Às vezes me perguntam de onde veio o Oss Yoga.
E eu percebo que não existe uma resposta curta.
Porque o Oss Yoga não nasceu no dia em que eu resolvi criar um método.
Na verdade, quando comecei a estudar muitas das coisas que hoje estão dentro dele, eu nem imaginava que um dia existiria algo chamado Oss Yoga.
Eu estava apenas buscando.
Estudando.
Praticando.
Tentando entender melhor o corpo, a respiração e principalmente a relação entre aquilo que acontece no corpo e aquilo que acontece na mente.
Durante esse caminho passei por práticas muito diferentes.
Tsa Lung.
Trul Khor.
Yantra Yoga.
Ruesi Dat Ton.
Tummo.
E cada uma delas colocou uma peça diferente nessa construção.
Tsa Lung
O Tsa Lung me apresentou de maneira muito mais profunda a ideia de que respiração, mente e corpo não funcionam separadamente.
Nas tradições tibetanas, tsa se refere aos canais e lung aos “ventos” ou energias internas dentro dessa compreensão do corpo sutil.
Mas o que ficou em mim não foi apenas a teoria.
Foi começar a perceber que mudar a respiração muda o estado interno.
E que muitas vezes tentar trabalhar diretamente com a mente é extremamente difícil.
Mas podemos chegar até ela através do corpo.
Ou através da respiração.
Isso mudou muito a maneira como comecei a ensinar.
Trul Khor
Depois vieram práticas em que movimento, respiração e concentração praticamente deixavam de ser coisas separadas.
O Trul Khor trabalha justamente com essa relação entre movimentos físicos, respiração e concentração.
Isso me marcou profundamente.
Porque comecei a deixar de olhar para uma postura apenas como uma forma.
Passei a prestar atenção no que acontece entre as formas.
Como entramos.
Como saímos.
Onde respiramos.
Como mudamos pressão.
Como organizamos o corpo.
Como determinado movimento altera nosso estado.
Muito do que hoje investigo dentro do Oss Yoga começou a ganhar sentido aí.
Yantra Yoga
O Yantra Yoga também aprofundou algo que se tornaria muito importante para mim: o movimento tem tempo.
Não basta simplesmente executar uma posição.
Existe respiração.
Existe ritmo.
Existe direção.
Existe uma maneira de chegar e uma maneira de sair.
Quando movimento e respiração começam realmente a conversar, a prática deixa de ser apenas uma coleção de posturas.
Ela ganha outra qualidade.
Foi uma das coisas que mais influenciaram meu olhar para o Vinyasa.
Não apenas conectar posturas.
Mas entender o que está conectando uma postura à outra.
Ruesi Dat Ton
Em outro momento encontrei o Ruesi Dat Ton.
Uma tradição tailandesa que reúne movimentos, alongamentos, respiração, automassagem e práticas contemplativas.
E novamente apareceu alguma coisa que me interessava muito: o corpo não precisava ser trabalhado apenas através das formas que eu conhecia do Yoga indiano.
Existiam outras maneiras de mobilizar.
Pressionar.
Massagear.
Respirar.
Recuperar.
Perceber.
Isso abriu mais uma janela.
Quanto mais eu estudava, menos interessado ficava em defender uma única maneira de movimentar um corpo.
Eu queria entender por que aquilo funcionava.
Tummo
E então existem práticas como Tummo.
Hoje eu até tomo cuidado em chamar Tummo simplesmente de “breathwork”.
Porque tradicionalmente estamos falando de uma prática avançada do Vajrayana relacionada ao chamado calor interno, dentro de um sistema muito maior de treinamento.
Mas estudar essas práticas mudou profundamente minha relação com a respiração.
Respirar deixou de ser apenas:
“inspira.”
“expira.”
“respira fundo.”
A respiração começou a ser compreendida como uma ferramenta extremamente poderosa.
E justamente por ser poderosa precisa ser usada com conhecimento.
Nem toda técnica serve para todo mundo.
Nem tudo precisa ser intenso.
Nem toda experiência diferente significa evolução.
Isso também entrou no Oss Yoga.
Então eu comecei a perceber uma coisa
Quanto mais estudava tradições diferentes, mais eu encontrava linguagens diferentes tentando tocar perguntas muito parecidas.
Como o corpo influencia a mente?
Como a respiração modifica nosso estado?
Como movimento, atenção e intenção podem trabalhar juntos?
Essa talvez tenha sido uma das maiores mudanças na minha maneira de enxergar o Yoga.
Eu parei de perguntar: “de qual método isso veio?”
E comecei a perguntar: “o que está acontecendo aqui?”
O que está acontecendo com a articulação?
Com a respiração?
Com a pressão?
Com a atenção?
Com o sistema nervoso?
Com a mente?
E foi aos poucos, quase sem perceber, que aquilo começou a formar a maneira como eu ensinava.
Oss Yoga não é uma colagem
Isso é importante para mim.
O Oss Yoga não é um pouco de Yoga Tibetano mais um pouco de Yoga Tailandês mais Vinyasa mais alguma outra coisa.
Não quis construir uma coleção de técnicas exóticas.
O processo foi exatamente o contrário.
Depois de estudar muita coisa, comecei a retirar.
Separar.
Questionar.
Experimentar.
Observar aquilo que atravessava sistemas diferentes.
E tentar entender princípios.
Algumas práticas ficaram.
Outras influenciaram apenas uma maneira de pensar.
Outras me fizeram abandonar coisas que eu fazia antes.
E algumas serviram simplesmente para me mostrar que existiam outras possibilidades.
Por isso hoje, quando alguém pergunta de onde veio o Oss Yoga, talvez minha resposta seja: veio de muitos lugares.
Mas principalmente veio de muitos anos fazendo a mesma pergunta: por quê?
Por que fazemos esse movimento?
Por que respiramos dessa maneira?
Por que essa postura precisa ser assim?
Por que sempre ensinamos dessa forma?
O que acontece se fizermos diferente?
Talvez o Oss Yoga tenha começado realmente aí.
Não quando encontrei uma resposta.
Mas quando parei de aceitar respostas apenas porque alguém sempre havia feito daquele jeito.
Estudei tradições diferentes.
Respeitei cada uma delas.
Aprendi com meus professores.
E continuo aprendendo.
Mas em algum momento todo esse conhecimento precisou passar pelo meu próprio corpo.
Pela minha experiência.
Pelos meus erros.
Pelas minhas lesões.
Pelos meus alunos.
E pelo tempo.
Até começar a surgir uma linguagem própria.
Hoje chamamos essa linguagem de Oss Yoga.
— Edson Ramos
E provavelmente ela ainda
não terminou de ser escrita.