Diário · Política e Discernimento

Antes de escolher um lado

Um vídeo dizia para desconfiar de professores que não declaram sua posição política. Sou um deles, e o que a minha própria vida me ensinou não cabe inteiro em um lado só.

Edson Ramos7 min de leitura

Chegou até mim um vídeo de uma professora de Yoga dizendo que deveríamos ter cuidado com professores que não manifestam sua posição política.

Como sou uma dessas pessoas, parei para pensar.

E a primeira coisa que me veio foi:

eu nunca precisei saber de que lado Buddha estaria.

Também nunca precisei saber de que lado Patanjali estaria.
Ou Krishnamacharya.

Até porque colocar essas pessoas dentro das nossas categorias políticas atuais seria reduzir ensinamentos enormes a caixas muito pequenas.

O que me interessa é outra coisa.

Se eu observar aquilo que ensinaram, em determinados momentos alguém poderia olhar e dizer:

“Isso parece uma ideia de esquerda.”

Em outro momento:

“Isso parece uma ideia de direita.”

Em alguns ensinamentos existe responsabilidade individual.
Disciplina.
Esforço.
A consequência das próprias ações.

Em outros existe compaixão.
Partilha.
Cuidado com aquele que sofre.
Desapego do acúmulo.
Responsabilidade pelo outro.

Então qual deles é o verdadeiro?

Os dois.

Porque a realidade não tem obrigação de caber nas categorias que criamos para explicá-la.

Eu aprendi isso muito antes de entender política

Eu cresci em uma favela.

Um dia um professor me perguntou:

“Você tem vontade de sair daqui?”

A pergunta parecia simples.

Mas naquele momento eu não enxergava aquilo como uma possibilidade real.

Ele dava aulas de Yoga e morava em um lugar que, para mim, parecia pertencer a outro mundo.

Aquilo mexeu comigo.

Não porque ele me deu dinheiro.
Não porque resolveu minha vida.

Ele me deu uma coisa diferente:

uma possibilidade.

Me mostrou, através da própria vida, que talvez existisse um caminho que eu ainda não conseguia enxergar.

Em algum sentido ele estava dizendo:

“Você também precisa caminhar.”

Trabalhar.
Estudar.
Construir.
Assumir responsabilidade pela direção da própria vida.

Existe um valor enorme nisso.

Mas minha história não termina aí.

Um dia uma aluna abriu minhas mãos

Anos depois aconteceu uma coisa que nunca esqueci.

Uma aluna pegou minhas mãos.
Abriu.
E colocou nelas um valor suficiente para que eu pudesse pagar todas as formações que precisava fazer naquele momento.

Eu não tinha pedido.

Ela simplesmente percebeu que poderia ajudar.
E ajudou.

Depois daquele recurso, muitas coisas começaram a mudar para mim.

Estudei.
Aprendi.
Me formei.
Ensinei.
Criei coisas.

E aquilo que uma pessoa colocou nas minhas mãos acabou chegando às mãos de milhares de outras pessoas de formas que ela provavelmente nunca imaginou.

Então me pergunto:

qual das duas histórias está certa?

A do professor que me mostrou que eu precisava construir meu próprio caminho?

Ou a da aluna que percebeu que, naquele momento, uma ajuda poderia mudar minha trajetória?

As duas.

Essa é a parte que me interessa.

Existem momentos para receber e momentos para construir

No Budismo existe a ideia de dāna.

Generosidade.
Dar.
Compartilhar.

Isso sempre fez muito sentido para mim.

Às vezes alguém me cobra dez por alguma coisa.

Se eu tenho condições e percebo que aquilo vale mais para mim, pago vinte.

Não porque fui obrigado.
Não porque acredito que todas as pessoas precisam fazer isso.

Faço porque naquele momento posso.

E porque aprendi que nem toda troca precisa terminar exatamente no ponto em que a dívida foi quitada.

Existe a conta.
E existe a relação humana.

São coisas diferentes.

Mas eu também trabalho.

Cobro pelo meu trabalho.
Tenho uma empresa.
Pago pessoas.
Invisto.
Crio.
Corro riscos.

Preciso que aquilo que construo seja sustentável.

Uma coisa não anulou a outra.

Foi justamente convivendo com essas forças diferentes que comecei a entender melhor o Caminho do Meio.

O escambo me faz pensar muito sobre isso

Antes de o dinheiro se tornar o intermediário das nossas trocas, existia uma forma muito simples de relação:

eu possuo alguma coisa que é útil para você.
Você possui alguma coisa que é útil para mim.
Nós trocamos.

O interessante para mim nem é o sistema econômico.

É o ensinamento escondido na troca.

Para que ela aconteça, preciso reconhecer uma coisa:

você tem alguma coisa que me falta.

E você precisa reconhecer o mesmo em mim.

Nenhum dos dois precisa desaparecer.
Nenhum precisa derrotar o outro.

Nossa diferença é justamente aquilo que tornou a troca possível.

Eu tenho trigo.
Você tem ferramentas.

Se todos tivéssemos trigo, alguma coisa estaria faltando.
Se todos tivéssemos ferramentas, também.

A relação acontece porque somos diferentes.

Isso me parece uma imagem interessante para pensar a sociedade.

O outro não precisa pensar exatamente como eu para ter alguma coisa importante para oferecer.

E se as duas forças forem necessárias?

Nós gostamos muito de organizar o mundo em opostos.

Direita.
Esquerda.
Conservador.
Progressista.
Individual.
Coletivo.
Tradição.
Mudança.

Mas passei muitos anos estudando Yin e Yang.

E existe uma coisa difícil de ignorar depois disso:

opostos não precisam necessariamente ser inimigos.

Um revela o outro.
Um limita o excesso do outro.
Um pode conter alguma coisa que falta ao outro.

Isso não significa que tudo seja igualmente correto.

Não significa ausência de valores.

Existem ideias que rejeito.
Existem comportamentos que considero errados.
Existem princípios sobre os quais tenho posições muito claras.

Mas ter discernimento não exige transformar metade do mundo em inimigo.

A pergunta que faço aos professores

Por isso existe uma coisa que começou a me incomodar.

Se Yoga significa união, por que eu precisaria usar o Yoga para aumentar separação?

Se meu professor precisa que eu escolha entre X ou Y para continuar pertencendo ao grupo, começo a me perguntar o quanto compreendemos realmente aquilo que estamos ensinando.

Professor deveria ampliar a capacidade do aluno de enxergar.

Não entregar uma lista dizendo quem ele precisa amar e quem precisa odiar.

Eu não quero alunos que pensem como eu.

Quero alunos capazes de pensar.

Inclusive capazes de discordar de mim.

Porque se depois de anos praticando comigo você precisa perguntar qual político deve seguir, eu falhei em alguma parte importante.

Meu trabalho deveria ajudá-lo a desenvolver discernimento suficiente para olhar para várias pessoas, várias ideias, várias propostas…

e pensar.

Não escolha uma pessoa

Essa é uma das coisas que mais gostaria de transmitir.

Não entregue sua consciência inteira a uma pessoa.

Não faça isso comigo.
Não faça com um professor.
Não faça com um político.
Não faça com um guru.

Aprenda com vários.
Observe vários.

Existe alguém com uma grande ideia sobre economia e uma péssima ideia sobre outra coisa.

Outro pode enxergar profundamente um problema social e não compreender outro.

Um professor pode transformar sua vida em determinado aspecto e continuar sendo extremamente limitado em outro.

Pessoas não precisam estar totalmente certas para terem alguma coisa certa para ensinar.

Eu mesmo sou resultado de muitos professores.

Alguns me ensinaram o que fazer.
Outros me ensinaram o que não fazer.

Ambos foram professores.

De que lado estão os sábios?

Se eu olhar para um grande mestre tentando colocá-lo dentro de uma caixa política, provavelmente encontrarei contradições.

Em uma situação ele defenderia disciplina.
Em outra, misericórdia.

Em uma, responsabilidade individual.
Em outra, cuidado coletivo.

Em uma, preservaria a tradição.
Em outra, romperia com ela.

Isso não demonstra ausência de posição.

Demonstra algo muito mais difícil:

responder à situação presente sem precisar ser fiel a uma identidade construída no passado.

Para mim, isso é sabedoria.

O sábio não precisa perguntar:

“O que alguém do meu lado deveria pensar sobre isso?”

Ele olha.
Investiga.
Compreende.

E então responde.

E eu?

Eu tenho minhas escolhas.
Tenho meu voto.
Tenho opiniões fortes.
Tenho valores que dificilmente negocio.

Mas gosto da possibilidade de alguém passar anos comigo e continuar sem conseguir decidir exatamente onde me colocar.

Porque isso significa que ainda não entreguei minha consciência a uma caixa.

Um dia você poderá me ouvir e pensar:

“Ele é de esquerda.”

No outro:

“Não. Ele é de direita.”

E em outro:

“Esse cara não faz sentido.”

Ótimo.

Continue observando.

Porque provavelmente eu também continuarei.

A vida já me ensinou que precisei do esforço individual para sair de onde estava.

E também precisei da mão de alguém aberta na minha direção.

Precisei aprender a conquistar.
E precisei aprender a receber.

Precisei cobrar.
E precisei dar.

Precisei ser independente.
E em outros momentos minha vida só avançou porque alguém decidiu caminhar comigo.

Não preciso eliminar uma dessas experiências para validar a outra.

As duas construíram quem eu sou.

No final

Não quero escolher uma pessoa para pensar por mim.

Quero aprender com muitas.

Não quero defender uma ideia porque veio do meu lado.

Quero saber se ela diminui sofrimento.
Se cria possibilidades.
Se preserva dignidade.
Se ajuda seres humanos reais.
Se funciona.

E, principalmente, quero conservar a liberdade de amanhã encontrar algo melhor e mudar.

Talvez seja isso que tantos anos de Yoga e Budismo tenham feito comigo.

Não me deram todas as respostas.

Fizeram algo mais importante:

me deixaram cada vez mais desconfiado das respostas que exigem que eu pare de olhar.

Por isso, quando me perguntarem de que lado estou, não sei se minha resposta algum dia será suficiente.

— Edson Ramos


Porque antes de escolher um lado…
eu ainda quero enxergar quem está do outro.

Levou algo daqui? Compartilhe.

Voltar para a Biblioteca
Continue a prática

Pratique no Dojo

No Dojo as aulas, a respiração e a meditação ficam sempre no mesmo lugar. O discernimento é treinado todo dia, um pouco por vez.