Lokah Samastah Sukhino Bhavantu.
Que todos os seres sejam felizes.
Será?
Hoje não quero escrever um texto confortável.
Também não quero convencer você de nada.
Quero contar qual é a minha posição.
Depois disso, faça sua escolha.
Durante anos vi praticantes de Yoga sentados em roda.
Coluna ereta.
Mãos diante do peito.
Olhos fechados.
Corpo balançando suavemente.
A voz cheia de intenção:
Lokah Samastah Sukhino Bhavantu.
Que todos os seres sejam felizes.
Bonito.
Mas hoje quero fazer uma pergunta que pode incomodar:
você acredita realmente no que está dizendo?
Porque mantra não é decoração espiritual.
Não é trilha sonora para terminar uma aula.
Não são palavras bonitas que pronunciamos enquanto estamos cercados por pessoas que pensam exatamente como nós.
Se vamos colocar essas palavras na boca, em algum momento elas precisam aparecer na nossa vida.
Todos
O problema desse mantra está em uma única palavra:
todos.
Não diz:
que os meus sejam felizes.
Que aqueles que concordam comigo sejam felizes.
Que aqueles que votaram como eu sejam felizes.
Que meu grupo seja feliz.
Diz todos.
E é exatamente aí que minha indignação começa.
Porque estou vendo pessoas que passaram anos falando sobre Yoga, união, compaixão, ahimsa, amor e consciência desejando sofrimento para outra pessoa simplesmente porque ela fez uma escolha política diferente.
Desculpem.
Mas alguma coisa não fecha.
Você pode discordar.
Pode argumentar.
Pode votar diferente.
Pode considerar a opinião do outro absurda.
Pode combater uma ideia.
Pode estabelecer limites.
Tudo isso faz parte da vida em sociedade.
Mas quando começamos a desejar sofrimento ao ser humano que está do outro lado, precisamos ter coragem para olhar novamente para aquilo que estamos chamando de prática.
Quer saber minha posição?
Muitos alunos têm me procurado.
Alguns aflitos.
Outros com medo.
Alguns querendo saber o que penso.
E outros praticamente exigindo que eu diga de que lado estou.
Então vou facilitar.
Não tente descobrir se sou de direita ou de esquerda.
Quer saber minha posição?
Eu não vou utilizar minha escola para ensinar você a odiar metade das pessoas.
Essa é minha posição.
Não vou perguntar seu voto antes de recebê-lo.
Não vou escolher quem merece minha compaixão baseado em posição política.
E não vou transformar o lugar de professor em instrumento para dizer aos meus alunos em quem precisam acreditar.
Você tem consciência.
Use.
Você tem inteligência.
Investigue.
Você tem voto.
Ele é seu.
“Quem não se posiciona não pratica Yoga de verdade”
Também ouvi algo parecido com isso.
E pensei bastante.
Se essa for a definição, então realmente não praticamos o mesmo Yoga.
Porque o Yoga que tento viver não me pede para descobrir primeiro a posição política de alguém antes de decidir se essa pessoa merece sentar ao meu lado.
O Yoga que ensino precisa conseguir receber duas pessoas que discordam profundamente e ainda oferecer um espaço onde ambas consigam respirar.
Isso não é ausência de valores.
Muito menos covardia.
Isso é uma escolha.
E dá trabalho.
É muito mais fácil amar quem concorda conosco.
Existe um limite dentro da minha escola
E aqui eu quero ser muito claro.
Não vou admitir que nossa Sangha se transforme num lugar de hostilidade entre alunos por causa de suas escolhas políticas.
Não quero saber qual foi a escolha.
O limite é o comportamento.
Se você humilha.
Agride.
Persegue.
Constrange.
Desumaniza.
Ou faz outro aluno se sentir ameaçado porque ele pensa diferente de você…
a questão deixa de ser política.
Passa a ser uma questão de convivência.
E aí eu tenho, sim, uma posição.
Eu vou cuidar de quem foi ferido.
Sempre.
Se para permanecer perto de mim você precisa que eu odeie quem você odeia, então provavelmente não conseguiremos caminhar juntos.
Não porque você votou em A ou B.
Mas porque não quero construir esse tipo de comunidade.
Não sectarismo não é uma palavra bonita
Eu sempre ensinei não sectarismo.
E isso nunca significou:
“tudo está certo.”
Significa outra coisa.
Eu posso estudar uma tradição profundamente sem precisar destruir a outra.
Posso estudar Vedanta e aprender com Tantra.
Posso estudar Budismo e continuar reconhecendo sabedoria fora dele.
Posso praticar um método e reconhecer que outro método enxerga alguma coisa que o meu não enxerga.
Sempre digo:
Todos os métodos podem carregar alguma verdade e todos são incompletos.
Inclusive o meu.
Por que eu deveria acreditar que seres humanos funcionam de maneira diferente?
Você pode enxergar alguma coisa que eu não enxergo.
Eu posso enxergar algo que você não percebeu.
E é justamente por isso que ainda precisamos conversar.
Eu nem estarei aqui
Existe ainda uma ironia nisso tudo.
Se eu quisesse transformar minha vida em militância pública, provavelmente começaria tendo redes sociais ativas.
Não tenho.
Não vivo produzindo opinião sobre cada acontecimento.
E no domingo da eleição estarei em Belo Horizonte fazendo aquilo que considero parte do meu Dharma.
Ensinando.
Por causa disso, nem estarei aqui para votar.
Não estou dizendo isso para demonstrar superioridade.
Estou dizendo porque minhas escolhas mostram onde decidi colocar minha energia.
Cada pessoa precisa decidir onde colocará a sua.
Então voltemos ao começo
Depois de toda essa agitação, eu só quero voltar para essas palavras:
Que todos os seres sejam felizes.
Se ainda existe alguma sabedoria naquilo que estamos praticando, não repita isso automaticamente.
Pare.
Pense em quem você ama.
Que essa pessoa seja feliz.
Agora pense em quem pensa como você.
Que seja feliz.
E agora faça a parte difícil.
Pense naquela pessoa que você não suporta neste momento.
Aquela que fez a escolha que você considera errada.
Aquela cuja opinião irrita você.
Aquela que você gostaria de retirar do seu mundo.
E diga:
Que ela também seja feliz.
Não precisa concordar com ela.
Não precisa convidá-la para jantar.
Não precisa abandonar seus princípios.
Só precisa reconhecer que existe um ser humano ali.
Se você não consegue fazer isso ainda, tudo bem.
Mas não transforme sua incapacidade em virtude espiritual.
Reconheça que existe trabalho a fazer.
Eu também tenho o meu.
Meu lado
Prometi contar qual é meu lado.
É esse.
Eu fico do lado do aluno que entra na nossa escola e precisa ser tratado com dignidade.
Fico do lado da convivência.
Do diálogo quando ainda existe possibilidade de diálogo.
Da firmeza quando alguém ultrapassa o limite.
E da compaixão sem a ingenuidade de achar que compaixão significa aceitar qualquer comportamento.
Você pode achar pouco.
Pode achar muito.
Pode achar que isso não é se posicionar.
Tudo bem.
Mas não me peça para escolher quais seres merecem estar dentro da frase que repetimos juntos.
Porque nesse ponto minha escolha já foi feita.
Lokah Samastah Sukhino Bhavantu.
Que todos os seres sejam felizes.
— Edson Ramos
Se for para dizer…
que seja verdade.