Diário · Erro e Responsabilidade

A aula que eu não gravei

Acordei às cinco, dei uma aula inteira e não gravei nada. O que veio depois valeu mais do que a gravação.

Edson Ramos8 min de leitura

Hoje eu acordei como quase todos os dias.

Cinco horas da manhã. Ainda estava escuro.

Levantei, preparei tudo e fui gravar a aula do Dojo. Hoje era um flow completo. Fiz a prática inteira. Mais de uma hora me movimentando, ensinando, respirando, tentando entregar o melhor que eu podia.

Terminei cansado, suado, com aquela sensação boa de missão cumprida.

Até olhar para a tela.

Eu não estava gravando.

Fiquei parado.

Sentei e fiquei olhando para frente durante alguns minutos, tentando entender como eu tinha conseguido fazer uma aula inteira sem perceber uma coisa tão básica.

A primeira reação foi a frustração.

Depois veio uma coisa muito humana: procurar um culpado.

O programa.
O computador.
Alguma configuração.

Qualquer coisa que pudesse explicar aquilo.

Até perceber o óbvio.

Tinha sido eu.
Eu simplesmente não tinha prestado atenção.

Desci, troquei de roupa porque estava completamente suado, coloquei outra roupa e pensei: vamos de novo.

Voltei para gravar.

Comecei a aula novamente e, poucos minutos depois, alguma coisa dentro de mim disse: confere.

Parei e olhei para a tela.

Não estava gravando novamente.

Naquele momento eu comecei a rir da situação, porque já não dava mais para culpar o computador.

O problema naquele dia era outro.

Eu estava sem atenção plena.

E essa foi a aula mais importante da manhã.

A gente gosta muito de falar sobre presença.

Presença virou uma palavra bonita. Está nas aulas de Yoga, nos livros, nos retiros, nas legendas das redes sociais.

“Esteja presente.”

Mas presença não é uma ideia.

Presença é perceber se você apertou o botão de gravar.
É perceber como está respirando.
É perceber como está falando com alguém.
É perceber o momento em que a irritação começa, antes que ela vire uma palavra.
É perceber o pensamento antes de transformá-lo numa atitude.

É muito fácil querer encontrar espiritualidade nas coisas extraordinárias.

Às vezes ela está num botão escrito REC.

Ajustei tudo.
Conferi.
E comecei pela terceira vez.

Só que agora havia outra coisa acontecendo.

Meu corpo estava cansado. Eu já tinha feito praticamente uma aula inteira antes.

As pernas estavam pesadas, algumas posições ficaram mais difíceis e determinadas transições exigiam muito mais esforço.

E no meio da prática pensei: deve ser assim que muita gente se sente praticando.

Uma pessoa mais velha.
Uma pessoa voltando de uma lesão.
Alguém começando Yoga aos cinquenta ou sessenta anos.
Alguém que dormiu mal.
Alguém que simplesmente está cansado.

Para mim, naquele momento, o cansaço tinha uma explicação simples: eu já havia praticado antes.

O corpo não estava interessado na explicação. Ele só dizia: “hoje está mais difícil.”

E isso mudou a maneira como eu estava ensinando.

Algumas coisas só podem ser compreendidas quando passam pelo corpo.

Podemos estudar compaixão durante anos, mas às vezes basta sentir dificuldade em uma postura que normalmente é fácil para começar a compreender a dificuldade do outro.

Só que outra coisa ainda estava acontecendo.

Durante toda a gravação eu olhava para a tela.

Está gravando?
O microfone está funcionando?
A bateria acabou?
A câmera continua ligada?

Eu tinha acabado de aprender uma coisa e a experiência já havia deixado uma marca dentro de mim.

Na tradição do Yoga existe uma palavra interessante para isso: samskara.

Uma impressão.
Uma marca deixada pela experiência.

Aquilo aconteceu uma vez e a mente imediatamente criou um registro: preste atenção porque isso pode acontecer novamente.

E percebi como fazemos isso o tempo inteiro.

Alguns samskaras são pequenos.

Uma gravação perdida.
Uma porta que esquecemos aberta.
Uma chave que perdemos.

Depois passamos alguns dias verificando duas vezes.

Existem marcas muito mais profundas.

Uma decepção.
Uma traição.
Uma perda.
Uma humilhação.
Uma lesão.
Uma relação difícil.

A experiência termina, mas uma parte dela continua vivendo dentro de nós.

E passamos a olhar para a vida como eu olhava para aquela tela: será que vai acontecer de novo?

Boa parte do nosso sofrimento não está apenas no que aconteceu. Está também na vigilância que permanece depois.

E foi aí que aquela manhã começou a me ensinar outra coisa.

Quando alguma coisa dá errado, existe uma tendência quase automática de transferir a responsabilidade.

Alguém precisa ser culpado.

O marido.
A esposa.
O professor.
O aluno.
O motorista da frente.
O governo.
O trânsito.
O computador.
O universo.

Enquanto o problema estiver fora, eu não preciso olhar para dentro.

É confortável encontrar um culpado. Responsabilidade é bem mais desconfortável.

Só que existe uma diferença enorme entre culpa e responsabilidade.

Culpa olha para trás e pergunta: “quem fez isso?”

Responsabilidade olha para o presente e pergunta: “o que eu faço com isso agora?”

Essa segunda pergunta é muito mais espiritual.

Eu não controlo tudo o que acontece comigo, mas participo daquilo que faço com o que aconteceu.

Karma é mal compreendido justamente por isso.

Muita gente pensa em karma como uma espécie de contabilidade cósmica: fiz algo ruim, receberei algo ruim; fiz algo bom, receberei alguma recompensa.

Eu prefiro olhar de uma forma muito mais prática.

Cada ação deixa alguma coisa.
Cada reação treina alguma coisa.

Se diante de toda frustração eu treino a raiva, fico melhor em sentir raiva.

Se diante de todo erro eu treino procurar culpados, fico excelente em encontrar culpados.

Se diante de toda dificuldade eu treino fugir, a fuga se torna o caminho mais conhecido pela minha mente.

E se diante do erro eu treino presença, responsabilidade e correção, alguma coisa diferente começa a ser construída.

É assim que o caráter vai sendo treinado. E é também assim que uma prática espiritual amadurece.

Não pelo número de horas que conseguimos permanecer sentados meditando, mas pela distância entre aquilo que acontece e a maneira como reagimos.

Sentar em silêncio quando tudo está bem é relativamente fácil. Difícil é perceber a mente no instante em que alguma coisa dá errado.

É nesse segundo que aparece o treinamento.

Alguém fecha você no trânsito.
Uma pessoa diz alguma coisa que você não gosta.
Seu marido ou sua esposa faz algo que irrita você.
Um aluno reclama.
Um projeto não funciona.
Você grava uma aula inteira e descobre que não gravou nada.

Ali existe um espaço muito pequeno.
Quase invisível.
Entre o acontecimento e a reação.

Talvez toda a prática esteja naquele espaço.

O mundo não vai deixar de apertar os nossos botões. O treinamento é perceber que existe um botão antes de apertá-lo de volta.

No Budismo existe uma ideia que sempre considerei importante: transformar as experiências em caminho.

Isso muda tudo.

Se apenas as experiências agradáveis servirem para o nosso crescimento, vamos aprender muito pouco.

A doença pode ensinar.
A frustração pode ensinar.
O cansaço pode ensinar.
Um erro pode ensinar.
Até uma câmera que não estava gravando pode ensinar.

Desde que eu consiga fazer uma pergunta: o que isso está revelando sobre mim?

Hoje revelou falta de atenção.
Revelou minha reação diante da frustração.
Revelou a tendência inicial de procurar alguma coisa fora de mim.
Revelou como uma experiência cria rapidamente uma marca na mente.

E revelou também algo bonito.

Eu poderia ter desistido. Poderia ter dito: “hoje não tem aula.”

Mas troquei de roupa e comecei novamente. E depois comecei mais uma vez.

Não porque isso me transforma em alguém especial, mas porque prática é exatamente isso.

Voltar.
Errar.
Perceber.
Ajustar.
Voltar.

Na primeira aula daquela manhã eu estava ensinando Yoga. Na última, de alguma maneira, o Yoga estava me ensinando.

E é por isso que eu continuo praticando depois de tantos anos.

A prática nunca garante que eu não vou errar. Ela apenas aumenta a possibilidade de que, em algum momento, eu perceba.

E quando eu percebo, surge uma escolha.

Posso continuar repetindo a mesma reação.
Ou posso interromper o ciclo.

Liberdade espiritual talvez não seja nunca mais criar samskaras, e sim começar a enxergá-los.

Olhar para aquela marca e dizer: eu sei por que você está aqui, mas você não precisa decidir sozinho o que eu farei agora.

No final, a aula foi gravada.
O computador funcionou.
O microfone funcionou.

E eu terminei muito mais cansado do que imaginava quando acordei às cinco da manhã, mas terminei entendendo uma coisa que vale mais do que aquela gravação.

— Edson Ramos


A vida não precisa colaborar com a nossa prática espiritual.
Ela já é a prática, principalmente quando alguma coisa dá errado.

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