sem percepção pode virar violência contra o próprio corpo.
Nem todo desconforto significa lesão. Mas dor também não deveria ser automaticamente interpretada como fraqueza que precisamos vencer.
Existe uma inteligência em saber diferenciar esforço de ameaça. Limite de medo. Desconforto de dor.
E essa inteligência não aparece apenas porque conseguimos fazer posturas avançadas. Ela precisa ser treinada.
Nenhuma postura vale uma lesão
Minha relação com o Yoga mudou muito depois daquela cirurgia. Hoje continuo gostando de desafios. Continuo treinando. Continuo explorando possibilidades do corpo.
Mas existe uma regra que ficou muito clara para mim:
nenhuma postura vale uma lesão. Nenhuma.
Não existe asana que justifique perder meses de prática. Não existe fotografia que justifique uma cirurgia. Não existe ajuste que precise provar até onde um corpo consegue chegar.
O objetivo não deveria ser preservar a postura. Deveria ser preservar nossa possibilidade de continuar praticando.
Hoje meu joelho doeu
E talvez esse seja o ensinamento de hoje.
Meu joelho acordou sensível. Anos atrás eu poderia enxergar isso como alguma coisa atrapalhando minha prática. Hoje enxergo diferente.
Isso já é a prática.
Perceber. Escutar. Adaptar. Não transformar aquilo que eu gostaria de fazer naquilo que meu corpo é obrigado a fazer.
Yoga não deveria ensinar apenas até onde conseguimos chegar. Também deveria ensinar quando parar. Quando modificar. Quando descansar. Quando procurar ajuda. E quando simplesmente aceitar que hoje o corpo está pedindo outra coisa.
Porque uma prática que busca consciência não pode começar ignorando justamente aquilo que o corpo está tentando dizer.
— Edson Ramos
Hoje meu joelho falou.
Minha prática é escutar.