Aos doze anos encontrei uma fita cassete. Não lembro como. Não lembro de quem era. Lembro só do conteúdo: som de água corrente. Nada mais. Água correndo.
Levei para o meu quarto, fechei a porta e coloquei para ouvir. Algo em mim disse que era importante. Por instinto, por karma, por sei lá o quê, me sentei encostado na parede e fechei os olhos.
E aí vem o que ninguém quer vivenciar nessa idade. Aquele som de água me abriu para um medo como nunca havia sentido antes. Um medo profundo. Não de algo específico. Medo do vazio que aquele som revelava. Medo de estar realmente sozinho comigo mesmo.
Joguei a fita fora. Não tentei novamente.
Cinco anos depois, aos dezessete, encontrei uma revista de yoga. Osnir Cugenotta. Um professor que ensinava a fazer posturas com materiais que você tinha em casa: cadeira, cinto, bloco, parede. Ali começava meu primeiro contato formal com yoga. Respiração. Movimento. Presença no corpo.
Um ano depois, uma força me levou para o budismo zen. E ali, na contemplação, naquele silêncio, resgatei aquele primeiro contato que tive com a fita cassete. O medo virou compreensão. A água corrente voltou. Mas desta vez eu não joguei fora.
Agora me faço a pergunta que ninguém consegue responder. Será que tudo isso foi meu karma? Já estava escrito em algum lugar? Alguns me disseram que sim. Que eu nasci para isso. Que aquela fita era um chamado que eu não consegui ouvir naquele momento.
Mas há outro lado. E se não foi karma? E se foi minha busca. Uma busca que ainda não entendo completamente, que vou contar em outro momento, mas uma busca que me levou sempre de volta ao mesmo lugar.
Porque isso é o que ninguém fala sobre padrões.
Os padrões insistem. Eles voltam.
Eles batem na porta. E você ou abre, ou passa o resto da vida ouvindo aquele bater.
Aquela fita com som de água. A revista com posturas simples. O silêncio do zen. Tudo apontava para o mesmo lugar. Todos me levavam de volta àquele quarto escuro, àquele medo, àquele confronto comigo mesmo.
Não sei se era karma. Mas sei que era insistente.
E talvez seja assim com tudo que importa. Talvez o universo não trabalhe com grande revelação. Talvez trabalhe com padrões que voltam. Com mensagens que reaparecem. Com portas que batem repetidamente até você ter coragem de abrir.
Você não precisa acreditar em karma pré-escrito para reconhecer que algo te chama. Você não precisa de misticismo para perceber quando algo tem ressonância com você.
Talvez seja só isso. Ressonância. Seu corpo, sua alma, seu espírito, seja lá qual for o nome, reconhecendo algo que já conhece. Voltando para casa através de caminhos diferentes. Sempre voltando.
E o ensinamento está aí. Escondido nos padrões que você ignora. Nas portas que batem. Nos sons que ecoam. Nos chamados que aparecem com nomes diferentes, mas apontam sempre para o mesmo lugar.
— Edson Ramos
A questão nunca foi se estava escrito.
A questão sempre foi: você vai ter coragem de responder?