Reflexão · Dúvida e Liberdade

O Yoga Como Prisão

E se o maior ensinamento do yoga for descobrir que você não precisa dele?

Edson Ramos4 min de leitura

Às vezes tenho a sensação de que o yoga me atrapalha mais do que me ajuda.

Calma que eu explico.

Tem coisa mais anti-natural do que o yoga? Pense bem. Todo mundo come um hambúrguer no almoço e ninguém reclama. Tá tudo bem. Ninguém fica olhando. Ninguém questiona o prana que saiu daquele bife.

Eu como comida com intenção e preciso justificar. Preciso explicar que tem prana. Preciso que aquilo seja diferente de um hambúrguer porque veio com consciência. Escolho um restaurante natural e não está bom. Precisa ser orgânico. Precisa ter energia. Precisa ter algo que ninguém mais consegue ver.

Sou condenado no meu meio por isso. E ao mesmo tempo sou obrigado a conhecer nome de milhares de deuses. Deuses que ensinam que matar é errado, roubar é errado, mentir é errado. Como não idolatar meus pais que desde cedo já diziam isso? A diferença é só o sotaque. Um tem mantras, o outro tem valores. Um tem ashram, o outro tem casa. Mas a mensagem é a mesma.

E o yoga não parou por aí. O yoga me mandou questionar tudo. Todos os dias. Sair da paz natural do corpo, mexer no que está quieto, evoluir a cada dia mais. Isso é bondade ou é inquietação disfarçada de progresso?

Porque tem algo errado nessa história. Se você é um ser divino, por que precisa evoluir? Se você já é perfeito na essência, por que precisa melhorar? Se você já é completo, por que precisa praticar asana todo dia? Essa é a contradição que ninguém quer encarar.

O yoga vende paz e entrega agitação. Vende aceitação e entrega cobrança. Você deveria estar bem com quem você é, mas também deveria praticar mais, meditar mais, estudar mais. Deveria ser desapegado do mundo, mas apegado o suficiente para frequentar retiros caros, comprar tapetes caros, encontrar o professor certo.

Entendo que a culpa não é da filosofia em si. Yoga é só yoga. É uma ferramenta, um caminho. O problema é a dualidade que criamos em volta dela. Temos que escolher entre direita e esquerda, um método e outro, um ser humano e outro. Hatha ou Vinyasa. Prana ou ciência. Comida natural ou alimento morto. Tudo é escolha. Tudo é decisão. Tudo é você contra o mundo.

Mas no fundo, cada um aqui recebeu a fagulha de um ser divino que habita sabe lá onde. Talvez dentro, talvez fora. Talvez em Brahman, talvez em Deus, talvez em energia cósmica. A gente chama de formas diferentes e acha que está errado o outro. Mas namaste pra você. Sua fagulha é tão divina quanto a minha.

E aqui está a coisa que mudaria tudo se as pessoas realmente acreditassem:

Se o mundo vive em círculos, você é o eixo. Você é o ponto fixo.

Nada que vem de fora deve definir o que é yoga pra você. Não o que o professor diz. Não o que está no livro. Não o que a comunidade espera. Não o que é trendy.

Cada um aqui vai descobrir o seu caminho com seus traumas, seus karmas, suas escolhas. Ninguém mais pode viver isso por você. Ninguém mais pode dizer se você está fazendo certo ou errado. Porque certo e errado também são dualidades. São escolhas que o sistema criou pra você oscilar.

O yoga real é aquele que você faz quando ninguém está olhando. É aquele que te traz paz de verdade, não agitação. É aquele que te deixa mais humano, não mais espiritual. É aquele que diminui o peso de viver, não que aumenta a responsabilidade de evoluir.

Então hoje me questiono. Por que não começar no Tai Chi? Porque talvez eu precise de um caminho que me diga menos. Que me ordene menos. Que não me prometa liberação e me entregue mais uma lista de tarefas espirituais. Talvez eu precise de algo que aceite que às vezes você é só um corpo cansado respirando, e tudo bem.

Talvez o maior ensinamento do yoga seja descobrir que você não precisa dele.

— Edson Ramos


Ou talvez o yoga seja aprender a respirar
enquanto o mundo te diz o jeito certo de fazer até isso.

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