Diário · Corpo

Nenhuma postura vale uma lesão

A lesão que me levou à cirurgia mudou o meu joelho, e mudou o que eu entendo por avançar.

Edson Ramos5 min de leitura

Durante muito tempo eu tive um corpo capaz de responder muito bem ao que eu pedia.

Treinava muito. Praticava muito.

E quando vivemos assim durante anos, começamos a acreditar que nosso corpo estará sempre disponível da mesma maneira.

Mas não estará.

Nenhum corpo permanece em alta performance o tempo todo.
Nem o meu.
Nem o seu.

Existe uma coisa que mudou profundamente minha maneira de enxergar o Yoga.

Eu tive uma lesão séria no joelho provocada durante um ajuste. A lesão me levou para uma sala de cirurgia.

E, olhando hoje, percebo que não foi apenas meu joelho que precisou mudar depois daquele dia.

Minha prática também mudou.

Quando o corpo diz não

Uma lesão tem uma capacidade enorme de colocar nossas certezas em dúvida.

Aquilo que você fazia ontem, hoje não consegue mais fazer. O corpo que parecia tão confiável começa a impor limites.

E você tem duas possibilidades.

Passar os próximos meses lutando contra aquilo que aconteceu, tentando desesperadamente recuperar quem você era.

Ou começar a escutar.

Eu precisei aprender a segunda.

E uma das coisas mais difíceis foi aprender a soltar.

Soltar movimentos.
Soltar posturas.
Soltar expectativas.

E principalmente soltar a ideia de que eu precisava voltar a ser exatamente o praticante que era antes.

Eu abandonei o método que praticava

Depois da lesão, tomei uma decisão importante. Abandonei o método de Yoga que praticava.

Não porque tudo nele estivesse errado. Foi porque alguma coisa dentro de mim já não conseguia continuar praticando da mesma maneira.

A lesão tinha colocado uma pergunta diante de mim que eu não conseguia mais ignorar:

Será que entender um asana apenas através da tradição do Yoga é suficiente para compreender o corpo que está dentro dele?

Para mim, a resposta passou a ser não.

Eu precisava entender mais. Precisava olhar para articulações.

Mobilidade.
Anatomia.
Biomecânica.
Movimento.
Compensações.
Individualidade.

Precisava entender por que dois corpos podem fazer externamente a mesma postura e viver experiências completamente diferentes dentro dela.

Foi aí que minha relação com o asana começou a mudar.

O asana não pode ser maior que o corpo

Existe um erro perigoso que podemos cometer quando praticamos durante muito tempo.

Começamos a defender a postura contra o próprio corpo.

O joelho reclama.
O quadril não chega.
O ombro encontra um limite.
A coluna procura outro caminho.

E nós insistimos porque acreditamos que existe uma forma correta esperando do outro lado daquele desconforto.

Existe uma pergunta que considero muito mais importante:

Correta para quem?

Uma postura não sabe a sua idade.
Não conhece suas lesões.
Não conhece sua anatomia.
Não sabe como você dormiu.
Não sabe como está seu corpo naquele dia.

Quem precisa saber disso é você.

Por isso nenhuma postura deveria valer mais do que a pessoa que está tentando fazê-la.

O corpo de ontem não é o corpo de hoje

Esse aprendizado ficou ainda mais evidente conforme os anos passaram.

Existem dias em que meu corpo responde maravilhosamente. Existem outros em que não.

Isso não significa que minha prática piorou. Significa que meu corpo está vivo.

Um corpo vivo muda.
Envelhece.
Se recupera.
Se cansa.
Fica forte.
Perde força.
Ganha mobilidade.
Perde amplitude.
Se adapta.
E depois se adapta novamente.

A maturidade na prática começa quando paramos de exigir que o corpo de hoje cumpra os contratos que fizemos com o corpo de ontem.

Isso é difícil para quem passou muitos anos praticando. Nós sabemos aquilo que já conseguimos fazer.

E existe uma grande diferença entre o corpo não conhecer uma possibilidade e nós sabermos que aquela possibilidade já esteve ali.

É aí que o ego entra facilmente no tapete.

“Eu fazia.”
“Eu conseguia.”
“Eu chegava.”

Mas prática não deveria ser uma tentativa diária de provar que ainda somos quem fomos.

Prática é descobrir quem chegou ao tapete hoje.

Nenhuma postura vale uma lesão

Hoje essa frase parece óbvia para mim:

Nenhuma postura vale uma lesão.
Nenhuma.

Não existe asana suficientemente importante para justificar meses de dor, cirurgia ou a perda de movimentos que você utiliza na vida inteira.

E isso também mudou minha maneira de ensinar.

Hoje não me interessa apenas saber se alguém consegue chegar a uma postura. Quero saber como chegou.

O que precisou acontecer para aquilo ser possível?
Onde existe movimento?
Onde existe compensação?
O que aquela pessoa está sentindo?
Existe outro caminho?
Ela realmente precisa chegar até lá?

Essas perguntas começaram a se tornar mais importantes do que a fotografia final.

Porque foi justamente quando uma postura me tirou alguma coisa que comecei a compreender que o Yoga deveria me dar mais possibilidades, não menos.

Aprender a soltar

Minha lesão me tirou coisas. Também me ensinou.

Me obrigou a estudar o corpo de outra maneira. Me fez questionar aquilo que eu simplesmente repetia. Mudou minha prática. Mudou minha maneira de ensinar.

E me ensinou algo que provavelmente eu precisava aprender:

soltar também é evolução.

Existe uma época para avançar.
Uma época para sustentar.
Uma época para recuperar.
E uma época para abandonar.

O problema é que somos ensinados a enxergar evolução somente quando conseguimos fazer mais.

Mais amplitude.
Mais força.
Mais controle.
Uma postura mais difícil.

Existe uma evolução silenciosa que acontece quando finalmente conseguimos dizer:

isso eu não preciso mais fazer.

Hoje meu Yoga não é uma tentativa de conservar indefinidamente o corpo que tive. É uma maneira de compreender e cuidar do corpo que tenho.

Se ele me permite avançar, avanço.
Se pede adaptação, adapto.
Se precisa parar, paro.

Porque depois de tantos anos praticando, uma coisa ficou muito clara para mim:

— Edson Ramos


O objetivo nunca deveria ser preservar a postura.
O objetivo é preservar a possibilidade de continuar praticando.

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