Diário · Impermanência

O outro Edson

Fui até Minas resolver um problema no carro e voltei pensando sobre a vida.

Edson Ramos5 min de leitura

Esses dias fui até Minas para fazer um serviço no carro.

O rapaz que me atendeu também se chamava Edson.

Achei engraçado.
Dois Edson.

Passamos praticamente o dia inteiro juntos. Começamos por volta das oito da manhã e fomos terminar perto das oito da noite.

Durante todo esse tempo fiquei por ali.
Quando ele precisava, eu ajudava.

E comecei a observar aquele cara trabalhando.

Prestativo.
Cuidadoso.
Determinado a resolver tudo aquilo que eu precisava.

Daquelas pessoas que não ficam procurando uma maneira de terminar logo o serviço. Querem terminar direito.

Depois de doze horas trabalhando juntos, convidei o Edson para jantar.

E foi aí que o serviço no carro terminou e começou outra coisa.

Quando sentamos frente a frente

Sentamos um diante do outro e começamos a conversar.

Durante o dia ele já havia me contado algumas coisas da vida.

Falou sobre sua separação.
Sobre momentos difíceis.
Sobre períodos de depressão.

Disse que era cristão, mas que tinha bastante interesse por meditação.

E aos poucos fui conhecendo uma história que não combinava necessariamente com o homem que eu havia visto trabalhando durante aquelas doze horas.

Edson tinha duas faculdades.
Já havia sido dono de duas pizzarias.
Teve dinheiro.
Andou de carro importado.

Construiu uma vida que, vista de fora, provavelmente parecia bastante bem-sucedida.

Até que algumas coisas mudaram.

O relacionamento terminou.

E a separação parece ter levado muito mais do que o relacionamento.

Enquanto ele contava sua história, comecei a pensar em quantas vezes fazemos isso.

Construímos nossa identidade ao redor das coisas que conquistamos.

Meu casamento.
Minha profissão.
Minha empresa.
Meu dinheiro.
Minha casa.
Meu corpo.
Minha posição.
Minha história.

E sem perceber começamos a acreditar que somos aquilo.

Até que a vida tira alguma dessas coisas.

E aparece uma pergunta muito mais difícil:

Quem sou eu agora?

Impermanência

Em algum momento da conversa falei para ele sobre impermanência.

Ele não conhecia a palavra.

Mas conhecia perfeitamente o que ela significava.
Não através de livros.
Através da própria vida.

Impermanência é uma ideia relativamente bonita enquanto estamos falando sobre uma flor que nasce e morre.

Fica mais difícil quando aquilo que está mudando é a nossa vida.

Nosso relacionamento.
Nosso corpo.
Nossa condição financeira.
Nossos planos.
Nossa identidade.

Entender intelectualmente que tudo muda é fácil.

Difícil é continuar inteiro quando aquilo que gostaríamos que permanecesse começa a desaparecer.

Contei um pouco da minha história. Falei sobre coisas que aprendi. Sobre como tento administrar as mudanças inevitáveis da vida.

E em determinado momento ele me disse algo que ficou comigo:

Caramba, eu queria ter tido contato com um conhecimento assim. Minha vida poderia ter sido diferente.

Aquilo me fez pensar.

Duas histórias

Ali estavam dois homens chamados Edson.

Duas histórias completamente diferentes.
Duas formações diferentes.
Dois caminhos.

Ele tinha duas faculdades.
Eu construí grande parte do que sei estudando sozinho.

Ele foi empresário.
Teve pizzarias.
Dinheiro.
Carro importado.

Eu percorri outro caminho.

Sentado diante dele não existia alguém melhor e alguém pior.

Existiam dois seres humanos tentando compreender o que fazer com aquilo que a vida colocou diante deles.

E eu me identifiquei com ele.

Eu também já estive naquele lugar.

O lugar de não saber exatamente para onde ir.
De não saber o que fazer com aquilo que está acontecendo dentro da cabeça.
De olhar para a própria vida e não conseguir enxergar claramente o próximo passo.

Em algum momento percebi que eu precisava organizar minha mente.

E comecei a fazer uma coisa que parece pequena, mas mudou muito a minha vida: me especializei em fazer o básico bem feito.

Praticar.
Estudar.
Trabalhar.
Cuidar das pessoas ao meu redor.
Observar minha mente.
Recomeçar quando necessário.

Nada muito extraordinário.

Mas todos os dias.

Conhecimento não impede a dor

A conversa com Edson também me lembrou de uma coisa importante.

Conhecimento não nos protege da vida.

Meditação não impede uma separação.
Yoga não impede que alguém que amamos vá embora.
Espiritualidade não impede perdas.

Nenhuma filosofia fará com que tudo aconteça exatamente como gostaríamos.

A função da prática não é essa.

A prática não controla aquilo que chega. Ela modifica a maneira como recebemos aquilo que chega.

Talvez seja por isso que determinados ensinamentos só começam a fazer sentido quando precisamos deles.

Impermanência não significa simplesmente aceitar que tudo acaba.

Significa compreender que, se tudo muda, nós também podemos mudar.

E isso muda completamente o ensinamento.

A mesma impermanência que levou aquilo que você gostaria que permanecesse também garante que o momento em que você está agora não precisa durar para sempre.

A dor muda.
A tristeza muda.
A condição financeira muda.
As relações mudam.
O corpo muda.
A nossa maneira de enxergar aquilo que aconteceu também muda.

Impermanência não é apenas sobre perder. É também sobre poder recomeçar.

Quem estava ensinando quem

Naquela noite eu achei que estava compartilhando alguma coisa com ele.

Hoje não tenho tanta certeza de quem estava ensinando quem.

Porque aquele homem havia passado por muita coisa e, ainda assim, passou doze horas tentando fazer o melhor trabalho possível para alguém que ele praticamente não conhecia.

Não encontrei um homem derrotado.
Encontrei alguém tentando se reorganizar.

E existe uma dignidade enorme nisso.

Às vezes esperamos que uma transformação espiritual seja alguma coisa grandiosa.

Uma revelação.
Uma experiência profunda em meditação.
Um retiro.
Um grande ensinamento.

Também existe espiritualidade em levantar pela manhã quando sua vida não está como gostaria.

Ir trabalhar.
Fazer aquilo que precisa ser feito.
Tratar alguém bem.
E continuar.

Naquele dia eu fui até Minas resolver um problema no carro.

Voltei pensando sobre a vida.

Dois Edson.
Duas histórias.
Nenhuma delas pronta.

Porque enquanto estivermos aqui, ainda existe alguma coisa sendo escrita.

E se eu pudesse deixar para o outro Edson uma única coisa daquela conversa, seria justamente aquilo que ele me ajudou a lembrar: não confunda aquilo que terminou com o fim da sua história.

Tudo aquilo que um dia construímos pode mudar.
Tudo aquilo que acreditamos ser pode ser questionado.
A vida pode desmontar planos que levaram anos para serem construídos.

Existe uma consequência bonita na impermanência que frequentemente esquecemos: se nada é permanente, a fase difícil também não é.

— Edson Ramos


Amanhã alguma coisa será diferente.
E nós também podemos ser.

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