Diário · Prática

O Que o Corpo Não Quer Abandonar

Sobre por que Balasana e Shavasana podem ser as posturas mais difíceis do Yoga, e sobre a única faixa que ninguém amarra na cintura.

Edson Ramos3 min de leitura

Hoje, durante minha prática pessoal, entrei em contato com uma postura que ainda me oferece bastante dificuldade.

Enquanto tentava encontrar meu lugar nela, uma pergunta apareceu:

Por que meu corpo não aceita esta postura se, dentro da minha mente, ela parece tão perfeita?

Fiquei algum tempo pensando nisso.

A força que possuímos está relacionada àquilo que a vida nos ensinou a sustentar. A flexibilidade revela justamente o contrário, nossa capacidade de abandonar aquilo que já não precisamos carregar.

Se olharmos dessa forma, nossas limitações físicas podem contar histórias muito mais profundas do que imaginamos.

Veja Balasana, a postura da criança.

Uma das posturas aparentemente mais simples do Yoga pode se transformar em um enorme desafio para algumas pessoas. Curioso que justamente uma postura chamada “da criança” nos peça algo que muitos de nós desaprendemos ainda muito cedo: parar, recolher, descansar e respirar.

Crescemos ouvindo que era preciso produzir, conquistar, avançar, resistir. Descansar parecia perda de tempo. Parar parecia preguiça. Respirar não construía carreira, não pagava contas, não fazia ninguém parecer bem-sucedido.

Então crescemos.

E um dia entramos numa sala de Yoga e alguém nos pede exatamente aquilo que passamos a vida inteira aprendendo a evitar.

Pare.
Respire.
Não faça nada.

Por isso Balasana não é tão simples assim.

E o que dizer de Shavasana, a postura do morto?

Passamos boa parte da vida tentando esquecer que ela termina. Construímos, acumulamos, planejamos e nos comportamos como se a morte fosse um acontecimento reservado aos outros.

Então, novamente, o Yoga nos coloca diante daquilo que evitamos.

Deite-se.
Fique imóvel.
Solte tudo.

Algumas posturas são difíceis não apenas porque nossos músculos estão encurtados, mas porque nossas histórias continuam agarradas a eles.


Todos os dias vejo centenas de pessoas unidas pelo Trikonasana e, ao final, dois ou três gatos pingados sentados de pernas cruzadas em meditação.

Isso sempre me faz pensar.

Em algum momento, a prática parece ter se transformado na busca pelo ásana perdido.

Queremos conquistar a postura difícil, dominar a próxima série, alcançar aquilo que poucos conseguem fazer. Fotografamos, publicamos, comparamos e transformamos a prática em mais um lugar onde precisamos provar alguma coisa.

Pode ser insegurança, necessidade de reconhecimento ou simplesmente nosso velho e tão mal compreendido ego encontrando mais uma maneira de dizer:

“Veja, eu consegui.”

Nas artes marciais existe uma antiga história sobre as faixas.

No início, todos usavam faixa branca. Com os anos de treinamento, suor, poeira e prática, algumas ficavam mais escuras e encardidas. Aquilo acabava revelando quem estava ali havia mais tempo. Depois vieram as cores, as graduações e os sistemas que conhecemos hoje.

No Yoga criamos nossas próprias faixas.

Elas não estão amarradas na cintura.
Estão nas posturas.

Praticamos para conquistar a postura seguinte, a série seguinte, a certificação seguinte, o próximo nível. E, sem perceber, algo que poderia nos ensinar a diminuir nossas diferenças se transforma novamente em uma maneira de sermos diferentes dos outros.

Criamos o desafio do dia, a postura impossível, a pose perfeita.

Mas existe uma pergunta muito mais difícil:

Quanto tempo conseguimos permanecer observando nossa própria mente sem fugir dela?

Essa pode ser uma das posturas mais avançadas que existem.

Porque colocar a perna atrás da cabeça pode exigir alguns anos de prática.
Colocar o ego no lugar pode exigir uma vida inteira.

Como dizia o professor Hermógenes, enquanto somos jovens não há problema algum em cultivar o corpo. Devemos cuidar dele, fortalecê-lo e preservar sua integridade.

Há algo, porém, que não podemos esquecer:

Não somos apenas o corpo.

— Edson Ramos


Cultivamos o corpo para que ele seja uma boa morada.
Mas chegar à porta da casa não significa conhecer quem habita dentro dela.

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