Neste final de semana tivemos mais um Advanced Yoga Training.
Uma das coisas que mais gosto de observar em uma formação é quem chega no primeiro dia e quem vai embora no último.
Não é a mesma pessoa.
No primeiro dia, o aluno normalmente chega assustado.
Olha para os outros. Compara corpos, práticas, conhecimento. Tenta descobrir se está preparado o suficiente para estar ali.
E quase nunca acha que está.
Existe uma insegurança que acompanha o começo de toda formação.
“Será que minha prática é boa o bastante?”
“Será que eu sei o suficiente?”
“Será que realmente quero ser professor?”
Eu não acho que essas dúvidas sejam um problema.
Na verdade, elas fazem parte da iniciação.
Porque uma formação começa justamente quando aquilo que parecia certo começa a ser questionado.
Antes de ensinar o aluno a ensinar, tentamos fazê-lo enxergar a própria prática.
Ele começa a perceber que o corpo do outro não é uma medida para o seu corpo. Que cada pessoa carrega uma história, uma anatomia, uma forma de aprender e até uma maneira diferente de compreender o Yoga.
Aos poucos, a comparação começa a perder espaço para a investigação.
E alguma coisa muda.
A Sangha também ensina
Existe outro fenômeno bonito acontecendo durante uma formação.
As pessoas chegam desconhecidas e, alguns dias depois, parece que passaram meses juntas.
A amizade começa a aparecer.
Um ajuda o outro.
Um reconhece no medo do outro aquilo que também sentiu.
E a turma começa a perceber que ninguém precisa atravessar esse processo sozinho.
Talvez por isso uma formação seja tão difícil de explicar para quem nunca viveu uma.
Existe o conteúdo que ensinamos.
E existe aquilo que acontece entre os conteúdos.
As conversas.
As dúvidas.
Os erros.
As risadas.
O cansaço.
As pequenas descobertas.
E muitas vezes é justamente aí que acontece o aprendizado mais importante.
Antes de ensinar, pratique
Em algum momento da formação, uma compreensão precisa nascer.
Praticar é mais importante do que ensinar.
Ensinar Yoga sem continuar sendo aluno é perigoso.
O professor que acredita que chegou ao fim começa lentamente a se afastar da própria fonte.
Por isso, quanto mais avançado é o treinamento, menos interessado estou em produzir professores que saibam muitas coisas.
Quero formar professores que saibam investigar.
Que consigam observar.
Que saibam dizer “não sei”.
Que continuem estudando.
Que tenham coragem de mudar de opinião.
E principalmente que não abandonem a própria prática para viver apenas da prática dos seus alunos.
Talvez essa seja uma das grandes ironias do caminho.
No começo você pratica porque quer aprender a ensinar.
Depois percebe que precisa ensinar para continuar aprendendo a praticar.
O Training
Quando chegamos ao Training, alguma coisa já mudou.
Aquela pessoa que entrou perguntando se deveria ser professor começa a compreender melhor o que quer.
Não necessariamente porque todas as dúvidas desapareceram.
E sim porque agora existe maturidade suficiente para caminhar junto delas.
O professor não nasce quando deixa de ter dúvidas.
Nasce quando aprende a não precisar escondê-las.
É nesse momento que nossa relação com o aluno também começa a mudar.
Deixamos de tratá-lo somente como alguém que recebe ensinamentos.
Começamos a tratá-lo como professor.
Isso traz responsabilidade.
Receber conhecimento é relativamente confortável.
Sustentá-lo é outra história.
Nós ensinamos um anga
Sempre penso que uma formação deveria ensinar um anga.
Uma parte.
Um membro.
Nunca o caminho inteiro.
Nenhum professor deveria entregar ao aluno uma estrada completamente pavimentada.
Podemos mostrar princípios.
Podemos transmitir técnicas.
Podemos compartilhar aquilo que aprendemos durante décadas.
Podemos apontar perigos e atalhos.
Mas existe uma parte do caminho que pertence somente ao aluno.
É ali que o conhecimento começa a virar sabedoria.
Quando ele experimenta.
Erra.
Volta.
Questiona.
Descobre.
E finalmente encontra uma maneira própria de sustentar aquilo que recebeu.
Uma boa formação não deveria criar cópias do professor.
Deveria criar pessoas suficientemente maduras para não precisarem copiá-lo.
Um ritual de passagem
Por isso vejo uma formação como uma espécie de ritual de passagem.
O aluno chega procurando respostas e, muitas vezes, vai embora com perguntas melhores.
Chega querendo aprender posturas e começa a compreender o próprio corpo.
Chega querendo aprender a ensinar e descobre a importância de continuar praticando.
Chega olhando para o professor e, pouco a pouco, começa a olhar para dentro.
E é justamente esse o momento mais importante.
Uma formação de Yoga não deveria servir apenas para transmitir conteúdo.
Ela deveria ajudar alguém a amadurecer dentro do próprio caminho espiritual.
Não dizer no que acreditar.
Não determinar onde chegar.
Não produzir seguidores.
E sim oferecer ferramentas suficientes para que cada pessoa consiga continuar caminhando quando o professor já não estiver ao lado.
No primeiro dia, mostramos algumas pegadas.
Durante a formação, caminhamos juntos.
Depois, chega o momento em que o aluno precisa seguir sozinho.
— Edson Ramos
Podemos mostrar o caminho.
Mas os passos precisam ser dele.