Existe um pequeno poema que conheci em O Livro Tibetano do Viver e do Morrer e nunca mais esqueci.
Ele conta uma vida inteira através de uma rua e de um buraco. A ideia é mais ou menos assim.
Capítulo 1
Caminho por uma rua.
Existe um buraco profundo no caminho.
Eu caio.
Não entendo direito como fui parar ali.
Parece que aquilo simplesmente aconteceu comigo.
Levo muito tempo para conseguir sair.
Capítulo 2
Passo pela mesma rua.
O buraco continua lá.
Eu vejo.
Mesmo assim, caio novamente.
Desta vez começo a perceber que aquilo não é completamente novo.
Demoro para sair, mas já reconheço o lugar.
Capítulo 3
Ando pela mesma rua.
Vejo o buraco.
Caio novamente.
Mas agora sei exatamente onde estou.
Sei como cheguei ali.
E principalmente: sei que preciso sair.
A responsabilidade começa a ser minha.
Capítulo 4
Volto à mesma rua.
O buraco ainda existe.
Mas dessa vez eu passo ao lado.
Capítulo 5
Escolho outra rua.
Quando li isso pela primeira vez, achei simples. Hoje acho profundo.
Porque grande parte da nossa vida acontece exatamente assim.
Repetimos relações.
Repetimos comportamentos.
Repetimos maneiras de reagir.
Repetimos pensamentos.
Repetimos as mesmas escolhas e ficamos surpresos quando encontramos os mesmos resultados.
No começo culpamos o buraco. Depois começamos a enxergá-lo. Mais tarde percebemos que continuamos escolhendo a mesma rua.
Esse é um ponto importante para mim na prática.
Consciência não significa nunca mais cair. Consciência começa quando você consegue perceber:
Eu conheço esse lugar.
Depois vem uma etapa ainda mais difícil:
Eu também participei da escolha que me trouxe até aqui.
E então alguma coisa muda.
Não precisamos tapar todos os buracos do mundo. Não precisamos esperar que a rua mude. Em determinado momento podemos simplesmente decidir: eu não preciso continuar passando por aqui.
Talvez amadurecer seja isso.
Primeiro culpamos.
Depois percebemos.
Depois assumimos.
Depois mudamos.
Até que um dia aquilo que parecia ser nosso destino se transforma apenas em uma rua que não precisamos mais escolher.
— Edson Ramos
Um dia o que parecia destino
vira só uma rua que não precisamos escolher.