Muitas vezes sou chamado de mestre. Confesso que a palavra me causa mais desconforto do que orgulho.
Porque imediatamente penso no Professor Hermógenes. Se Hermógenes, com tudo o que estudou, viveu, ensinou e transformou, era chamado de Professor Hermógenes, o que faria de mim um mestre?
Talvez exista algo importante nessa pergunta. Estamos dando importância demais aos títulos e atenção de menos ao tempo necessário para merecê-los.
Instrutor.
Professor.
Mestre.
Guru.
À primeira vista, parece uma escada. Mas não tenho certeza de que seja.
Um instrutor pode ensinar uma técnica. Ele conhece o caminho entre A e B e consegue mostrar como percorrê-lo. Isso já tem valor.
O professor começa a ocupar outro lugar. Ele não transmite apenas aquilo que sabe: precisa compreender quem está diante dele. Precisa perceber quando ensinar, quando corrigir, quando insistir e, principalmente, quando sair da frente.
Um bom professor não produz cópias.
Produz autonomia.
É por isso que gosto tanto dessa palavra. Professor. Quanto mais ensino, menos necessidade sinto de encontrar uma palavra maior. Ser professor já é uma responsabilidade enorme.
Mestre é diferente.
Mestre não deveria ser um cargo que alguém coloca na própria biografia. É uma palavra que o tempo coloca sobre alguém.
Não porque essa pessoa acumulou certificados, seguidores ou conhecimento. Mas porque atravessou tantas vezes aquilo que ensina que o ensinamento começou a aparecer na maneira como ela vive.
E guru é uma palavra ainda mais delicada. Na tradição indiana, não significa simplesmente alguém que sabe muito. Guru aponta para aquele que ajuda a remover a escuridão da ignorância. Por isso tenho muito cuidado com essa palavra.
Mas também compreendo por que alguns alunos precisam chamar seus professores de mestre. Existe algo profundamente humano nisso. Quando alguém nos mostra uma porta que não conseguíamos enxergar, naturalmente aquela pessoa cresce dentro de nós.
Eu também faço isso. Tenho professores que, dentro de mim, ocupam o lugar de mestres. Nenhum deles pediu esse título. Provavelmente é justamente por isso que o merecem.
O aluno às vezes precisa engrandecer aquele que lhe mostrou o caminho. Não vejo necessariamente um problema nisso.
O problema começa quando o professor precisa ser engrandecido pelo aluno. São coisas completamente diferentes.
E existe outra questão sobre a qual penso bastante.
Todo conhecimento possui uma genealogia. Alguém ensinou alguém. Uma tradição atravessou outra. Uma ideia passou por muitas mãos antes de chegar até nós.
Às vezes encontramos professores que beberam profundamente de determinada fonte, mas parecem constrangidos em dizer de onde veio a água. Em outros casos acontece algo curioso: alguém mal se aproximou da fonte, mas carrega sua bandeira como se tivesse vivido ali durante décadas.
Os dois extremos me incomodam. Não precisamos esconder nossos professores. Também não precisamos inventá-los.
Reconhecer uma influência não diminui nossa originalidade. Pelo contrário. Newton dizia que enxergava mais longe porque estava sobre os ombros de gigantes.
No Oriente isso nunca foi novidade. As linhagens sempre compreenderam que receber conhecimento não nos torna menores. Nos torna responsáveis por aquilo que faremos com ele.
É exatamente isso que diferencia essas palavras. Não apenas conhecimento. Tempo. Experiência. Responsabilidade.
Você pode aprender uma técnica relativamente rápido. Pode levar anos para aprender a ensiná-la. Décadas para compreender aquilo que realmente estava ensinando. E uma vida inteira para perceber o quanto ainda não sabe.
Por isso continuo gostando de ser chamado de professor. Professor não é uma etapa menor antes de mestre. Professor é aquele que decidiu permanecer perto do aprendizado enquanto ajuda outras pessoas a aprender. E existe uma beleza enorme nisso.
Hoje ainda encontro coisas que me obrigam a mudar de ideia. Ainda tenho professores. Ainda sou aluno. Ainda volto para estudar.
Esse é o paradoxo mais bonito do ensino.
Quanto mais verdadeiro se torna o professor, menos preocupado ele fica em parecer mestre.
Ele finalmente compreende que não precisa estar acima de ninguém. Precisa apenas conhecer um pouco mais daquele trecho do caminho.
— Edson Ramos
E ter generosidade suficiente para voltar alguns passos
e mostrar aos outros por onde passar.