Diário · Bastidores da Escola

O que vocês veem e o que ninguém vê

A maioria das pessoas acha que sou professor de yoga. Não estão erradas. Só estão vendo uma parte muito pequena.

Edson Ramos4 min de leitura

A maioria das pessoas acha que sou professor de yoga.

E não estão erradas. Só estão vendo uma parte muito pequena.

Elas me veem na frente de uma sala. Respirando. Ensinando. Ajustando alguma coisa. Falando sobre movimento, filosofia, silêncio.

Talvez pensem que meu trabalho começa alguns minutos antes daquela aula.

Quando chego ali, meu dia já começou há muitas horas.

Acordo entre cinco e seis da manhã. Quase todos os dias.

A primeira coisa que não faço é abrir o computador.

Faço minhas oferendas no altar. Medito um pouco. Respiro. Sempre respiro.

Preciso daquele tempo.

Pouco depois começa o barulho. Gravo as aulas do Dojo. Estudo. Planejo. Ensino.

E então sento na frente do computador.

É aí que aparece uma profissão que provavelmente não existe em nenhum formulário. Professor de yoga, programador, produtor musical, escritor, editor, empresário, suporte técnico e, dependendo do dia, bombeiro apagando algum incêndio que eu mesmo criei na noite anterior.

Tem código. Muito código. Nos últimos tempos uma quantidade absurda.

Porque decidi que queria construir nossas próprias ferramentas. Nosso aplicativo. Nossa comunidade. Nosso sistema.

Então tive que aprender.

Tem música. Produzo parte da música que usamos porque comecei a perceber que o som também faz parte da experiência que quero criar.

Tem vídeo. Câmera, áudio, transmissão, edição.

Tem texto. Apostilas, cursos, aulas, este Diário.

Tem site. Tem o Dojo. Tem aluno. Tem e-mail. Tem financeiro. Tem empresa.

E no meio de tudo isso ainda tem uma coisa que não pode desaparecer.

Eu preciso continuar sendo professor.

Essa é a parte mais difícil.

Durante muito tempo achei que para ser um bom professor precisava estudar cada vez mais yoga.

E precisava. Continuo precisando.

Mas descobri que isso não bastava para construir aquilo que eu imaginava.

Porque uma coisa é ensinar bem. Outra é construir uma escola. Outra, ainda maior, é construir uma escola capaz de continuar existindo, crescendo, ensinando sem depender o tempo inteiro de outras pessoas para funcionar.

Foi aí que comecei a aprender coisas que aparentemente não tinham nada a ver com yoga.

Tecnologia. Programação. Produção musical. Vídeo. Design. Negócios. Comunicação.

No começo pareciam mundos separados.

Hoje percebo que não são.

Existe uma ideia que gosto muito. Você precisa cavar um poço muito fundo em algum lugar. Esse é o seu ofício. O meu é ensinar.

São quase trinta anos cavando esse poço.

Mas chega um momento em que profundidade sozinha não resolve tudo.

Você precisa começar a construir pontes.

Yoga me deu profundidade.

As outras coisas começaram a me dar alcance.

Hoje consigo imaginar alguma coisa e muitas vezes construir. Isso é liberdade.

É por isso que tenho falado cada vez mais para os professores que estudam comigo.

Não parem no yoga. Não porque yoga seja pouco. Justamente porque o que vocês têm para ensinar pode ser grande demais para depender apenas de uma sala e de um horário na agenda.

Aprendam a escrever. Aprendam a comunicar. Entendam um pouco de dinheiro. Entendam tecnologia. Saibam gravar uma boa aula.

Aprendam a organizar conhecimento. Aprendam a vender aquilo em que acreditam sem transformar seu ensinamento em mercadoria barata.

Não precisam fazer tudo. Mas precisam entender o suficiente para não serem reféns de tudo.

Conhecimento também é autonomia.

Quando alguém abre o Dojo vê uma aula. Eu vejo todas as decisões que vieram antes dela.

Quando alguém escuta uma música durante a prática, provavelmente apenas escuta. Eu lembro das horas mexendo naquele som.

Quando alguém entra no site e encontra exatamente o que estava procurando não precisa saber quantas vezes aquilo foi refeito.

E está tudo certo.

Na verdade, esse é o objetivo. Quando um trabalho é bem feito o esforço desaparece.

O aluno não deveria precisar enxergar a máquina. Ele deveria apenas sentir que tudo funciona.

Depois de código, reunião, música, problema, mensagem, planejamento, conta e computador…

Eu volto para a sala.

Tiro o sapato. Sento. Respiro. E ensino.

É curioso.

No final de tudo volto exatamente para onde comecei. Para a respiração.

Talvez por isso eu ainda goste tanto de ensinar.

No meio de todas essas coisas que aprendi a fazer existe uma que continua organizando todas as outras.

Ser professor.

Não é mais a única coisa que faço. Mas continua sendo o centro de tudo.

E essa é a diferença que demorei tantos anos para entender.

Eu não precisei deixar de ser professor para me tornar todas essas outras coisas.

Precisei aprender todas essas outras coisas para conseguir levar mais longe aquilo que sempre fui.

— Edson Ramos


Não precisei deixar de ser professor
para me tornar todas essas outras coisas.

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