Eu tenho um problema.
Quando alguma coisa me interessa, eu quero entender. Não me basta saber que funciona. Quero saber por que funciona.
De onde veio.
Quem fez antes.
O que acontece se eu mudar.
O que existe por trás.
E quando encontro uma resposta, normalmente ela cria outras cinco perguntas.
Isso me ajudou muito na vida. Grande parte das coisas que aprendi nasceu dessa curiosidade.
E existe um ponto em que a busca pelo conhecimento pode esconder outra coisa: a dificuldade de aceitar que nem tudo está sob nosso alcance.
Saber dá uma sensação de controle
Quando entendemos alguma coisa, ela parece menos ameaçadora.
Damos um nome.
Criamos uma explicação.
Organizamos.
Classificamos.
E sentimos que agora aquilo está sob controle.
Só que conhecer não significa controlar.
Posso estudar profundamente o corpo e ele ainda vai me surpreender.
Posso conhecer alguém durante anos e essa pessoa ainda pode fazer alguma coisa que eu nunca imaginaria.
Posso planejar cuidadosamente minha vida e amanhã alguma coisa mudar completamente.
Existe um limite para aquilo que conseguimos prever. E existe outro, ainda maior, para aquilo que conseguimos compreender.
Aceitar isso não é ignorância. É humildade.
O mapa não é o lugar
No Yoga isso acontece o tempo inteiro.
Podemos estudar uma postura. Anatomia. Biomecânica. Respiração. Sistema nervoso. Podemos compreender muita coisa sobre aquilo que está acontecendo.
Existe uma diferença entre saber tudo isso e estar dentro da experiência.
Posso explicar uma respiração.
Outra coisa é respirar.
Posso estudar meditação.
Outra coisa é sentar.
Posso estudar amor.
Outra coisa é amar.
O conhecimento constrói mapas. Mapas são importantes. Eu gosto deles.
Chega uma hora em que precisamos parar de olhar para o mapa e caminhar.
O perigo de explicar tudo
Existe ainda uma armadilha na espiritualidade. Queremos explicar tudo.
Aconteceu porque tinha que acontecer.
O universo quis.
Era karma.
Era energia.
Era um sinal.
Eu tenho cada vez mais cuidado com essas respostas.
Às vezes simplesmente não sabemos. E existe uma enorme honestidade em dizer:
Eu não sei.
Não sei por que algumas coisas acontecem.
Não sei por que pessoas boas sofrem.
Não sei por que determinados encontros mudam completamente nossa vida.
Não sei exatamente o que acontece depois da morte.
Posso estudar. Posso acreditar. Posso experimentar.
Mas acreditar e saber são coisas diferentes. E não preciso transformar minha crença em certeza para que ela tenha valor.
Buddha também ficou em silêncio
Uma coisa que sempre me chamou atenção no Budismo é que nem toda pergunta precisava de uma resposta.
Existem questões metafísicas diante das quais Buddha se recusava a entrar em especulação. Não porque faltasse inteligência. A pergunta principal era outra:
Isso ajuda a diminuir o sofrimento?
Essa ideia me interessa.
Porque podemos passar a vida tentando compreender o universo e continuar sem compreender nossas próprias reações.
Podemos discutir a natureza da consciência durante horas e perder a paciência com alguém cinco minutos depois.
Podemos querer saber o que existe depois da morte sem prestar muita atenção na maneira como estamos vivendo antes dela.
Existem perguntas enormes. E existem perguntas pequenas que mudam uma vida.
Existem dois não sei
Durante muito tempo, dizer "não sei" parecia uma fraqueza. Principalmente para quem ensina. Professor supostamente deveria saber.
Hoje gosto cada vez mais dessas duas palavras. Existem dois tipos de "não sei".
Existe o de quem nunca procurou. Nunca estudou. Nunca perguntou. Nunca teve curiosidade. Esse não me interessa muito.
Mas existe outro.
O "não sei" de quem estudou. Investigou. Experimentou. Encontrou respostas. Questionou essas respostas. Foi mais fundo. E em determinado momento percebeu o tamanho daquilo que ainda não conhece.
Esse "não sei" é completamente diferente. Ele não nasce da ignorância, e sim da percepção da nossa própria limitação.
Quero continuar perguntando
Não quero perder minha curiosidade. Muito pelo contrário.
Quero continuar estudando coisas que não conheço.
Continuar perguntando por quê.
Continuar desmontando ideias.
Continuar mudando de opinião quando encontrar uma explicação melhor.
Só não quero mais exigir que todas as perguntas terminem em respostas.
Algumas podem terminar em contemplação. Outras em silêncio. Algumas eu posso carregar durante anos. E algumas provavelmente vão comigo sem nunca serem resolvidas.
Tudo bem.
Existe uma liberdade enorme em perceber: eu não preciso entender tudo.
Posso conhecer sem possuir.
Posso investigar sem controlar.
Posso acreditar sem transformar crença em certeza.
Posso experimentar alguma coisa profundamente sem conseguir explicá-la completamente.
E posso dizer "eu não sei" sem sentir que falta alguma coisa depois.
Quanto mais aprendo, menos essas palavras me incomodam.
— Edson Ramos
Existe um ponto em que o conhecimento
deixa de produzir respostas e começa a produzir humildade.