Hoje é Dia do Professor.
E eu gostaria de escrever sobre aquilo que sei.
Mas hoje preciso começar admitindo aquilo que não sei.
Nos últimos dias tenho recebido mensagens de alunos brigando entre si.
Pessoas que gostam umas das outras deixaram de conversar.
Alguns decidiram sair da escola porque não conseguem compreender como eu posso continuar acolhendo pessoas com pensamentos diferentes, sem escolher um grupo ao qual pertencer.
E isso tem mexido comigo.
Mais do que demonstro.
Tenho ficado agitado por dentro.
Não porque alguém esteja discordando de mim.
Isso nunca foi um problema.
O que me incomoda é perceber o sofrimento das pessoas.
É ver medo.
Raiva.
Relações se quebrando.
Alunos esperando que eu escolha um lado para que finalmente possam decidir se continuam confiando em mim.
E existe uma parte especialmente difícil nisso:
eles esperam que o professor tenha uma resposta.
Eu não tenho.
Quando eu não sei
Existe um momento em que meu conhecimento não consegue me levar adiante.
Posso estudar.
Posso pensar.
Posso conversar.
Posso tentar compreender os dois lados.
Mas algumas perguntas continuam sem resposta.
É nesse ponto que entra aquilo que existe de mais religioso em mim.
Não religião como instituição.
Religião como retorno.
Quando não sei o que fazer, volto para aqueles que considero meus professores espirituais e pergunto:
O que Buddha faria diante do sofrimento dessas pessoas?
Como Jesus trataria aquele que todos decidiram chamar de inimigo?
Não procuro saber em quem eles votariam.
Essa pergunta é pequena demais.
Quero saber algo muito maior:
Como eles conseguiram permanecer diante do sofrimento sem permitir que o ódio decidisse suas ações?
Os exemplos que recebemos
Buddha não ensinava apenas pessoas que concordavam com ele.
Encontrou reis e mendigos.
Ascetas e pessoas comuns.
Pessoas consideradas virtuosas e outras rejeitadas pela sociedade.
O ensinamento não começava perguntando:
“Você é dos meus?”
Começava diante do sofrimento.
Jesus também construiu grande parte de seu ensinamento se aproximando justamente de pessoas que a sociedade de seu tempo preferia manter afastadas.
E existe uma frase atribuída a ele que sempre me desconcerta:
amar o inimigo.
Porque amar o amigo é relativamente fácil.
O problema começa quando a prática exige alguma coisa de nós diante de quem nos desagrada.
Não estou dizendo que consigo fazer isso perfeitamente.
Estou dizendo que essa é a direção que escolhi tentar seguir.
Existe um limite para a lei dos homens dentro de mim
Vivemos em sociedade.
Existem leis.
Regras.
Direitos.
Deveres.
Tudo isso é necessário.
Mas existe uma fronteira que nenhuma lei consegue atravessar por mim.
A lei pode determinar aquilo que posso ou não fazer.
Ela não consegue determinar quanto de compaixão colocarei naquilo que faço.
Essa parte é minha.
Por isso não quero construir meu trabalho em benefício de uma categoria humana contra outra.
Não quero ensinar para o vegetariano contra o carnívoro.
Para o vegano contra o vegetariano.
Para o rico contra o pobre.
Para o homem contra a mulher.
Para o jovem contra o velho.
Para quem acredita contra quem não acredita.
Para quem pensa de uma maneira contra quem pensa de outra.
Isso não significa que considero todas as escolhas iguais.
Não considero.
Tenho minhas escolhas.
Meus valores.
Meus limites.
Mas acredito que os seres são livres para experimentar suas escolhas e encontrar nelas paz ou sofrimento.
E, quando houver sofrimento, minha primeira pergunta como professor não deveria ser:
“Você fez parte do grupo certo?”
Deveria ser:
“Como posso ajudar?”
Isso está me custando pessoas
Essa talvez seja a parte mais difícil de escrever.
Minha escolha está desagradando pessoas.
Alguns alunos estão indo embora.
Porque acolher aquele que alguém considera inimigo pode ser interpretado como traição.
Eu compreendo a emoção.
Mas não consigo fazer diferente apenas para preservar uma matrícula.
Se uma pessoa que pensa como você entrar pela porta, vou recebê-la.
Se amanhã entrar alguém que pensa exatamente o contrário, também vou receber.
E se um machucar o outro, vou cuidar primeiro de quem foi ferido.
Não porque pertença a um lado.
Porque está ferido.
Essa é uma escolha que fiz.
E escolhas têm preço.
A natureza não fica parada
Também preciso lembrar a mim mesmo de uma coisa.
Tudo isso vai mudar.
Nossa natureza é mutável.
Nossos estados mentais mudam.
As relações mudam.
O ambiente muda.
Nós mudamos.
Quando percebemos que um ambiente está nos adoecendo, precisamos encontrar força para transformar nossa relação com ele.
Às vezes mudamos o ambiente.
Às vezes saímos.
Às vezes mudamos nós mesmos.
E existe uma força que aparece nesses momentos que eu não sei explicar completamente.
Alguns chamarão de Deus.
Outros de Buddha.
Dharma.
Consciência.
Natureza.
Energia.
Eu não preciso resolver o nome.
Preciso acessar aquilo que conheço e colocar em prática.
Porque não adianta passar anos estudando compaixão para abandoná-la justamente quando ela fica difícil.
Todos já foram minha mãe
Existe um ensinamento do Budismo Tibetano que carrego comigo.
Dentro dessa visão, contemplamos que, ao longo de incontáveis existências, todos os seres em algum momento já podem ter sido nossas mães e nos oferecido cuidado.
Você pode acreditar literalmente nisso ou não.
Para mim, o ensinamento produz uma pergunta muito mais importante:
Como eu trataria este ser se conseguisse lembrar do amor que um dia recebi dele?
Isso muda alguma coisa.
Porque o ser que hoje me desagrada deixa de ser apenas “aquele que me desagrada”.
Existe uma história maior que eu não conheço.
Existe sofrimento que eu não consigo enxergar.
Existe uma vida inteira antes daquele comportamento que chegou até mim.
Não preciso aprovar o que ele fez.
Mas ainda posso tentar aliviar seu sofrimento.
A função secreta do professor
Hoje, no Dia do Professor, pensei muito sobre nossa função.
Normalmente pensamos que professor existe para ensinar.
Transmitir conhecimento.
Corrigir.
Orientar.
Mas acho que existe outra função, menos agradável.
Professor também precisa saber decepcionar.
Com sabedoria.
Às vezes o aluno quer que você confirme aquilo que ele já pensa.
E você não confirma.
Quer que você escolha por ele.
E você devolve a escolha.
Quer uma resposta.
E você diz:
“Eu não sei.”
Quer que você retire o desconforto.
E você percebe que aquele desconforto também pode ensinar alguma coisa.
Se nossos grandes professores espirituais pudessem simplesmente retirar todo sofrimento com um estalar de dedos, a história das tradições seria muito diferente.
Mas o caminho nunca foi esse.
Eles apontaram.
Ensinaram.
Criaram condições.
E cada pessoa precisou caminhar.
Hoje eu também sou aluno
Talvez seja isso que este Dia do Professor esteja me ensinando.
Hoje não me sinto especialmente sábio.
Não me sinto acima da confusão.
Estou sentindo.
Estou preocupado.
Estou vendo pessoas de quem gosto sofrerem.
Estou vendo gente indo embora.
E não tenho uma frase bonita capaz de organizar tudo isso.
Mas tenho uma direção.
Não quero aumentar sofrimento.
Não quero ensinar ódio.
Não quero escolher quem merece compaixão.
Não quero fechar a porta para alguém apenas para tranquilizar quem já está dentro.
E se isso decepcionar algumas pessoas, vou precisar aprender a conviver com essa dor também.
Aos professores
Hoje meu desejo para todos os professores não é que tenham todas as respostas.
Espero justamente o contrário.
Que tenham sabedoria suficiente para reconhecer quando não sabem.
Discernimento para não transformar opinião em ensinamento.
Coragem para desagradar quando agradar significaria abandonar aquilo em que acreditam.
Humildade para continuar aprendendo.
E paz suficiente para conseguir olhar para as próprias ações quando o dia terminar.
Que possamos estar em paz com aquilo que ensinamos.
Com aquilo que ainda não sabemos.
Com nossos relacionamentos.
Com nossos erros.
E com as decisões difíceis que fazem parte da responsabilidade de cuidar de outras pessoas.
Que consigamos reproduzir não apenas as palavras dos nossos professores espirituais.
Que tenhamos coragem de tentar reproduzir aquilo que eles fizeram quando encontraram alguém sofrendo.
Aproximar.
Escutar.
Ensinar quando possível.
E cuidar.
Mesmo quando aquele ser não é quem gostaríamos que fosse.
Hoje, no Dia do Professor, é isso que consigo oferecer.
Não uma resposta.
Uma escolha.
— Edson Ramos
Continuarei com a porta aberta.
E continuarei tentando aprender a amar quem atravessá-la.