Diário · Permanecer e Soltar

Quando é hora de soltar?

Persistir é uma virtude e soltar também é. O difícil é saber qual das duas está falando quando chega a hora de decidir.

Edson Ramos3 min de leitura

Hoje acordei pensando em uma pergunta para a qual não encontrei uma resposta definitiva:

Até onde devemos lutar por alguma coisa e quando devemos aceitar que terminou?

Porque persistir é uma virtude.

Soltar também é.

E as duas podem ser confundidas facilmente com coisas bem menos nobres.

Às vezes chamamos apego de perseverança.

Outras vezes chamamos desistência de desapego.

Fica mais um pouco

Existem coisas que só acontecem porque permanecemos quando seria muito mais fácil ir embora.

Um projeto que demora para dar resultado.
Uma habilidade que parece não evoluir.
Uma relação atravessando uma fase difícil.
Um sonho que começa a cobrar um preço maior do que imaginávamos.

Nesses momentos, o desconforto não significa necessariamente que estamos no caminho errado.

Algumas coisas simplesmente são difíceis.

A semente não está morta só porque ainda não apareceu nada sobre a terra. Existe um período em que todo o trabalho acontece onde ninguém consegue ver.

Talvez conosco seja parecido.

Desistir cedo demais pode nos impedir de descobrir aquilo que existia depois da dificuldade.

Por isso permanecer importa.

Mas existe um momento em que já terminou

O problema é que somos muito bons em continuar conversando com coisas que já acabaram.

Uma relação terminou, mas continuamos discutindo mentalmente com aquela pessoa.

Um projeto perdeu o sentido, mas continuamos investindo porque já investimos demais.

Uma ideia sobre quem deveríamos ser deixou de fazer sentido, mas continuamos tentando corresponder a ela.

Não estamos mais construindo.

Estamos tentando ressuscitar.

E existe uma diferença enorme entre lutar por alguma coisa viva e se recusar a aceitar que alguma coisa morreu.

O futuro também pode virar apego

Pensamos muito no apego ao passado.

Existe também apego ao futuro.

Criamos uma imagem.

“Minha vida será assim.”
“Essa pessoa estará comigo.”
“Meu negócio chegará lá.”
“Meu corpo conseguirá isso.”
“Quando aquilo acontecer, finalmente…”

E começamos a amar não aquilo que existe, mas aquilo que imaginamos que existirá.

Quando a realidade muda de direção, tentamos empurrá-la de volta para o roteiro.

É uma forma estranha de sofrimento. Não estamos sofrendo apenas pelo que perdemos.

Estamos sofrendo por uma coisa que nunca chegou a existir.

Nosso ego é um excelente advogado

Essa é a parte complicada.

Quando queremos continuar, encontramos excelentes argumentos para continuar.

“Não posso desistir.”
“Sou persistente.”
“Preciso lutar pelo que acredito.”

Quando queremos fugir, encontramos argumentos igualmente bonitos:

“Estou soltando.”
“Não tenho apego.”
“Entendi que meu ciclo terminou.”

Nosso ego sabe usar palavras espirituais muito bem.

Por isso comecei a achar que a pergunta não deveria ser apenas “devo ficar ou ir?”. Existe uma pergunta anterior:

O que em mim está tomando essa decisão?

Medo?
Orgulho?
Amor?
Apego?
Cansaço?
Lucidez?
Necessidade de provar alguma coisa?

Essa pergunta muda tudo.

Não existe uma regra

Eu gostaria que existisse.

Três sinais para saber quando desistir. Cinco passos para saber quando continuar. Seria ótimo.

Mas a vida não funciona como um post de Instagram.

Às vezes insistir é coragem.
Às vezes é incapacidade de aceitar.
Às vezes ir embora é sabedoria.
Às vezes é apenas medo.

E duas situações externamente idênticas podem exigir respostas completamente diferentes.

Por isso discernimento é tão difícil. Ele exige que a gente observe a situação sem escolher primeiro a resposta que gostaria de encontrar.

Hoje não tenho uma resposta

E esse é justamente o Diário de hoje.

Não quero terminar dizendo o que você deve fazer. Quero deixar uma pergunta.

Pense em alguma coisa pela qual você está lutando neste momento.

Uma relação.
Um projeto.
Uma ideia.
Uma expectativa.
Qualquer coisa.

E retire por alguns instantes tudo aquilo que você já investiu nela.

Tempo.
Dinheiro.
Orgulho.
História.
Expectativa.

Agora olhe novamente.

Se essa coisa aparecesse hoje pela primeira vez na sua vida, você ainda escolheria entrar nela?

Eu não sei qual será sua resposta. Nem deveria saber.

Mas acho que vale a pena fazer a pergunta.

— Edson Ramos


Persistir é uma virtude.
Soltar também é.

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Pratique no Dojo

Observar sem escolher antes a resposta que a gente queria encontrar é treino. No Dojo as aulas, a respiração e a meditação ficam sempre no mesmo lugar, um pouco por dia.