Você já deve ter me ouvido repetir essa frase algumas vezes aqui dentro da escola.
Quem tá atrás a gente puxa.
Quem tá na frente a gente empurra.
Mas talvez você não saiba de onde ela veio.
Quando eu era criança, não era exatamente o menino mais safo da turma. Meus irmãos diziam que eu era lento. E, para ser justo com eles, eu era mesmo.
Nas brincadeiras, nos esportes, nas coisas que exigiam rapidez, força ou esperteza, eu normalmente precisava de um tempo a mais para entender o que estava acontecendo.
Isso me incomodava.
Quando chegou a idade de servir ao Exército, entrei com uma ideia muito clara na cabeça: eu queria mudar aquilo. Queria deixar aquele menino para trás.
Só que o Exército rapidamente tratou de me mostrar que ele ainda estava ali.
Nos primeiros treinamentos, fui parar no final da fila.
Último.
E aquela fila não era simbólica. Os treinamentos eram duríssimos. Você cansava, errava, era pressionado e precisava continuar.
Só que aconteceu uma coisa curiosa.
Do lugar onde eu estava, comecei a perceber que existiam caras com ainda mais dificuldade do que eu.
Gente cansando antes.
Gente querendo desistir.
Gente ficando para trás.
E alguma coisa começou a mudar dentro de mim.
Porque eu poderia finalmente olhar para alguém e pensar: agora o problema é dele. Eu já tenho dificuldade suficiente para cuidar.
Mas não era assim que aquilo funcionava. Se alguém ficasse para trás, aquilo afetava todos nós.
E, ao mesmo tempo, comecei a perceber outra coisa. Eu também precisava continuar acompanhando quem estava na minha frente.
Precisava chegar perto.
Precisava ajudar.
Precisava empurrar.
Foi ali que uma fila começou a virar uma corrente na minha cabeça.
Quem tá atrás a gente puxa.
Quem tá na frente a gente empurra.
Anos depois, essa frase acabou entrando na nossa escola. Mas existe uma coisa importante nela que talvez eu nunca tenha explicado direito.
Quando falo quem está atrás e quem está na frente, não estou falando de pessoas melhores ou piores. Não estou falando de fortes e fracos. Muito menos de uma hierarquia onde alguns sabem e outros simplesmente obedecem.
Estou falando de posição.
Porque a posição muda.
Hoje você pode ser aquele que precisa de uma mão. Amanhã, essa mesma mão pode ser a sua, estendida para outra pessoa.
Em uma prática você é puxado. Em outra, você puxa.
Às vezes alguém abre um caminho para você. Às vezes é você quem abre o caminho.
É assim que uma Sangha deveria funcionar.
Não como um grupo de pessoas tentando descobrir quem chegou mais longe. Mas como uma corrente.
E uma corrente não é forte porque existe um elo extraordinário.
Ela é forte porque os elos não se abandonam.
Talvez seja por isso que eu nunca tenha acreditado muito nessa divisão rígida entre quem ensina e quem aprende.
Depois de tantos anos ensinando, continuo sendo puxado por pessoas que chegaram depois de mim. Por perguntas que nunca tinha feito. Por alunos que enxergam coisas que eu não enxergava.
E também continuo empurrando quem está na minha frente. Porque quem está na frente também cansa. Também duvida. Também precisa de alguém atrás dizendo:
Continua. Eu estou aqui.
No fundo, todos somos alunos. E, quando entendemos isso de verdade, todos começamos a ser professores também.
— Edson Ramos
Quem tá atrás a gente puxa.
Quem tá na frente a gente empurra.
E ninguém precisa caminhar sozinho.