Edson Ramos, hoje você pode dizer que é feliz?
Posso dizer com total convicção que felicidade não é aquilo que busco.
Eu busco paz.
Depois de compreender um pouco mais sobre o Caminho do Meio e sobre Yin e Yang, minha relação com a felicidade mudou.
Se estou feliz agora, sei que esse estado não permanecerá para sempre.
Não porque alguma coisa esteja errada.
Mas porque nada permanece.
Yin se transforma em Yang.
Yang retorna ao Yin.
Existem encontros e despedidas.
Conquistas e perdas.
Dias em que tudo parece estar exatamente no lugar e outros em que a vida simplesmente decide bagunçar tudo.
A felicidade faz parte desse movimento.
Quando ela chega, eu aproveito.
Quando vai embora, tento não correr desesperadamente atrás dela.
Porque felicidade é um estado.
Paz é uma prática.
Meu compromisso
Todos os dias acordo com um compromisso pessoal.
Tentar ser hoje um pouco melhor do que fui ontem.
Como professor, grande parte do meu trabalho é fornecer ferramentas para que meus alunos encontrem aquilo que procuram.
Felicidade.
Equilíbrio.
Saúde.
Autoconhecimento.
Sentido.
Cada um chega até o Yoga procurando alguma coisa.
Eu também procurei muitas coisas durante minha vida.
Hoje minha busca ficou mais simples.
Eu quero estar em paz.
O que me traz paz
Estou em paz quando sei que minha família está bem.
Principalmente porque ela continua vivendo em um lugar de onde lutei muito para conseguir sair.
Existe algo dentro de mim que descansa quando sei que eles estão bem.
Estou em paz quando minha esposa está feliz.
Estou em paz quando alguém trava contato comigo e sai daquele encontro um pouco melhor do que chegou.
Não precisa concordar comigo.
Não precisa seguir aquilo que ensino.
Não precisa sequer gostar de mim.
Mas quero que meu contato com alguém acrescente alguma coisa.
Porque uma das medidas que passei a usar para observar minha própria vida é muito simples:
as pessoas e os lugares ficam melhores ou piores depois que eu passo por eles?
A paz que existe quando ninguém está olhando
Existe também uma paz muito particular.
A paz de estar sozinho e não precisar fugir de si mesmo.
Por isso treino minha integridade.
Existem regras que não quebro mesmo quando ninguém está olhando.
Não porque alguém esteja me vigiando.
Não porque espero alguma recompensa.
Mas porque eu estarei lá.
Eu vou saber.
E não existe meditação capaz de silenciar uma consciência com a qual você não consegue conviver.
Para mim, ética começa justamente onde termina a plateia.
É fácil fazer a coisa certa quando todos estão olhando.
A prática começa quando poderíamos fazer diferente, ninguém jamais descobriria e, mesmo assim, escolhemos aquilo que consideramos correto.
Porque paz também é conseguir deitar a cabeça no travesseiro e não precisar negociar com a pessoa que você foi durante o dia.
É não se negar.
Não se abandonar.
Não precisar construir desculpas para si mesmo.
Quando nossas ações começam a combinar com aquilo em que acreditamos, alguma coisa dentro de nós faz menos barulho.
E começamos a tocar estados mais profundos de paz.
Por isso eu treino
Eu treino meu corpo.
Treino minha respiração.
Treino minha mente.
Mas hoje entendo que tudo isso precisa servir para alguma coisa maior.
Eu treino para não ser governado por qualquer pensamento que apareça.
Treino para perceber a raiva antes que ela fale por mim.
Treino para reconhecer a ira antes que ela se transforme em ação.
Treino para criar algum espaço entre aquilo que acontece comigo e aquilo que faço com o que aconteceu.
Para mim, é nesse pequeno espaço que a prática espiritual começa a aparecer.
Não como iluminação.
Mas como pequenos vestígios dela.
Um segundo em que você poderia alimentar a raiva e escolhe não alimentar.
Uma situação em que poderia ferir e decide não ferir.
Um momento em que o ego pede uma resposta e você percebe que não precisa responder.
Pequenos momentos.
Mas talvez uma vida inteira seja construída justamente deles.
A felicidade é muito frágil
A felicidade é maravilhosa.
Mas também é extremamente frágil.
Você pode estar em um lugar lindo.
Ao lado de quem ama.
Com dinheiro no bolso.
Saúde.
Um dia maravilhoso.
Tudo funcionando perfeitamente.
Até ter uma vontade absurda de ir ao banheiro e descobrir que não pode.
Pronto.
Cadê a felicidade?
Por alguns minutos, desapareceu toda a sua evolução espiritual.
E isso é maravilhoso porque nos coloca novamente no nosso devido lugar.
Somos humanos.
Uma ligação muda nosso estado.
Uma notícia inesperada.
Uma frase dita da maneira errada.
Um problema financeiro.
Uma dor no corpo.
Uma pessoa que vai embora.
A felicidade responde às circunstâncias.
Por isso não quero construir minha vida tentando organizar o mundo de maneira que nada ameace minha felicidade.
Essa batalha está perdida.
O mundo vai mudar.
As pessoas vão mudar.
Meu corpo vai mudar.
As coisas que amo vão mudar.
Eu vou mudar.
Então qual é a diferença?
A paz que procuro não significa estar bem o tempo inteiro.
Isso seria apenas outra fantasia.
Paz é conseguir não entrar em guerra comigo mesmo toda vez que a vida deixa de acontecer da maneira que eu gostaria.
É sentir tristeza sem precisar transformar tristeza em desespero.
Sentir raiva sem entregar minha vida à raiva.
Perder alguma coisa sem acreditar que perdi tudo.
Ter medo sem permitir que o medo escolha todos os meus caminhos.
Paz não é ausência de emoções.
É não precisar ser arrastado por cada uma delas.
Talvez seja por isso que hoje eu não queira prometer felicidade aos meus alunos.
Não posso.
Ninguém pode.
A vida não fez esse acordo conosco.
O que posso fazer é compartilhar ferramentas para que cada pessoa consiga atravessar melhor aquilo que inevitavelmente encontrará.
O agradável e o desagradável.
O ganho e a perda.
O encontro e a despedida.
Yin e Yang.
O que quero transmitir
Se hoje alguém me perguntasse: “Edson, você é feliz?”
Eu responderia:
Às vezes.
E está tudo bem.
Não preciso ser feliz o tempo inteiro.
Hoje existe uma pergunta que considero muito mais importante:
Estou em paz com a maneira como estou vivendo?
Porque não quero chegar ao fim da vida podendo dizer apenas que tive muitos momentos felizes.
Quero conseguir olhar para trás e reconhecer que tentei viver de acordo com aquilo em que acreditava.
Que cuidei das pessoas que estavam ao meu redor.
Que tentei deixar alguma coisa melhor depois da minha passagem.
Que errei, reconheci e tentei corrigir.
Que não precisei me abandonar para conseguir aquilo que queria.
E que, aos poucos, fui aprendendo a atravessar tanto o Yin quanto o Yang sem exigir que um deles permanecesse para sempre.
É isso que quero transmitir.
Não a promessa de uma vida permanentemente feliz.
Essa vida não existe.
Quero transmitir algo mais possível e, para mim, muito mais profundo: a capacidade de continuar encontrando paz mesmo quando a vida não acontece como gostaríamos.
— Edson Ramos
Porque felicidade é algo que sentimos.
Paz é algo que aprendemos a cultivar.