Há mais de 30 anos eu começo meus dias praticamente da mesma maneira.
Faça chuva ou sol.
Esteja bem ou não.
Com vontade ou sem vontade.
Todos os dias eu paro diante do meu altar e faço minhas oferendas.
Coloco a água para beber.
A água para lavar.
As flores.
O incenso.
A luz.
O perfume.
O alimento.
E a música.
São gestos simples.
Tão simples que talvez alguém olhando de fora não consiga entender por que continuo repetindo a mesma coisa depois de tantos anos.
Mas talvez seja justamente a repetição que tenha tornado tudo isso tão importante para mim.
Durante alguns minutos, antes de começar a me ocupar com aquilo que o mundo espera de mim, eu me lembro de que existe algo além de mim.
Não quero falar aqui de religião. Cada um pode acreditar naquilo que quiser.
Quero falar da sensação de que existe algo maior do que aquilo que conseguimos compreender. E da importância de mantermos um espaço em nossa vida para nos lembrarmos disso.
Um lugar para voltar
Passamos boa parte da vida olhando para fora.
Trabalho.
Problemas.
Dinheiro.
Família.
Telefone.
Responsabilidades.
A mente vai sendo ocupada por tantas coisas que facilmente começamos a acreditar que a vida é somente aquilo que está acontecendo diante dos nossos olhos.
Por isso acredito que precisamos ter um lugar para voltar.
Meu altar é um desses lugares.
Com o tempo, essas oferendas deixaram de ser apenas parte de um ritual. Elas se tornaram parte da maneira como começo o meu dia.
Enquanto coloco a água, as flores, acendo o incenso, ofereço a luz, o perfume, o alimento e a música, alguma coisa dentro de mim também vai encontrando seu lugar.
É como se, por alguns minutos, eu colocasse o mundo em silêncio.
Não estou procurando respostas. Não estou pedindo nada.
Estou apenas cultivando a sensação de que existe algo maior do que aquilo que consigo ver, tocar ou compreender.
E isso me faz bem.
Talvez seja uma das razões pelas quais continuo fazendo isso depois de mais de trinta anos.
Não pela obrigação de repetir um ritual.
Mas porque, todos os dias, ele me ajuda a voltar.
Isso também é Yoga
Às vezes pensamos que praticamos Yoga somente quando abrimos o tapete.
Mas Yoga não pode depender de um tapete.
Existe Yoga quando movimentamos o corpo.
Existe Yoga quando respiramos.
Existe Yoga quando meditamos.
Mas também existe Yoga quando cultivamos atenção.
Quando agradecemos.
Quando oferecemos.
Quando ficamos alguns minutos em silêncio.
Quando fazemos alguma coisa todos os dias sem precisar que ninguém veja.
Meu altar faz parte da minha prática há mais de trinta anos.
E uma das coisas que aprendi é que nem todos os dias precisam ser especiais.
Tem manhã em que existe uma conexão profunda.
Tem manhã em que a cabeça está cheia.
Tem dia em que estou tranquilo.
Tem dia em que já acordo pensando em dez coisas diferentes.
Mesmo assim eu faço.
Isso me ensinou algo importante sobre prática.
Você não pratica apenas porque está conectado.
Muitas vezes você pratica justamente para se conectar novamente.
Talvez seja exatamente aí que uma prática comece a deixar de ser apenas uma coisa que fazemos e passe a fazer parte de quem somos.
Ter um lugar
Não estou dizendo que você precisa construir um altar ou fazer as mesmas oferendas que eu faço.
Esse é o meu caminho. O seu pode ser completamente diferente.
Pode ser acender um incenso pela manhã.
Uma vela à noite.
Sentar alguns minutos em silêncio.
Pode ser uma pequena mesa com alguma coisa que tenha significado para você. Pode ser simplesmente um canto da casa onde você se senta para respirar.
O objeto não é o mais importante.
O importante é ter um lugar onde, por alguns minutos, nada seja exigido de você.
Onde você não trabalha.
Não responde mensagens.
Não precisa produzir.
Não precisa melhorar.
Não precisa provar nada.
Apenas volta.
Acho que precisamos disso.
Porque existe um cansaço que dormir nem sempre resolve.
É aquele momento em que continuamos funcionando perfeitamente por fora, mas começamos a nos afastar de alguma coisa por dentro.
E talvez seja justamente para isso que servem esses pequenos lugares que construímos ao longo da vida.
Para nos recarregar.
Não como quem coloca mais energia para continuar fazendo coisas. Mas como quem retorna ao lugar de onde essa energia vem.
Faça chuva ou sol
Quando penso que faço essas oferendas há mais de trinta anos, percebo que aquele pequeno espaço já encontrou muitas versões de mim.
Eu mudei.
Minhas certezas mudaram.
Meu corpo mudou.
Minha maneira de ensinar mudou.
Minha compreensão sobre a prática também mudou.
Mas todas as manhãs existe aquele pequeno retorno.
E talvez essa seja uma das coisas mais importantes que uma prática repetida durante tantos anos pode ensinar.
Constância.
A água termina.
A flor perde sua beleza.
O incenso vira cinza.
A vela se apaga.
O alimento acaba.
A música termina.
E no dia seguinte começamos novamente.
Existe alguma coisa muito bonita nisso.
Nada precisa permanecer para ter valor. Nós também não permanecemos iguais.
Talvez o importante seja continuar encontrando o caminho de volta.
Por isso acredito que todos nós deveríamos encontrar algum lugar assim. Um pequeno espaço que nos lembre de que a vida não pode ser apenas aquilo que precisamos resolver.
Um lugar para o silêncio.
Para agradecer.
Para oferecer.
Para respirar.
Para acreditar que existe algo maior do que nós, mesmo sem precisar dar um nome a isso.
Meu lugar está ali há mais de trinta anos.
Faça chuva ou sol, eu volto.
— Edson Ramos
Talvez um ritual não exista para impedir que a gente se perca.
Talvez ele exista para que, quando isso acontecer,
a gente saiba o caminho de volta.