Hoje fiquei pensando no que acontece depois que começamos a dar aulas.
No começo, temos alunos que precisam aprender, repetir, ganhar confiança no próprio corpo. Aos poucos, vamos conhecendo essas pessoas. Percebemos suas dificuldades, acompanhamos pequenas mudanças e entendemos o que precisa de mais tempo.
A confiança vai surgindo ali, no encontro de toda semana.
Até que uma aula já não comporta tudo o que gostaríamos de ensinar. Uma técnica pede mais atenção. Um assunto de filosofia merece uma conversa mais longa. Então organizamos um workshop.
Às vezes, precisamos simplesmente reunir as pessoas para que elas se conheçam melhor.
Porque podemos praticar durante meses ao lado de alguém e saber muito pouco sobre aquela pessoa. Quando existe espaço para conversar, começamos a perceber quem está passando por uma dificuldade, quem anda mais quieto, quem deixou de aparecer.
Alguém pergunta: “Você está bem? Por que não veio?”
Eu vejo muito valor nisso. A prática começa a criar uma comunidade onde as pessoas se importam umas com as outras.
Depois de muitos encontros, vamos entendendo quais ensinamentos fazem sentido juntos. Surge a possibilidade de reunir tudo num retiro e passar alguns dias vivendo aquilo que, nas aulas, conhecemos em pequenas partes.
Acordar, praticar, se alimentar, conviver. Acompanhar o dia até a hora de dormir.
Essa convivência permite observar coisas que uma aula de uma hora dificilmente mostra. Como eu me comporto quando estou cansado? Como escuto alguém com quem discordo? O que acontece comigo quando preciso seguir um horário ou dividir um espaço?
Para mim, um retiro tem muito a oferecer justamente aí. Temos tempo para perceber como a prática participa da nossa maneira de viver.
Ao mesmo tempo, o retiro também se tornou um produto.
Hoje encontramos propostas que juntam Yoga com surf, vinho e tantas outras atividades. Uma viagem com aulas pode ser agradável, pode fazer bem. Sair da rotina, conhecer um lugar e descansar já têm seu valor.
Eu entendo isso. Também sei que organizar um retiro envolve trabalho, custos e responsabilidade. Quem ensina precisa sustentar o próprio trabalho.
O cuidado que me interessa é com a clareza da proposta e com a expectativa de quem participa.
O que você está buscando quando escolhe um retiro?
Pode ser uma viagem. Pode ser um período de descanso, um treinamento ou a vontade de aprofundar sua prática espiritual. Talvez você queira encontrar pessoas que compartilham os mesmos interesses.
Vale a pena reconhecer isso antes de escolher.
Porque podemos nos encantar com um lugar, com as imagens de um evento ou com a pessoa que está convidando. Um professor conhecido, alguém que acompanhamos há muito tempo, uma pessoa famosa nas redes sociais.
Essa admiração pode nos aproximar de um trabalho. Ainda assim, precisamos conhecer o que será vivido ali e perceber se aquilo corresponde ao que estamos procurando.
Um nome conhecido, por si só, diz pouco sobre como alguém ensina e cuida de um grupo.
O tempo de experiência também precisa aparecer na qualidade daquilo que essa pessoa oferece.
Penso nisso olhando para o meu próprio percurso.
Meu primeiro retiro foi em 2005, na Pousada Dharma Shala, em Paraty, que ainda tinha uma estrutura bastante simples. Conversei com o Acyuta, proprietário da pousada, e combinamos de fazer aquele encontro.
Houve tentativas, alguns retiros foram cancelados e, depois de um tempo, as coisas começaram a dar certo. Já são mais de vinte anos.
Quando lembro desse começo, penso em quanto fomos aprendendo ao fazer. O que cabia na programação, o que precisava de mais tempo, o que ajudava os alunos e o que precisava ser ajustado.
Até hoje vejo o retiro como uma grande oficina. A convivência traz perguntas e situações que me ajudam a rever o ensino. Dali surgem experiências que depois podem enriquecer as aulas e o curso de formação.
Esse caminho exige atenção, porque é fácil começar a olhar para cada etapa como a oportunidade de criar um produto maior.
A aula leva ao workshop.
O workshop leva ao retiro.
Depois aparece a ideia de abrir uma formação.
Comercialmente, essa sequência pode parecer natural. Pedagogicamente, cada passo traz responsabilidades diferentes.
Uma formação precisa preparar alguém para cuidar de outros alunos. Isso pede estudo, experiência e capacidade de acompanhar o aprendizado. Dar alguns retiros pode fazer parte desse percurso, mas precisamos olhar com honestidade para o que estamos prontos para ensinar.
Eu também preciso continuar me fazendo essa pergunta.
O que sustenta minha confiança no trabalho que ofereço é poder olhar para os encontros realizados, reconhecer o que aprendi e continuar disposto a corrigir o que for necessário.
Há pessoas que já estiveram conosco muitas vezes. Elas conhecem o ritmo dos dias, a maneira como conduzimos as práticas e o cuidado que existe ali. Com os anos, fomos formando uma sangha, uma comunidade de prática.
Quando alguém diz que confia de olhos fechados em estar lá, eu penso na responsabilidade que vem junto com essa confiança. Aquela pessoa está entregando parte do seu tempo, suas expectativas e, às vezes, questões muito pessoais.
Isso merece cuidado em cada encontro.
É essa consciência que eu gostaria de despertar em quem está lendo:
permita que suas escolhas acompanhem o momento da sua prática.
Talvez agora você precise descansar. Em outro momento, queira estudar mais profundamente, ou procurar uma comunidade com a qual possa praticar por muitos anos. Reconhecer essa necessidade já ajuda a escolher melhor.
Depois, ao voltar para casa, vale observar o que ficou. O que você aprendeu? O que conseguiu levar para a rotina? Existe alguma coisa que deseja continuar praticando?
Quando penso nos retiros que dou desde 2005, é essa continuidade que me interessa. As pessoas voltam, nós seguimos aprendendo e o trabalho amadurece junto com a convivência.
— Edson Ramos
Quero continuar oferecendo encontros que façam sentido nesse caminho,
e cuidando da confiança de quem escolhe estar ali.