Diário · Fontes e Autoria

Uma vez eu ouvi…

Sobre dizer de onde veio o que a gente ensina, e por que reconhecer uma fonte nunca deixou o trabalho de ninguém menor.

Edson Ramos6 min de leitura

Certa vez um professor disse A quando eu dizia B.

Minha primeira reação poderia ter sido defender aquilo que eu já sabia.

Resolvi experimentar.

Pratiquei o que ele ensinava.
Observei.
Comparei.

E percebi que a experiência dele, naquele momento, enxergava alguma coisa que eu ainda não conseguia enxergar.

Então mudei.

Passei a ensinar daquela maneira.

Não senti que estava abandonando meu conhecimento.
Estava atualizando aquilo que sabia.

E minha história como professor foi construída muitas vezes assim.

Eu ensinava Hatha, mas via alguns dos meus professores fluindo.

Eu ensinava pranayama e depois encontrei pessoas investigando a respiração através de outras linguagens, como o breathwork.

Conheci Tsa Lung.
Trul Khor.
Yantra Yoga.
Ruesi Dat Ton.
Tummo.

Passei pelas artes marciais.
Pela dança.
Pelo Vinyasa.

Observei métodos modernos de movimento.

E no meio dessa chuva de “eu faço assim” e “ele faz assado”, comecei a compreender uma coisa que hoje considero fundamental: ensinamentos vivos continuam se transformando.

Ninguém começa do zero

Existe uma frase que escuto muito:

“Uma vez eu ouvi…”

E sempre me dá vontade de perguntar: ouviu de quem?

Porque conhecimento não aparece do nada.

Alguém estudou antes de nós.
Alguém praticou.
Errou.
Tentou novamente.

Passou anos refinando uma ideia.
Abandonou coisas.
Construiu outras.

E um dia aquilo chegou até nós.

Todos nós bebemos de alguma fonte.

Eu bebi de muitas.
E continuo bebendo.

Acredito profundamente que precisamos procurar pessoas que caminharam um pouco mais do que nós.

Não para imitá-las para sempre, mas para enxergar através delas lugares que ainda não conseguimos alcançar sozinhos.

É para isso que servem os professores.

Eles não são o caminho.
São pessoas que já percorreram alguns quilômetros dele.

Reconhecer não diminui ninguém

Quando cito um método que influenciou meu trabalho, faço isso conscientemente.

Mandala.
Vinyasa.
Budokon.
Práticas tibetanas.
Dança.
Artes marciais.

E tantas outras referências que atravessaram minha história.

Muitos desses caminhos têm professores e criadores que podemos reconhecer.

E quando digo seus nomes, não sinto que o Oss Yoga fica menor.

Acontece exatamente o contrário.

Estou dizendo: “olha o que os seus ensinamentos se tornaram nas minhas mãos.”

Para mim, isso é respeito.

Reconhecer uma fonte não significa que aquilo que você criou não seja seu.

Significa apenas que você conhece a própria história.

Eu não inventei o movimento.
Não inventei a respiração.
Não inventei o Yoga.

Também não inventei todas as ideias que atravessaram minha cabeça durante esses anos.

Recebi muita coisa.
Experimentei.
Questionei.

Misturei algumas coisas.
Separei outras.
Abandonei várias.

E deixei tudo isso atravessar minha própria experiência.

Foi assim que uma linguagem começou a aparecer.

Hoje chamamos essa linguagem de Oss Yoga.

Imitação também faz parte

Depois de tantos anos ensinando, comecei a viver o outro lado dessa história.

Vejo alunos utilizando minhas palavras.
Movimentos que ensino.
Estruturas das minhas aulas.
Ideias do método.

Às vezes vejo até pessoas que nunca foram minhas alunas reproduzindo coisas que, de alguma maneira, passaram por nós.

E aprendi a olhar para isso com mais calma, porque imitar também faz parte do aprendizado.

Eu também imitei.
Todos nós imitamos.

Uma criança aprende observando.

Um aluno começa reproduzindo seu professor.

Um professor novo muitas vezes ensina até com a entonação de quem o formou.

Isso não me incomoda.

O problema começa quando esquecemos que aquilo veio de algum lugar.

Existe uma diferença entre receber um ensinamento e apagar sua história.

Vivemos a época das trends

Hoje uma pessoa cria alguma coisa.

Outra vê.
Repete.

Uma terceira aprende com a segunda.

Uma quarta transforma aquilo em vídeo.

Pouco tempo depois ninguém sabe mais de onde veio.

Virou trend.

Executamos o movimento sem conhecer seu significado.
Repetimos a frase sem saber quem a disse.
Ensinamos uma técnica sem conhecer sua origem.

E existe algo que se perde nesse processo.

Não apenas autoria.

Contexto.

Às vezes aquilo que cabe em trinta segundos levou alguém vinte anos para compreender.

Nós vemos o resultado.

Não vemos as horas de estudo.
Os professores.
Os erros.
O dinheiro investido.
As escolhas.

Aquilo que foi abandonado para que aquela pessoa pudesse permanecer naquele caminho.

Por isso acredito que reconhecer nossas fontes é também uma maneira de reconhecer o esforço humano que existe por trás do conhecimento.

Existe outro perigo

Também não quero viver agarrado às coisas que ensinei.

Se eu compartilhei alguma coisa, preciso aceitar que ela vai caminhar.

Vai chegar a pessoas que nunca conhecerei.
Vai ser modificada.

Algumas vão entender exatamente aquilo que eu quis dizer.
Outras não.

Isso também faz parte.

Há muitos anos tento praticar uma ideia simples: devolver ao mundo aquilo que recebi.

Sem controlar demais quem está do outro lado.

Se alguma coisa que aprendi puder ajudar alguém que nunca será meu aluno, ótimo.

Se uma ideia minha ajudar outro professor a ensinar melhor, ótimo.

Conhecimento que precisa permanecer preso ao professor para continuar tendo valor não cumpriu completamente sua função.

O ensinamento precisa caminhar.

Mas podemos permitir que ele caminhe sem apagar as pegadas de quem veio antes.

O que quero ensinar aos meus alunos

Não quero alunos que passem a vida me copiando.

No começo, copiem.

Experimentem minhas sequências.
Usem minhas ferramentas.
Testem aquilo que ensino.

Foi assim que eu também comecei.

Mas depois façam alguma coisa muito mais importante: descubram o que tudo isso se torna nas mãos de vocês.

Estudem outras pessoas.
Conheçam outros métodos.
Discordem de mim.

Experimentem.
Mudem de opinião.
Criem.

E quando alguma coisa importante chegar até vocês através de alguém, façam uma coisa muito simples: digam de onde veio.

Não porque o professor precise ter seu nome repetido, mas porque gratidão também é prática.

No Yoga falamos muito sobre linhagem.
No Budismo também.

E talvez linhagem, em sua forma mais simples, seja isso: não fingir que começamos em nós mesmos.

Eu não comecei em mim.
Meus professores também não.

E aqueles que aprenderem comigo continuarão essa história.

Espero apenas que consigam ir além.

Um ensinamento vivo não deveria terminar nas mãos de quem o recebeu.

Ele deveria atravessá-las.
Ser cuidado.
Ser transformado.
E depois ser oferecido novamente.

Um dia alguém vai dizer: “uma vez eu ouvi…”

Espero que se lembre de perguntar: “de quem?”

E depois de reconhecer quem veio antes, faça aquilo que todos nós deveríamos fazer com um bom ensinamento.

— Edson Ramos


Leve adiante.

Levou algo daqui? Compartilhe.

Voltar para a Biblioteca
Continue a prática

As formações da escola

O que recebi de muitas fontes, atravessado pela minha experiência, é o que as formações transmitem.