Tenho percebido uma necessidade cada vez maior de saber de que lado as pessoas estão.
Não apenas na política.
Em tudo.
Parece que antes de ouvir alguém precisamos classificá-lo.
É daqui ou de lá?
Acredita nisso ou naquilo?
Pertence a qual grupo?
Segue qual linha?
E quando a pessoa não responde claramente, isso começa a incomodar.
Alguns dos meus alunos também querem saber.
Querem conhecer minha opinião.
Querem saber onde eu me coloco diante de tudo que está acontecendo.
Eu entendo.
Mas existe uma razão muito pessoal para eu ter dificuldade em me colocar dentro de determinados lugares e fechar a porta atrás de mim.
Minha vida inteira foi construída entrando e saindo de mundos diferentes.
Eu aprendi cedo a atravessar portas
Eu nasci pobre e fui criado no morro.
Essa é minha história.
Também tive amigos que viviam uma realidade completamente diferente da minha.
Amigos com dinheiro.
Carros que eu não tinha.
Casas que não pareciam pertencer ao mundo onde eu vivia.
Restaurantes que eu não frequentaria sozinho.
Quando me convidavam, eu ia.
Entrava.
Sentava à mesa.
Conversava.
Observava.
E por algumas horas fazia parte daquele mundo.
Depois voltava para casa.
E também acontecia o contrário.
Eu podia entrar em outra favela e reconhecer imediatamente aquela linguagem.
O jeito das pessoas.
As dificuldades.
As brincadeiras.
Os códigos.
Aquilo também era familiar.
Eu conseguia estar nos dois lugares.
E, sem perceber, comecei a aprender uma coisa que carregaria para o resto da vida:
Eu não precisava negar um mundo para conseguir entrar no outro.
Não quero fechar a porta
Quando você aprende a atravessar ambientes muito diferentes, começa a perceber que a realidade fica pequena quando vista de um único lugar.
No morro eu aprendi coisas que meus amigos ricos não conheciam.
Com eles conheci possibilidades que eu não sabia que existiam.
Um mundo não anulava o outro.
Um mostrava coisas que faltavam ao outro.
E eu gostava de poder atravessar a porta.
Entrar.
Observar.
Aprender.
E sair sem precisar incendiar a casa depois.
Acho que continuo fazendo isso.
Também fiz isso com minha prática
Nunca consegui estudar uma tradição acreditando que, para respeitá-la, precisaria desprezar todas as outras.
Se estudo Vedanta, isso não me obriga a considerar Tantra um inimigo.
Se estudo Budismo, não preciso fingir que nada fora dele possui valor.
Se encontro algo importante no Yoga Tibetano, isso não apaga aquilo que aprendi em outras escolas.
Foi justamente transitando entre tradições, professores e métodos diferentes que construí grande parte daquilo que ensino hoje.
Alguns se contradizem.
Outros se complementam.
Alguns respondem perguntas que os outros nem fizeram.
E isso é maravilhoso.
Porque conhecimento não precisa funcionar como torcida.
Posso aprender profundamente com alguma coisa sem precisar declarar guerra a tudo aquilo que está fora dela.
Minha opinião existe
Isso não significa que eu não tenha opinião.
Tenho.
Também tenho valores muito claros.
Existem coisas que aceito e coisas que não aceito.
Existem momentos em que me posiciono.
Quem convive comigo provavelmente conhece muito do que acredito pela maneira como vivo.
Existe, porém, uma diferença entre ter uma opinião e sentir a obrigação de apresentá-la toda vez que alguém exige saber de que lado estou.
Principalmente quando percebo que a pergunta não está sendo feita para me conhecer.
Está sendo feita para me classificar.
Depois da resposta, pode vir outra pergunta silenciosa:
“Então você é dos nossos ou deles?”
Essa conversa me interessa muito pouco.
Nem todo ambiente é seguro para uma conversa
Também existe uma coisa que precisamos reconhecer.
Para existir diálogo, precisamos conseguir falar sem que cada frase seja imediatamente transformada em arma.
Eu sempre consegui mostrar minha realidade quando alguém realmente queria conhecê-la.
Nunca tive problema em dizer de onde vim.
O que vivi.
O que penso.
Só que uma conversa precisa de alguma segurança.
Precisa existir curiosidade dos dois lados.
Se você já decidiu quem eu sou antes de eu terminar a frase, a conversa já terminou.
Estamos apenas esperando nossa vez de atacar ou defender.
E isso explica muito do momento que estamos vivendo.
Todo mundo está falando.
Pouca gente está realmente ouvindo.
Existem problemas maiores que nossas divisões
Quando olho para o mundo, tenho dificuldade em acreditar que nossa maior tarefa seja encontrar mais motivos para dividir quem já está próximo.
Existem pessoas sofrendo.
Fome.
Guerras.
Violência.
Doenças.
Solidão.
Desigualdade.
Questões ambientais.
Seres humanos tentando simplesmente atravessar mais um dia.
Essas coisas não perguntam primeiro de que lado estamos.
Existem problemas grandes demais para serem resolvidos por uma metade da humanidade tentando derrotar a outra.
Nossas diferenças não precisam desaparecer.
Só não podemos esquecer o tamanho daquilo que compartilhamos.
Eu quero continuar entrando e saindo
Quero continuar conseguindo sentar à mesa com pessoas diferentes de mim.
Quero ouvir alguém e pensar:
“Discordo completamente disso.”
E continuar ouvindo.
Quero encontrar uma boa ideia em um lugar onde não esperava encontrá-la.
Quero continuar estudando professores que discordam entre si.
Quero conseguir mudar de opinião sem sentir que traí algum grupo.
E quero que meus alunos tenham essa mesma liberdade.
Não quero dizer a eles o que precisam pensar.
Quero ajudá-los a desenvolver ferramentas para pensar melhor.
Minha opinião pode ser importante.
A consciência deles é mais importante do que minha opinião.
Não preciso saber seu lado para praticar com você
Isso é algo que quero preservar dentro da nossa Sangha.
Quando alguém entra para praticar comigo, não quero primeiro saber em quem votou.
Não quero saber sua religião.
Quanto dinheiro possui.
De onde veio.
Qual filosofia escolheu.
Quero saber quem chegou.
Quando começamos a respirar juntos, muitas dessas fronteiras ficam menos importantes.
Não desaparecem.
Passam a ocupar o tamanho que deveriam ocupar.
São partes de nós.
Não precisam ser tudo aquilo que somos.
A porta continua aberta
Eu nasci atravessando mundos.
Do morro para lugares que pareciam impossíveis para mim.
Depois de volta.
Mais tarde atravessei outras fronteiras.
Entre tradições.
Professores.
Métodos.
Ideias.
E quero continuar assim.
Com valores.
Com discernimento.
Com opinião.
Mas com a porta aberta.
Porque aprendi uma coisa importante vivendo entre ambientes tão diferentes:
Se eu precisar odiar o lugar de onde você veio para permanecer fiel ao lugar de onde eu vim, alguma coisa deu errado.
Você não precisa pensar como eu para sentar ao meu lado.
Também não preciso pensar como você.
Podemos discordar e continuar procurando aquilo que existe de verdadeiro na experiência um do outro.
Em um momento em que tanta gente parece ansiosa para descobrir de que lado todos estão, eu prefiro outra pergunta:
Ainda conseguimos ficar do mesmo lado quando aquilo que está diante de nós é o sofrimento de alguém?
— Edson Ramos
Se conseguirmos começar por aí, já temos alguma coisa em comum.
E, para mim, é uma porta que vale a pena manter aberta.