Outro dia me veio uma pergunta simples:
Você pratica pose, posição ou postura?
Parece tudo a mesma coisa.
Mas, para mim, não é.
Uma pose pode ser apenas uma imagem.
Algo que você reproduz.
Uma forma bonita.
Uma fotografia.
Uma posição já começa a falar de organização.
Onde está o pé.
Onde está a mão.
Como o quadril se organiza.
Como a coluna responde.
Mas postura, para mim, é outra coisa.
Postura envolve presença.
Envolve intenção.
Envolve a maneira como você habita aquela forma.
E foi aí que a pergunta ficou maior.
Você pratica Yoga ou é um yogi?
Fazer Yoga é uma coisa
Você pode praticar duas horas por dia.
Pode conhecer dezenas de asanas.
Pode fazer invertidas.
Respirar durante vinte minutos.
Meditar.
Estudar textos.
Tudo isso é prática.
E é importante.
Existe uma pergunta que me interessa muito mais:
o que acontece com você quando a prática termina?
Porque chega uma hora em que você enrola o tapete.
O asana acaba.
A meditação acaba.
O pranayama acaba.
E você volta para sua vida.
É nesse momento que começa a parte mais difícil.
O corpo assume uma forma. E você?
Eu posso colocar meu corpo em uma postura de equilíbrio.
Mas sou equilibrado quando alguém me contraria?
Posso passar dez minutos respirando lentamente.
Mas consigo respirar antes de responder quando estou com raiva?
Posso permanecer imóvel em meditação.
Mas consigo permanecer quando uma situação me incomoda?
Posso fazer uma postura avançada.
Mas consigo pedir desculpas?
Consigo reconhecer quando estou errado?
Consigo mudar de opinião?
Consigo tratar bem alguém que não pode me oferecer nada em troca?
Essas perguntas começaram a interessar mais para mim do que a profundidade de qualquer asana.
Por isso chamamos de postura
A palavra postura é bonita porque ela ultrapassa o corpo.
Falamos:
Qual é a sua postura diante disso?
Nesse momento ninguém está perguntando onde você colocou o joelho.
Está perguntando:
como você se posiciona diante da vida?
E existe uma ligação muito maior entre essas duas coisas do que imaginamos.
No tapete treinamos estabilidade.
Mas também podemos aprender estabilidade diante do caos.
Treinamos mobilidade.
Mas também precisamos aprender a mudar quando aquilo que acreditávamos já não serve.
Treinamos força.
Mas precisamos descobrir que nem toda força significa endurecer.
Treinamos equilíbrio.
E com o tempo percebemos que equilíbrio não é permanecer parado.
É saber responder quando tudo se move.
A postura corporal pode ser treinamento.
A postura diante da vida é onde descobrimos se aprendemos alguma coisa.
Praticante ou yogi?
Também penso muito nessa diferença.
Qualquer pessoa pode praticar Yoga.
E não há nada de errado nisso.
Você pode chegar, fazer sua aula, cuidar do corpo, respirar melhor e ir embora.
Isso já pode fazer muito bem.
Quando usamos palavras como yogi ou yogini, pelo menos para mim, estamos falando de algo maior do que alguém que frequenta aulas de Yoga.
Estamos falando de alguém que decidiu utilizar aqueles ensinamentos para observar a própria vida.
Não significa ser perfeito.
Muito pelo contrário.
Não significa falar baixo.
Vestir branco.
Ser vegetariano.
Nunca sentir raiva.
Postar frases bonitas.
Ou parecer sereno o tempo inteiro.
Talvez um yogi seja simplesmente alguém que, depois de perceber alguma coisa sobre si mesmo, assume a responsabilidade de trabalhar com aquilo.
Você pode fazer uma linda pose e ter uma péssima postura
Essa frase parece brincadeira.
Mas não é.
Você pode fazer uma pose maravilhosa e ter uma postura terrível diante das pessoas.
Pode ter uma prática corporal impressionante e continuar sendo governado pela vaidade.
Pode conhecer filosofia e não conseguir escutar.
Pode ensinar compaixão e tratar mal quem está perto.
Pode meditar todos os dias e ainda usar a espiritualidade para fugir daquilo que precisa resolver.
Por isso, depois de tantos anos, tento não me impressionar demais com aquilo que alguém consegue fazer durante uma aula.
Quero observar o que aquela prática está fazendo com a pessoa.
Inclusive comigo.
Então qual é a prática?
Pratique o asana.
Estude a posição.
Compreenda o movimento.
Refine a técnica.
Tudo isso importa.
Mas não pare ali.
Observe também a postura que você assume quando alguém discorda.
Quando perde.
Quando ganha.
Quando está cansado.
Quando ninguém está olhando.
Quando tem a oportunidade de fazer alguma coisa errada e provavelmente ninguém descobriria.
Talvez seja aí que Yoga deixe de ser apenas uma coisa que fazemos.
E comece lentamente a se tornar uma maneira de viver.
Por isso hoje deixo duas perguntas.
A primeira é simples, e a segunda demora um pouco mais para responder.
— Edson Ramos
Você pratica pose, posição ou postura?
E o Yoga já começou a aparecer na pessoa que você é quando não está praticando?