Durante seis anos eu dei aulas pelo Zoom.
Ao vivo.
Dia e hora marcados.
Todo mundo precisava estar ali.
Com o tempo, os alunos começaram a me pedir uma coisa:
“Grava a aula para a gente fazer depois?”
Comecei a gravar.
E aos poucos percebi algo interessante.
Uma grande parte das pessoas já não fazia a aula ao vivo.
Assistia depois.
No horário que conseguia.
Voltava em determinados trechos.
Repetia uma prática.
Estudava uma sequência.
Alguns professores utilizavam aquelas aulas como inspiração para construir suas próprias aulas.
E comecei a entender que aquilo que eu estava oferecendo já não era apenas uma aula.
Estava virando uma ferramenta.
Foi daí que começou a nascer o Oss Yoga Dojo.
Por que criar o Dojo?
Eu poderia simplesmente ter criado uma biblioteca de vídeos.
Aula 1.
Aula 2.
Aula 3.
Escolha uma e pratique.
Mas isso não resolveria aquilo que eu estava observando.
As pessoas não precisavam apenas de mais vídeos.
Vídeo já existe demais.
Precisavam conseguir entrar em um lugar e encontrar alguma coisa que ajudasse naquele momento.
Quero praticar.
Quero estudar.
Preciso de uma ideia para minha aula.
Quero trabalhar mobilidade.
Quero respirar.
Quero uma prática mais curta.
Quero entender determinado movimento.
Quero voltar a alguma coisa que estava estudando.
Foi por isso que comecei a colocar tantas ferramentas dentro do Dojo.
Não queria criar mais um aplicativo.
Queria construir uma espécie de caixa de ferramentas para quem pratica e para quem ensina Yoga.
Só que aconteceu uma coisa engraçada.
Depois de anos pedindo gravações…
agora começaram a pedir:
“Edson, queremos aulas ao vivo.”
Eu ri.
Porque isso explica muito sobre nós.
Conseguimos. Acostumamos. Queremos outra coisa.
Existe um fenômeno humano muito interessante.
Desejamos alguma coisa.
Quando conseguimos, existe satisfação.
Depois de algum tempo aquilo se torna normal.
E nossa atenção começa a procurar outra coisa.
Queríamos liberdade de horário.
Conseguimos.
Agora sentimos falta do encontro.
Queríamos poder praticar sozinhos.
Depois sentimos falta da Sangha.
Queríamos não depender de terça-feira às sete.
Depois descobrimos que terça-feira às sete também tinha alguma coisa especial:
todo mundo estava ali.
Isso não significa que somos ingratos.
Significa que nos adaptamos.
Aquilo que ontem era novidade hoje faz parte da paisagem.
E então outra necessidade começa a aparecer.
Somos cíclicos
Existe ainda outra coisa.
Não queremos sempre a mesma experiência.
Existem momentos em que precisamos de autonomia.
Quero abrir o Dojo e fazer minha prática sozinho.
No meu horário.
No meu ritmo.
Parar.
Voltar.
Repetir.
Estudar.
Mas existem dias em que não quero decidir nada.
Quero chegar.
Encontrar meu professor.
Encontrar outras pessoas.
E ouvir:
“Hoje vamos fazer isso.”
Isso também é importante.
Tem dias em que precisamos de silêncio.
Em outros, precisamos de comunidade.
Tem dias em que queremos liberdade.
Em outros, estrutura.
Às vezes queremos estudar.
Às vezes queremos apenas praticar.
O erro seria construir uma ferramenta imaginando que o ser humano permanecerá para sempre com a mesma necessidade.
Não vai.
O problema nunca foi escolher entre ao vivo e gravado
Essa foi a parte que comecei a entender.
Durante algum tempo parecia que eu precisava escolher.
Aulas ao vivo ou gravadas?
Hoje a pergunta me parece pequena.
Por que não compreender a função de cada uma?
A aula ao vivo oferece encontro.
Compromisso.
Energia coletiva.
Professor e aluno dividindo aquele instante.
A aula gravada oferece outra coisa.
Autonomia.
Repetição.
Estudo.
Pesquisa.
A possibilidade de voltar.
Para um professor de Yoga isso é ainda mais valioso.
Ele pode praticar uma aula hoje.
Voltar amanhã.
Observar uma transição.
Estudar uma condução.
Experimentar um movimento.
E depois deixar aquilo passar pela própria experiência antes de levar alguma coisa para seus alunos.
São ferramentas diferentes.
Não concorrentes.
Foi assim que o Dojo começou a mudar
E é assim que quero continuar construindo.
Não quero que o Dojo seja um lugar onde você entra apenas para apertar o play.
Quero que seja um lugar onde um praticante encontre prática.
Um estudante encontre estudo.
E um professor encontre ferramentas para trabalhar.
Práticas.
Mobilidade.
Respiração.
Meditação.
Música.
Referências.
Ideias.
Ferramentas para criar.
Possibilidades para investigar.
E também encontro.
Porque agora os próprios alunos estão mostrando qual é o próximo passo.
E eu aprendi a prestar atenção nisso.
O aluno também constrói a escola
Essa história toda me ensinou algo que considero importante.
Às vezes acreditamos que inovar é ter uma grande ideia sozinho.
Não foi assim.
O Dojo nasceu porque alguém pediu uma gravação.
Depois outra pessoa usou aquela gravação de uma maneira que eu não havia previsto.
Eu observei.
Adaptei.
Criei outra coisa.
Agora estão pedindo o ao vivo novamente.
Eu poderia responder:
“Mas vocês não queriam gravado?”
Ou posso fazer uma pergunta muito melhor:
“O que mudou?”
É essa pergunta que faz alguma coisa continuar viva.
Nada está pronto
Eu não quero construir o Dojo perfeito.
Porque provavelmente ele não existe.
Quero construir um Dojo capaz de continuar mudando.
Hoje existe uma necessidade.
Amanhã aparecerá outra.
Algumas ferramentas permanecerão.
Outras perderão importância.
Novas serão criadas.
E isso não é sinal de que aquilo que fizemos antes estava errado.
É sinal de que continuamos observando.
Talvez seja exatamente isso que diferencia uma ferramenta viva de um produto que simplesmente ficou pronto.
O Dojo nasceu das aulas ao vivo.
Depois virou gravação.
A gravação virou biblioteca.
A biblioteca começou a virar ferramenta de estudo.
E agora o encontro começa a pedir espaço novamente.
Não estamos voltando para onde começamos.
Estamos voltando para uma necessidade antiga carregando tudo aquilo que aprendemos no caminho.
E existe uma diferença enorme nisso.
O objetivo nunca foi criar mais um aplicativo de Yoga.
O objetivo continua sendo o mesmo:
dar ao aluno e ao professor aquilo que eles precisam para continuar praticando, estudando, criando e ensinando.
Se amanhã essa necessidade mudar novamente…
o Dojo muda junto.
— Edson Ramos
Porque, no final, uma escola não deveria ensinar apenas pessoas a se adaptarem.
Ela também precisa ser capaz de se adaptar às pessoas.