Artigo · Meditação

Shine e Shamata: os dois caminhos da meditação

Do Zazen aos dezessete anos ao budismo tibetano, sobre estabilidade, pacificação e a diferença entre simples e fácil.

Edson Ramos6 min de leitura

Aos dezessete anos conheci o Zazen.

Aquela meditação Zen em que você senta de frente para uma parede, mantém os olhos semiabertos e observa os próprios pensamentos sem fazer muita coisa com eles.

Naquela época, um dos professores com quem tive contato foi o monge Ryotan Tokuda. E foi ali que comecei a entender uma coisa sobre meditação que carrego até hoje.

Meditar é muito mais simples do que a gente imagina.

O problema é que simples não significa fácil.

Quando conheci Shine e Shamata

Anos depois fui estudar no budismo tibetano e encontrei Shine e Shamata.

Duas palavras que parecem complicadas quando você escuta pela primeira vez, mas que falam de coisas que provavelmente você já experimentou sem saber o nome.

Foi ali que comecei a olhar para a meditação de outra maneira.

O Zen tinha me ensinado muito sobre abandonar. Simplificar. Sentar. Observar. Inclusive abandonar aquela ganância espiritual de querer sempre aprender uma técnica nova, receber outro ensinamento, subir mais um degrau.

Mas no budismo tibetano encontrei também estrutura.

Existe um caminho. Existe treinamento.

E com o tempo fui percebendo que essas duas coisas não eram opostas.

Uma precisava da outra.

O que são Shine e Shamata?

Shine é estabilidade mental.

É conseguir colocar a mente em alguma coisa. Pode ser a respiração, uma imagem, um objeto, um mantra. Não importa tanto.

O primeiro trabalho é ficar.

E isso já é difícil pra caramba.

Porque você coloca a mente na respiração e alguns segundos depois está pensando no almoço, numa conversa de ontem, numa conta que precisa pagar.

Então volta.
Sai de novo.
Volta.

Esse treinamento de permanecer é fundamental.

Shamata traz essa ideia de pacificação, de uma mente que começa a assentar. E quando a agitação diminui, alguma clareza aparece.

Na prática, estabilidade e clareza vão crescendo juntas.

A imagem do elefante

Quando ensino isso costumo mostrar uma imagem tradicional que gosto muito.

É um monge subindo um caminho atrás de um elefante.

No caminho aparecem um macaco, um coelho, fogo e várias outras coisas. O elefante começa escuro e aos poucos vai ficando claro. O monge continua seguindo.

Quando você olha aquilo pela primeira vez parece quase uma história infantil.

Mas está tudo ali.

O elefante é a mente.

O macaco é aquela agitação que não para.

O caminho é o treinamento.

No começo você corre atrás da própria mente.

Depois de algum tempo começa a caminhar com ela.

É uma das melhores imagens que conheço para explicar o processo meditativo.

Os nomes que você já conhece

Ao longo da vida encontrei muitos nomes.

Zazen. Shine. Shamata. Lhaktong. Vipassana. Mindfulness. Atenção Plena.

Tradições diferentes organizaram essas experiências de maneiras diferentes, e acho importante respeitar essas diferenças.

Quando você pratica durante bastante tempo, começa também a perceber os pontos de encontro.

Todas, de alguma maneira, estão ensinando você a olhar.

Olhar para a mente.
Olhar para o corpo.
Olhar para aquilo que está acontecendo agora.

E, principalmente, aprender a ficar um pouco com você mesmo.

Meditar não é o que muita gente imagina

Durante muito tempo a meditação ganhou uma aura meio estranha.

Parece que você vai sentar, entrar em transe, transcender o corpo, parar de pensar e acessar algum estado extraordinário.

Pode até existir uma discussão enorme sobre estados meditativos. Mas não é por aí que eu começaria.

Também não diria que meditar é deixar de pensar.

Sua mente pensa. Ela foi feita para isso.

O que muda é que, durante a meditação, você começa a perceber o pensamento acontecendo.

Você pensa e percebe que pensou.
Depois pensa de novo.
E percebe de novo.

Até começar a entender uma coisa interessante.

Se eu consigo observar meus pensamentos, talvez eu não precise acreditar em todos eles.

Isso muda muita coisa.

O caminho que pratiquei

Comecei com Zazen.

Senta. Observa. Deixa passar.

Depois vieram Shine e Shamata.

Estabilidade. Pacificação. Clareza.

Depois vieram práticas mais analíticas e investigativas do budismo tibetano.

Mais tarde encontrei também o Mindfulness e outras maneiras modernas de trabalhar atenção, respiração e corpo.

Durante muito tempo eu queria saber qual delas estava certa.

Hoje essa pergunta me interessa muito menos.

Cada uma me ensinou alguma coisa. E nenhuma resolveu tudo.

Analítica e contemplativa

Com o tempo comecei a organizar minha própria prática de uma maneira bem simples.

Existem momentos em que medito de forma analítica.

Pego uma questão, um pensamento, uma emoção e investigo.

Por que isso me incomoda?
De onde veio?
O que acontece se eu olhar por outro lado?

Existe atividade mental, mas ela tem direção.

Em outros momentos não quero investigar nada.

Sento.
Respiro.
Observo.

Se está agradável, observo. Se está uma porcaria, observo também.

Isso é contemplação.

E uma coisa que aprendi é que não adianta transformar contemplação em mais uma tarefa.

Aí você já estragou tudo.

Quando a meditação começava depois da meditação

Isso aconteceu comigo muitas vezes.

Eu sentava para meditar e escolhia alguma coisa como foco. Respiração, mantra, visualização, não importa.

Ficava ali tentando permanecer.

A mente saía.
Eu voltava.
Saía.
Voltava.

Até que em algum momento cansava de tentar.

E algumas vezes era justamente ali que a meditação começava de verdade.

Porque não havia mais nada para conquistar.

Nenhum estado para alcançar. Nenhuma experiência especial esperando por mim.

Eu simplesmente estava ali.

E muitos anos depois comecei a perceber que aquilo era muito próximo do que o Zazen tinha tentado me ensinar quando eu tinha dezessete anos.

O estado que eu estava procurando talvez não estivesse no final do caminho. Estava aqui desde o começo.

Como isso mudou minha vida

Passei boa parte da vida pensando demais.

Pensando em evolução, estados, experiências, progressão.

Quando vou conseguir?
Quando vou entender?
Quando finalmente vou chegar lá?

Isso pode virar outra forma de ansiedade.

Até que comecei a experimentar uma coisa diferente.

Parar.

Não parar de estudar. Não parar de praticar. Muito menos achar que não existe mais nada para aprender.

Parar de transformar tudo em chegada.

Isso fez diferença.

Existe uma hora em que você precisa estudar.
Existe uma hora em que precisa praticar.
Existe uma hora em que precisa investigar.
E existe uma hora em que precisa simplesmente sentar e ficar quieto.

Sabedoria também é reconhecer qual dessas horas chegou.

Para você começar

Antes de pensar em iluminação, liberação ou qualquer outro estado maravilhoso que alguém tenha prometido, experimente uma coisa muito mais simples.

Sente alguns minutos.

Escolha sua respiração como referência.

Perceba quando sua mente sair.

Volte.

Ela vai sair novamente. Volte novamente.

E em algum momento você percebe que não precisa brigar tanto com aquilo que aparece. Nem alcançar alguma coisa extraordinária.

Por alguns minutos, apenas fique.

Uma das coisas mais difíceis que a meditação pode nos ensinar é também uma das mais simples.

— Edson Ramos


Aprender a estar com nós mesmos
sem precisar imediatamente ser outra coisa.

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