Diário · Ensinar e soltar

Seu professor precisa decepcionar você

Sobre o dia em que a imagem do professor se quebra e a pessoa aparece, e por que isso pode ser uma boa notícia.

Edson Ramos6 min de leitura

Existe um momento na relação entre professor e aluno que considero muito importante.

O momento em que o professor decepciona o aluno.

Não estou falando de abuso, desonestidade, falta de ética ou qualquer comportamento que deva ser justificado em nome de uma relação espiritual.

Estou falando de algo muito mais simples.

O momento em que você percebe que seu professor é humano.

Ele erra.
Tem dias ruins.
Pode responder de uma maneira que você não esperava.
Pode não saber alguma coisa.
Pode tomar uma decisão da qual você discorda.
Pode mudar de opinião.
Pode até deixar de corresponder à imagem que você construiu dele.

E por mais estranho que pareça, isso pode ser uma coisa muito boa.

No começo, precisamos acreditar

Quando começamos um caminho, é natural olhar para quem está mais à frente e enxergar alguma coisa que gostaríamos de encontrar em nós.

O professor parece saber.
Parece seguro.
Parece ter respostas.

Então seguimos.
Observamos.
Imitamos.

Isso faz parte do aprendizado.

Quando aprendemos um asana, copiamos.
Quando aprendemos uma sequência, copiamos.
Quando aprendemos a ensinar, durante algum tempo também copiamos.

Até nossa maneira de falar pode começar a parecer com a de quem nos ensinou.

Não vejo problema nisso. Imitação pode ser uma etapa do aprendizado.

O problema começa quando ela se torna o destino.

Um dia você precisa me encontrar

Depois de muitos anos formando professores, percebi uma coisa.

No início, alguns alunos não encontram exatamente o Edson.

Encontram a imagem que construíram de mim.
O professor.
O mestre.
A pessoa que supostamente sabe o que está fazendo.

E essa imagem pode ser muito maior do que a pessoa real.

Só que existe um Edson por trás do professor.

Um ser humano.
Com contradições.
Dúvidas.
Limitações.
Dias bons e ruins.
Coisas que sei.
E uma quantidade enorme de coisas que ainda não sei.

Se você permanecer tempo suficiente perto de mim, em algum momento vai encontrar esse cara.

E existe uma grande possibilidade de ele decepcionar você.

A decepção

A palavra decepção é interessante. Muitas vezes aquilo que se quebra não é a pessoa: é a expectativa que construímos sobre ela.

Você imaginou que seu professor nunca sentiria raiva.
E ele sente.

Que nunca teria dúvidas.
E ele tem.

Que sempre saberia o que fazer.
E algumas vezes não sabe.

Que depois de tantos anos de prática ele teria resolvido todos os problemas da existência.

Não resolveu.
Eu certamente não resolvi.

Prática não me tornou menos humano. Na verdade, com o passar dos anos, ela me fez enxergar cada vez mais claramente o quanto sou humano.

E isso mudou também aquilo que espero de um professor.

O perigo da idealização

Existe algo confortável em acreditar que outra pessoa encontrou todas as respostas.

Porque enquanto ela tiver as respostas, eu não preciso encontrá-las.

Posso perguntar:

O que devo fazer?
Como devo praticar?
O que é certo?
Qual caminho devo seguir?

E durante algum tempo o professor realmente precisa orientar.

Mas chega um momento em que continuar respondendo tudo pode deixar de ajudar.

O objetivo de um professor não deveria ser construir alunos que dependam dele. Deveria ser justamente o contrário.

Ensinar alguém até que essa pessoa consiga caminhar sem precisar segurá-lo pela mão.

Isso, para mim, é uma das partes mais difíceis de ensinar.

Você precisa discordar de mim

Eu gosto quando um aluno começa a fazer perguntas melhores.

Mais ainda quando começa a discordar.

Não a discordância vazia de quem precisa provar alguma coisa, e sim aquela que nasce da experiência.

Eu entendi o que você ensinou, pratiquei, investiguei e percebi outra possibilidade.

Excelente. Agora existe alguma coisa sua acontecendo.

Se depois de dez anos comigo você pensa exatamente como eu, ensina exatamente como eu, pratica exatamente como eu e precisa da minha aprovação para saber se está certo, alguma coisa deu errado.

Eu não quero formar pequenos Edsons.

Quero formar pessoas capazes de enxergar coisas que eu não enxerguei.
Ensinar coisas que eu nunca soube.
Perceber limitações no meu próprio método.

Um aluno não deveria ser o ponto final do conhecimento do professor. Deveria ser sua continuação.

Mate o professor

Existe uma ideia antiga nas tradições contemplativas que sempre me provocou.

Em algum momento, simbolicamente, precisamos matar o mestre.

Não a pessoa.
A dependência.
A imagem.
A autoridade que colocamos dentro da nossa própria cabeça.

Enquanto precisamos perguntar ao professor quem devemos ser, ainda não somos completamente responsáveis pelo nosso caminho.

O professor aponta.
Mostra ferramentas.
Compartilha aquilo que aprendeu.
Às vezes evita que você caia em alguns buracos nos quais ele próprio já caiu.

Mas existe um limite.

Eu não consigo praticar por você.
Não consigo meditar por você.
Não consigo amadurecer por você.

E principalmente: não consigo viver sua vida por você.

O professor também precisa soltar

Existe ainda outro lado dessa história. O professor também precisa amadurecer.

Porque é muito agradável ser necessário.
Ser consultado.
Ser admirado.
Ter pessoas perguntando o que fazer.

Existe ego nisso também.

Por isso, chega uma hora em que não é apenas o aluno que precisa soltar o professor. O professor precisa ter coragem de soltar o aluno.

Permitir que ele experimente.
Que erre.
Que encontre outras referências.
Que desenvolva sua linguagem.
Que descubra um caminho diferente daquele que nós escolheríamos.

Esse é um dos maiores sinais de que conseguimos ensinar alguma coisa: quando o aluno já não precisa de nós como precisava antes.

O que uma formação deveria fazer

Por isso nunca pensei que uma formação terminasse quando alguém recebe um certificado.

O certificado apenas diz que uma etapa terminou.

A formação verdadeira começa depois.

Quando você está sozinho.
Quando aparece uma situação que não estava na apostila.
Quando um aluno faz uma pergunta que seu professor nunca respondeu.
Quando aquilo que você aprendeu já não é suficiente.

Nesse momento você precisa pensar.
Investigar.
Experimentar.
Assumir responsabilidade.

A formação mostra o caminho. Chega um momento em que o professor para, e o aluno continua.

É assim que deve ser.

Um bom professor não deveria desejar permanecer para sempre na frente do aluno. Deveria desejar o dia em que o aluno consiga enxergar além dele.

Então, se algum dia seu professor decepcionar você porque finalmente mostrou que é humano, observe antes de simplesmente destruir tudo aquilo que aprendeu com ele.

Alguma coisa importante pode estar acontecendo.

Talvez você esteja deixando de seguir uma pessoa para começar verdadeiramente a seguir o Caminho.

E, para mim, existe uma pergunta ainda mais bonita que um professor pode fazer depois de muitos anos ensinando:

Será que meus alunos ainda precisam de mim?

— Edson Ramos


Se a resposta for cada vez menos,
talvez eu tenha feito meu trabalho direito.

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