Quando eu era mais novo, eu dançava breakdance.
E uma das coisas interessantes do break é que, antes de um movimento parecer fluido, ele precisa ser quase mecânico.
Você aprende a perceber cada articulação separadamente.
Primeiro acontece isso.
Depois aquilo.
O ombro se move.
O cotovelo responde.
O punho continua.
A coluna acompanha.
Você praticamente desmonta o movimento para entender a ordem em que cada parte do corpo precisa participar.
No começo fica duro.
Estranho.
Pensado demais.
Mas você repete tantas vezes que chega um momento em que não precisa mais controlar conscientemente cada pequena parte.
A música começa e o corpo responde.
Aquilo que antes era técnica começa a virar flow.
Sempre achei isso muito interessante.
Primeiro aprendemos as partes.
Depois deixamos que elas conversem.
E podemos pensar nossa coluna exatamente dessa maneira.
A coluna não é uma peça única
Quando alguém diz “movimente a coluna”, parece que estamos falando de uma coisa só.
Mas não estamos.
Existe uma sequência enorme de pequenas articulações criando aquilo que enxergamos externamente como um único movimento.
Quando fazemos uma onda com a coluna, por exemplo, o interessante não é simplesmente chegar à flexão ou à extensão.
É perceber como o movimento viaja pelo corpo.
Onde ele começa?
Por onde passa?
Onde encontra dificuldade?
Onde alguma região tenta compensar aquilo que outra não consegue fazer?
Isso começa a mudar nossa relação com mobilidade.
Porque mobilidade não é simplesmente conseguir ir mais longe.
É conseguir distribuir melhor o movimento.
O Yoga também pode nos deixar lineares
O sistema tradicional de asanas trabalha muitas vezes com formas bastante definidas.
Flexão.
Extensão.
Inclinação.
Torção.
Isso nos oferece uma organização maravilhosa para estudar o corpo.
Mas existe um risco quando passamos anos repetindo somente essas formas.
Começamos a confundir a postura com o movimento.
E não são a mesma coisa.
Quando o objetivo passa a ser chegar ao asana, o corpo encontra a maneira mais fácil de chegar lá.
E muitas vezes algumas regiões acabam trabalhando demais enquanto outras participam muito pouco.
A lombar é um ótimo exemplo.
Ela frequentemente oferece o movimento que outras regiões da coluna não estão conseguindo entregar.
Externamente, a postura aconteceu.
Internamente, talvez não tenha acontecido da maneira que imaginamos.
Por isso, no Oss Yoga, gosto de olhar para os asanas também como movimento.
Em vez de perguntar apenas “qual é a forma dessa postura?”, começamos a perguntar:
“Que movimentos existem dentro dela?”
Essa pequena mudança abre um mundo.
Do asana para o movimento
É justamente aí que entra a proposta da nossa primeira aula deste mês no Dojo 30.
Mobilidade da coluna.
Antes de buscar grandes amplitudes, vamos desmontar algumas coisas.
Como eu fazia no breakdance.
Vamos separar.
Perceber.
Organizar.
E depois juntar novamente.
A coluna pode flexionar e estender, mas também pode inclinar, rotacionar, ondular, desenhar círculos e criar espirais.
As vértebras experimentam pequenas variações de tração e compressão enquanto os tecidos ao redor precisam se adaptar continuamente.
E o movimento do tronco também altera as pressões internas. Quando comprimimos, expandimos, torcemos e respiramos, os tecidos e órgãos acompanham essas mudanças.
Já não existe apenas “uma coluna se alongando”.
Existe um organismo inteiro se movimentando.
Movimento também é nutrição
Os discos intervertebrais possuem grande quantidade de água e respondem mecanicamente às cargas que colocamos sobre a coluna.
Ao longo do dia existe compressão, descarga e alteração do conteúdo de água desses tecidos.
Por isso, quando movimentamos a coluna de maneiras variadas, oferecemos algo que considero fundamental para qualquer tecido vivo:
variação.
Pressionar.
Liberar.
Comprimir.
Descomprimir.
Mover.
Descansar.
O problema raramente está em um movimento isolado.
Muitas vezes está em fazermos sempre a mesma coisa.
E talvez seja justamente por isso que quebrar padrões seja tão importante.
Antes do asana existe movimento
Às vezes entramos em uma aula e queremos imediatamente colocar o corpo dentro das formas.
Cachorro olhando para baixo.
Trikonasana.
Guerreiros.
Torções.
Extensões.
Mas até mesmo um asana precisa ser preparado.
E preparação não significa apenas aquecer.
Significa ensinar o corpo a reconhecer os movimentos que aquela postura irá exigir.
Antes de uma extensão maior, podemos experimentar pequenas extensões.
Antes da torção, espirais.
Antes de exigir mobilidade do quadril, círculos.
Antes da forma pronta, movimento.
É assim que gosto de pensar o Oss Yoga.
Nós podemos olhar para um asana, desmontá-lo e estudar os movimentos que existem dentro dele.
Depois treinamos essas partes.
Experimentamos outras possibilidades.
Quebramos alguns padrões.
E então deixamos tudo se encontrar novamente.
Exatamente como acontecia quando eu aprendia um movimento no break.
No início existe técnica.
Existe ordem.
Existe atenção.
Existe até certa rigidez.
Depois de algum tempo, aquilo deixa de ser uma sequência de comandos.
O corpo entende.
E quando o corpo entende, podemos parar de tentar controlar cada pedaço.
É aí que o movimento começa a ganhar ritmo.
Respiração.
Continuidade.
Flow.
Quando o movimento vira Vinyasa
Talvez seja essa uma das coisas que mais me interessam no Oss Yoga.
Analisar o asana como movimento e permitir que o movimento vire Vinyasa.
Não abandonar as formas tradicionais.
Muito pelo contrário.
Entendê-las tão profundamente que deixamos de enxergá-las apenas como fotografias.
O asana deixa de ser somente um lugar onde queremos chegar.
Ele passa a ser também uma passagem.
Uma possibilidade dentro de muitas outras.
Quando fazemos isso, talvez Trikonasana continue parecendo Trikonasana.
O cachorro olhando para baixo continue sendo o mesmo cachorro olhando para baixo.
Mas o caminho até eles mudou.
E quando mudamos os caminhos, começamos a descobrir coisas no corpo que a repetição da forma não conseguia mais nos mostrar.
Essa é a proposta da mobilidade global que começamos a estudar este mês.
Não quero simplesmente que a gente fique mais flexível.
Quero que a gente perceba mais.
Que consiga separar para depois integrar.
Que encontre articulações que estavam esquecidas.
Que distribua melhor o movimento.
Que tenha mais caminhos disponíveis.
No breakdance eu aprendi que, antes do flow, existe muito estudo.
No Yoga não é diferente.
Primeiro entendemos o movimento.
Depois deixamos o corpo praticá-lo.
Até chegar aquele momento bonito em que paramos de fazer o movimento.
— Edson Ramos
E o movimento começa a acontecer através de nós.