Diário · Memória

Quando Saber Tornou Tudo Mais Difícil

Entrei num templo Zen aos 17 anos só para descobrir o que era aquilo, e o que aprendi ali começou tornando a minha vida mais difícil.

Edson Ramos7 min de leitura

Eu sempre fui uma criança um pouco diferente.

Hoje, olhando para trás, às vezes penso que algumas características minhas provavelmente receberiam algum nome, alguma classificação.

Naquela época era apenas o meu jeito.

Eu levava as coisas muito ao pé da letra.
Principalmente aquilo que considerava certo ou errado.

Se uma regra existia, para mim havia uma razão para ela existir.
Se alguma coisa era errada, continuava sendo errada mesmo que ninguém estivesse olhando.

Isso me acompanhou a vida inteira.

Já fui chamado muitas vezes de “politicamente correto” por causa disso.
Nunca me incomodou muito.

Eu só tinha dificuldade de fazer conscientemente alguma coisa que, dentro de mim, já havia decidido que não era correta.

Ainda faltava uma coisa.

Eu tinha princípios.
Ainda não tinha consciência suficiente para enxergar todas as minhas contradições.

Um templo no meio da favela

Eu morava em uma favela.

E, por alguma dessas coincidências estranhas que depois parecem ter sido colocadas exatamente no lugar certo, havia ali um templo Zen Budista.

Aos 17 anos entrei.

Não porque tivesse uma grande crise espiritual.
Não porque estivesse procurando iluminação.

Entrei para descobrir o que era aquilo.

Às vezes penso em quantas coisas importantes da nossa vida começam assim.

Sem grande anúncio.

Você simplesmente abre uma porta.
E não sabe que depois dela existe uma parte enorme da sua história.

Foi assim comigo.

Entrei curioso.
E fiquei.

Comecei a meditar.

As meditações eram longas e meu corpo não estava preparado para aquilo.

Foi então que o Yoga entrou na minha vida.

Não comecei Yoga porque queria ficar flexível.
Não queria fazer posturas bonitas.
Não existia Instagram.

Eu queria simplesmente conseguir ficar sentado por mais tempo sem que meu corpo atrapalhasse minha meditação.

O Yoga começou como uma ferramenta para o Zen.

Eu ainda não sabia o tamanho da confusão que aquilo criaria na minha vida.

O problema de começar a enxergar

Existe uma ideia que gosto muito no Budismo.

Aquilo que chamamos de ignorância não significa simplesmente não conhecer alguma coisa.
É não enxergar claramente.

Não perceber nossas ações, nossas motivações, nossas consequências.

Antes daqueles ensinamentos, eu fazia muitas coisas e simplesmente fazia.

Depois, comecei a observar.

E quando você começa a observar, algumas coisas ficam mais difíceis.

Existe uma liberdade estranha em não perceber.

Você age.
Vai embora.
Dorme.
No dia seguinte começa novamente.

Mas quando a consciência entra no meio…

alguma coisa muda.

O que eu fazia na ignorância começou a pesar quando eu deitava para dormir.

Esse foi um dos primeiros grandes ensinamentos que recebi.

Espiritualidade nem sempre começa fazendo você se sentir melhor.

Às vezes ela começa fazendo você enxergar aquilo que antes conseguia ignorar.

Minhas contradições

Minha vida naquela época era cheia delas.

Eu meditava pela manhã.
E à noite estava na Furacão 2000 dançando.

Participava de retiros.
Limpava o templo.
Passava horas em silêncio.

E também praticava tiro de precisão.

Em determinados momentos eu estava estudando ensinamentos sobre não violência, compaixão e mente.

Em outros, vivendo experiências que pareciam pertencer à vida de outra pessoa.

E durante muito tempo achei que precisava escolher qual daqueles Edson era o verdadeiro.

Hoje não penso mais assim.

Todos eram.

Esse é um problema que criamos quando começamos um caminho espiritual.

Imaginamos que existe uma versão “espiritual” de nós e outra que precisa desaparecer.

O meditador é bom.
O contraditório é ruim.
O silencioso é evoluído.
O confuso precisa ser eliminado.

Demorei muitos anos para entender que o Caminho do Meio não era destruir metade de mim para preservar a metade que parecia mais bonita.

Era aprender a conhecer tudo aquilo que existia ali.

Eu era muito tímido

Eu também era extremamente tímido.

Muito.

Nunca fui a pessoa que precisava dominar uma conversa.
Nunca tive vontade de falar o tempo inteiro.

Alguma coisa curiosa acontecia.

Quando eu finalmente decidia falar…

as pessoas costumavam ouvir.

Na época eu não entendia isso.

Hoje percebo que talvez o silêncio tenha me ensinado uma coisa muito antes de eu me tornar professor:

falar menos muda o peso daquilo que dizemos.

Quem fala o tempo inteiro precisa disputar atenção.

Quem aprende a observar começa a descobrir quando existe alguma coisa que realmente precisa ser dita.

Anos depois isso se tornaria parte do meu trabalho.

Naquela época eu ainda não imaginava que algum dia passaria boa parte da vida falando diante de pessoas.

Eu só era um garoto tímido tentando entender a própria cabeça.

Comecei a abandonar coisas

Os ensinamentos começaram a interferir na minha vida muito cedo.

Abandonei algumas coisas.
Mudei outras.

Comecei a questionar comportamentos que até então pareciam normais.

E durante algum tempo isso também me tornou rígido.

Quando encontramos um ensinamento que faz sentido, existe um perigo.

Queremos aplicá-lo imediatamente a tudo.

Certo.
Errado.
Pode.
Não pode.
Espiritual.
Não espiritual.

Eu já tinha uma personalidade inclinada a levar regras muito a sério.

Coloque Budismo e Yoga nas mãos de um garoto assim e imagine o resultado.

Demorei anos para aprender algo que hoje considero fundamental:

conhecimento sem maturidade também pode virar prisão.

Foi ficando mais velho que comecei a encontrar algum equilíbrio.

Não precisei abandonar os ensinamentos.
Precisei aprender a viver com eles.

Existe uma diferença enorme.

Yoga tornou minha vida mais difícil

Normalmente vendemos Yoga de outra maneira.

Yoga vai trazer paz.
Vai diminuir seu estresse.
Vai melhorar sua vida.

Pode fazer tudo isso.

Mas comigo aconteceu uma coisa antes.

Yoga tornou algumas partes da minha vida mais difíceis.

Porque eu comecei a perceber.

Perceber o corpo.
Perceber meus pensamentos.
Perceber minhas ações.

Perceber quando aquilo que eu fazia não combinava com aquilo em que dizia acreditar.

E depois que você vê…

fica muito difícil voltar a não ver.

Esse é o preço da consciência.

Antes você sofre sem entender.
Depois começa a compreender por que sofre.

E isso nem sempre traz alívio imediatamente.

Às vezes traz responsabilidade.

Enquanto eu não percebo determinado comportamento, posso dizer:

“Eu não sabia.”

Depois que percebo, a pergunta muda:

“Agora que sei, o que vou fazer com isso?”

Para mim, esse foi o início verdadeiro da prática.

Não quando consegui permanecer mais tempo sentado.
Não quando aprendi uma postura.
Não quando entendi algum ensinamento budista.

Foi quando aquilo que eu aprendia começou a interferir na maneira como eu vivia.

O primeiro preço da consciência

Hoje percebo que durante muitos anos procurei equilíbrio entre pessoas que pareciam incompatíveis dentro de mim.

O garoto da favela.
O meditador.
O praticante de Yoga.
O rapaz que dançava.
O praticante de tiro.
O homem extremamente rígido com aquilo que considerava correto.
O tímido.
E aquele que, quando finalmente falava, era ouvido.

Durante muito tempo achei que evolução espiritual significava decidir qual deles deveria sobreviver.

Hoje penso diferente.

A prática foi me ensinando a olhar para todos eles sem precisar fugir.

Yoga não deveria criar uma personalidade artificialmente espiritual.

Budismo não deveria transformar alguém numa caricatura de serenidade.

Prática deveria aumentar nossa capacidade de enxergar.

Inclusive aquilo que preferiríamos não enxergar.

Talvez por isso eu tenha aprendido tão cedo uma coisa que só consegui compreender realmente muito mais velho:

a consciência não chega para tornar nossa vida imediatamente mais confortável.
Ela chega para tornar impossível continuar vivendo algumas coisas da mesma maneira.

Primeiro você enxerga.
Depois se incomoda.
Depois luta contra aquilo.

Às vezes exagera.
Às vezes se torna rígido.
Às vezes abandona coisas demais.

E, com alguma sorte e muitos anos de prática, começa a encontrar um lugar no meio.

Foi assim comigo.

O Yoga entrou na minha vida para me ajudar a ficar sentado em meditação.

Acabou fazendo algo muito maior.

Ele me obrigou a levantar e começar a olhar para a maneira como eu estava vivendo.

E esse foi apenas o começo.

— Edson Ramos


Ainda levaria muitos anos para eu descobrir que existia outro perigo escondido naquele caminho:
transformar a disciplina que estava me libertando em mais uma forma de prisão.

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