No exército eu peguei toxoplasmose.
Essa doença se alojou no meu olho esquerdo. E por uns meses eu fiquei sem enxergar. Não é uma metáfora. Literalmente tinha um buraco na minha visão. Eu olhava mas não via.
Foi árduo. Tratamento intensivo. Tempo perdido. Futuro incerto.
Depois da recuperação eu pedi baixa. E comecei oficialmente a carreira de professor de yoga. Já dava algumas aulas, mas não vivia disso. Yoga era um hobby. Depois virou profissão.
Mas mudou uma coisa que nunca mais voltou.
Depois de ficar cego, quando recuperei a visão, eu não só voltei a ver. Comecei a enxergar.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Ver é abrir os olhos. É receber luz. É imagem entrando na retina.
Enxergar é observar. É notar. É pausar tempo o suficiente para realmente compreender o que está na sua frente.
Detalhes se tornaram importantes. Um aluno respirando errado. Uma emoção no rosto de alguém. A forma como a energia flui ou não flui em uma sala. Foco se tornou uma virtude que eu decidi treinar diariamente.
Ainda assim cometo erros. Passo por coisas que não deveria passar. Deixo de notar o que importa.
Mas tentei. E tenho praticado isso a vida inteira.
A cegueira coletiva
Mas o que quero dizer com tudo isso? É que estamos em um momento onde as pessoas não enxergam. Não se interessam. Não têm paciência.
Alguém te chama para treinar, para estudar, para observar realmente a sua vida. E a resposta é: "sim, mas é muito longo, resume aí".
Tenho certeza que muitos começam a ler esses textos e nem terminam.
Que muitos vêm para uma aula e já estão pensando no próximo lugar. Que muitos respiram mas não enxergam a respiração. Que muitos vivem mas não enxergam suas vidas.
É uma cegueira de outro tipo. Não é um vírus nos olhos. É um vírus na atenção.
O custo de não enxergar
Porque aqui está a coisa que ninguém quer admitir. Quando você para de enxergar, você para de viver de verdade.
Você passa pela vida vendo. Olhando. Recebendo imagens. Mas sem compreender. Sem integrar. Sem deixar que aquilo mude você.
Você pode fazer yoga por vinte anos vendo as posturas. Fazer amor vendo o corpo da outra pessoa mas não enxergando aquele ser. Ter conversas ouvindo os sons mas não enxergando o que está sendo dito.
É estar vivo mas ainda estar cego.
O que a cegueira me ensinou
Aquela toxoplasmose, por mais difícil que fosse, me deu um presente. Ela me obrigou a parar. A reconhecer que a visão não é automática. Que ver é um privilégio. Que enxergar é uma prática.
Depois disso, eu não consegui mais passar batido pela superficialidade. Porque eu tinha sentido o peso de perder algo que a maioria toma como garantido.
E desde então, eu tento enxergar. Nas aulas. Nos alunos. Na vida. Na respiração. Nos detalhes.
Porque os detalhes são tudo. É neles que a vida de verdade acontece. É neles que a transformação ocorre.
Para quem ainda está lendo
Se você chegou até aqui, você provavelmente está enxergando. Você pausou. Você leu. Você deixou as palavras entrarem.
Porque existem dois tipos de pessoas nesse mundo. Aquelas que veem. E aquelas que enxergam.
Os que veem estão sempre ocupados. Sempre passando. Sempre indo para o próximo. Ver é rápido. Ver não custa nada.
Os que enxergam são raros. Porque enxergar custa. Custa tempo. Custa atenção. Custa ficar parado enquanto o mundo quer que você corra.
Mas é nos que enxergam que a vida realmente acontece.
O desafio
Então aqui vai meu convite. E talvez seja a coisa mais importante que eu possa oferecer.
Quando você respirar hoje, não só veja a respiração. Enxergue-a. Observe como o ar entra. Sinta a qualidade. Observe como ela muda você.
Quando conversar com alguém, não só ouça as palavras. Enxergue a pessoa. Os olhos. O rosto. O que está sendo dito sem palavras.
Quando estiver em uma aula, não execute as posturas. Enxergue-as. Sinta cada movimento. Entenda o porquê daquele movimento.
Porque aqui está a verdade que a toxoplasmose me ensinou, mesmo que de forma brutal.
Você tem dois olhos. Provavelmente ainda pode enxergar. Mas não é automático. Você precisa praticar. Você precisa escolher. Você precisa parar o suficiente para realmente ver o que está na sua frente.
E quando você faz isso? Aí sim você descobre que estava cego a vida inteira. Mesmo com os olhos abertos.
— Edson Ramos
Enxergue.
Enquanto ainda pode.