Aprendi uma coisa sobre política neste final de semana. Curiosamente, não foi falando sobre eleição. Foi dentro de um barco.
Era aniversário de uma grande aluna que, com o tempo, se tornou uma amiga. Ela me convidou para participar de uma regata.
Para quem nunca participou, uma regata é uma competição entre barcos à vela. Existe um percurso, existe estratégia, existe vento, e existe uma tripulação que precisa trabalhar em conjunto o tempo inteiro para fazer aquele barco avançar da melhor maneira possível.
Eu e minha esposa estávamos ali como dois observadores. Não entendíamos praticamente nada daquilo.
Então nossa função era simples: quando pediam, levávamos nosso peso para um lado. Depois para o outro. E fazíamos isso várias vezes durante a prova.
Dentro do barco
Comecei a observar como tudo funcionava.
Havia um capitão. Ele estava atento ao vento, à direção, às velas, ao percurso, e dava os comandos. Ele não fazia tudo.
Outras pessoas tinham suas próprias funções. Cada uma sabia onde precisava estar e o que precisava fazer. E cada função, por menor que parecesse, interferia no resultado de todos.
Quando alguma coisa era feita no momento certo, o barco respondia. Quando alguém tentava improvisar fora daquela organização, muitas vezes alguma coisa dava errado.
E em algum momento pensei: isso aqui parece muito com política.
Não política partidária. Política no sentido mais antigo e simples da palavra:
pessoas diferentes tentando organizar a vida em comum.
Da direita para a esquerda
Durante a regata, nós mudávamos constantemente de lado.
Direita. Esquerda. Direita novamente.
Não existia apego a um lado. Existia uma pergunta: do que o barco precisa agora?
Achei aquilo interessante, porque ninguém dizia: “Eu prefiro ficar deste lado.” Se para o barco navegar melhor precisávamos estar do outro lado, íamos para o outro lado.
O compromisso não era com a posição.
Era com o barco.
Aí pensei outra coisa. Será que não seria melhor simplesmente manter todo mundo no centro? Tudo perfeitamente equilibrado. Ninguém para um lado. Ninguém para o outro.
Parecia uma ideia bonita. Só que não.
Se o barco estivesse completamente nivelado o tempo inteiro, em determinadas condições aquilo poderia significar simplesmente que não havia vento suficiente atuando sobre as velas.
E sem vento não existe viagem.
Foi aí que minha metáfora ficou mais interessante.
Equilíbrio não é ficar no meio
Durante muito tempo podemos confundir equilíbrio com neutralidade, como se equilíbrio significasse permanecer exatamente no centro independentemente do que esteja acontecendo.
Yoga nunca me ensinou isso. Se estou caindo para um lado, meu corpo responde para o outro. Se uma força aumenta, outra precisa se adaptar.
Equilíbrio não é ausência de movimento. Equilíbrio é capacidade de responder.
O Caminho do Meio no Budismo também não significa simplesmente escolher a metade entre dois extremos em qualquer situação. Isso não é matemática, é discernimento. É perceber as condições e tentar não ser dominado pelos extremos.
Naquele barco, às vezes precisávamos estar de um lado. Depois do outro. E o barco seguia.
Política também é isso
Estamos em um período em que muitas pessoas esperam que eu diga o que penso sobre política. Em quem acredito. De que lado estou. Qual é minha opinião.
Eu tenho minhas opiniões, como qualquer pessoa. Existe uma coisa que considero mais importante do que convencer alguém a pensar como eu:
aprender a continuar no mesmo barco com pessoas que pensam diferente de mim.
Porque no final existe algo que às vezes esquecemos: o barco é compartilhado.
Podemos discordar sobre a direção. Sobre a melhor maneira de ajustar as velas. Sobre quem deveria estar no comando. Podemos defender soluções completamente diferentes. Isso faz parte.
Existe um momento, porém, em que precisamos lembrar que, se começarmos a destruir o barco apenas para provar que o outro estava errado, ninguém vence.
Cada um tem uma função
Outra coisa me marcou naquele dia. Eu não podia assumir o lugar do capitão, não tinha conhecimento para isso. Também não podia simplesmente decidir mexer em alguma coisa porque achei que parecia certo.
Minha função naquele momento era muito mais simples. Ouvir. Observar. E quando pedissem, mover meu peso.
Isso não me tornava menos importante. Naquele instante, aquilo era exatamente o que eu podia oferecer.
Existe muita sabedoria em compreender a própria função. Às vezes lideramos. Às vezes seguimos. Às vezes ensinamos. Às vezes precisamos ficar quietos e aprender.
O problema começa quando todos querem ser capitão e ninguém quer cuidar do barco.
O bem comum
A parte mais bonita da experiência era que, durante a competição, todas aquelas pessoas diferentes queriam a mesma coisa: fazer o barco avançar.
Ninguém ganharia sozinho. Se uma pessoa executasse perfeitamente sua função e todas as outras falhassem, o barco não chegaria melhor por causa disso. O resultado era coletivo.
Isso me fez pensar bastante. Uma sociedade também precisa se lembrar disso de vez em quando.
Não precisamos pensar todos da mesma maneira. Seria impossível, e nem seria desejável. Mas precisamos conseguir encontrar alguma coisa maior do que nossas próprias certezas. Algum ponto onde possamos dizer:
mesmo discordando de você, eu também quero que as pessoas vivam melhor.
A partir daí podemos discutir o caminho, sem esquecer por que começamos a navegar.
Minha prática para esse momento
O Budismo me ensinou uma frase que repito há muitos anos: que todos os seres sejam felizes.
Todos. Essa palavra é difícil.
Porque “todos” inclui quem eu amo. Quem concorda comigo. Quem pensa como eu. Mas também inclui quem me irrita. Quem discorda de mim. Quem escolheu outro caminho. Quem enxerga o mundo de uma maneira completamente diferente da minha.
Compaixão só pelos nossos é fácil. Talvez a prática comece justamente quando conseguimos desejar algo bom também para quem não pertence ao nosso lado.
Isso não significa concordar. Não significa aceitar tudo. Não significa abandonar valores. Significa apenas não permitir que nossas diferenças destruam nossa humanidade.
Quando desci do barco
Entrei naquela regata sem entender quase nada de vela. Saí pensando bastante sobre convivência.
Durante horas fomos da direita para a esquerda e da esquerda para a direita. Não porque um lado estivesse definitivamente certo, e sim porque as condições mudavam. O vento mudava. O barco respondia. E todos precisavam prestar atenção.
Talvez eu tenha aprendido ali uma pequena lição para levar para este momento da nossa vida:
não precisamos ocupar o mesmo lugar para desejar que o barco chegue bem.
Podemos discordar. Podemos discutir. Podemos escolher caminhos diferentes. Espero que, depois de tudo, ainda sejamos capazes de olhar uns para os outros e reconhecer: estamos aqui juntos.
E qualquer que seja a nossa escolha, que ela não nasça apenas da raiva, do medo ou do desejo de derrotar alguém. Que exista consciência. Que exista responsabilidade. Que exista compaixão.
E que nunca percamos de vista aquilo que deveria estar acima de qualquer lado: o cuidado com todos que estão dentro do barco.
— Edson Ramos
Que todos os seres sejam felizes.
Que todos os seres estejam em paz.
E que possamos aprender a navegar juntos.