Durante muito tempo eu quis evoluir no Yoga.
E acho que isso é natural.
Quando começamos a praticar, existe um universo inteiro diante de nós.
Queremos melhorar os asanas.
Ficar mais fortes.
Mais flexíveis.
Respirar melhor.
Meditar por mais tempo.
Aprender novas técnicas.
Estudar mais.
Existe sempre um próximo passo.
E isso é bom. A vontade de aprender nos coloca em movimento.
O problema começa quando passamos anos praticando e continuamos medindo nossa evolução apenas por aquilo que conseguimos fazer.
Hoje uma pergunta me interessa muito mais:
O que toda essa prática está fazendo com a pessoa que eu sou?
O que realmente está mudando?
Podemos passar anos aperfeiçoando uma postura.
Mas e nossa paciência?
Nossa capacidade de ouvir?
Nossa maneira de lidar com alguém que pensa diferente?
Nossa necessidade de estar sempre certos?
Nossa relação com o medo?
Com a raiva?
Com as perdas?
Com o envelhecimento?
Podemos fazer um handstand maravilhoso e continuar incapazes de pedir desculpas.
Podemos meditar durante uma hora e perder completamente a paciência cinco minutos depois.
Podemos conhecer textos e filosofias profundamente e ainda não conseguir lidar com uma pequena frustração.
Isso não invalida nossa prática.
Mas deveria nos fazer algumas perguntas.
Porque se depois de anos de Yoga minha postura mudou, minha respiração mudou, meu corpo mudou, mas minha maneira de viver continua exatamente igual…
o que realmente evoluiu?
A ferramenta não pode ser o objetivo
O asana é uma ferramenta maravilhosa.
A respiração também.
A meditação.
O estudo.
Os rituais.
A disciplina.
Precisamos dessas ferramentas.
Mas chega um momento em que elas precisam produzir alguma coisa além da habilidade de executá-las.
É como passar vinte anos aprendendo caligrafia e nunca escrever uma carta.
Em algum momento aquilo que aprendemos no tapete precisa atravessar a porta da sala.
E talvez seja justamente aí que comece uma parte muito mais difícil do Yoga.
Porque permanecer alguns minutos em uma postura desconfortável pode ser difícil.
Mas permanecer diante de uma pessoa que está dizendo algo que você não quer ouvir também é.
Controlar a respiração durante uma prática exige atenção.
Mas perceber a própria respiração no meio de uma discussão exige muito mais.
Soltar o corpo em Savasana é uma prática.
Soltar uma mágoa que carregamos há anos também.
Equilíbrio não é apenas ficar sobre uma perna.
Às vezes equilíbrio é receber uma notícia ruim e não permitir que ela destrua tudo ao redor.
A prática começa no tapete.
Mas ela precisa escapar dele.
As outras vinte e duas horas
Hoje me interessa menos aquilo que uma pessoa consegue fazer durante duas horas de prática.
Me interessa muito mais quem ela é nas outras vinte e duas.
Como trata as pessoas quando ninguém está olhando.
Como reage quando alguma coisa não acontece como queria.
Como lida com alguém que não pode oferecer nada em troca.
Como envelhece.
Como perde.
Como ganha.
Como pede desculpas.
Como agradece.
Como fica sozinho.
Como ama.
Porque é muito fácil parecer consciente dentro de uma sala preparada para isso.
Luz baixa.
Música.
Incenso.
Silêncio.
Todo mundo respirando.
O desafio começa quando saímos dali.
Trânsito.
Telefone tocando.
Problemas.
Contas.
Família.
Trabalho.
Pessoas difíceis.
É nesse mundo que precisamos descobrir se alguma coisa daquilo que praticamos realmente ficou conosco.
Talvez evoluir seja outra coisa
Durante muitos anos evolução significou fazer coisas que antes eu não conseguia.
Hoje penso diferente.
Continuo estudando.
Continuo praticando.
Continuo querendo aprender coisas novas.
Mas já não acredito que evolução seja apenas acumular capacidades.
Existe também uma evolução feita de coisas que deixamos para trás.
Menos necessidade de provar.
Menos comparação.
Menos pressa.
Menos certezas.
Menos necessidade de vencer todas as discussões.
Menos preocupação em parecer alguma coisa.
Em algum momento, crescer também começa a significar simplificar.
E isso é muito mais difícil de medir.
Não aparece em uma fotografia.
Não ganha aplausos.
Ninguém olha para você e diz:
Que incrível, você ficou menos arrogante este ano.
Mas talvez essa seja uma evolução muito mais interessante.
Para que tudo isso?
Depois de tantos anos praticando, essa pergunta ficou mais importante para mim.
Para que tudo isso?
Para que respirar dessa maneira?
Para que meditar?
Para que estudar?
Para que fazer asanas?
Para que continuar voltando ao tapete?
Não pode ser apenas para ficar melhor no Yoga.
Yoga precisa servir à vida.
Precisa me ajudar a atravessar aquilo que inevitavelmente encontrarei fora do tapete.
O amor.
A perda.
O medo.
A alegria.
A doença.
O envelhecimento.
As relações.
As mudanças.
E um dia, a própria morte.
É aí que quero descobrir se minha prática funcionou.
Não quero apenas conseguir permanecer imóvel em meditação.
Quero aprender a permanecer quando a vida ficar difícil.
Não quero apenas aprender a soltar um músculo.
Quero reconhecer aquilo que já passou da hora de soltar dentro de mim.
Não quero apenas encontrar equilíbrio sobre o tapete.
Quero levar um pouco desse equilíbrio comigo quando levantar.
Durante muito tempo eu quis evoluir dentro do Yoga.
Hoje quero outra coisa.
Não quero apenas ficar melhor no Yoga.
Quero que o Yoga me ajude a ficar melhor na vida.
Porque no final o asana termina.
A aula termina.
A meditação termina.
O incenso apaga.
— Edson Ramos
Você abre os olhos.
Levanta.
E ainda precisa ser alguém.