Diário · Linhagem e Discipulado

Você Fez Um Curso. Isso Te Faz Aluno?

Fazer um curso é receber conhecimento de alguém. Ser aluno é assumir um compromisso com aquilo que recebeu.

Edson Ramos4 min de leitura

Você fez um curso. Aprendeu as técnicas. Recebeu um certificado. Saiu de lá com conhecimento.

Você é aluno?

Não necessariamente.

Porque fazer um curso e ser aluno são coisas diferentes.

Fazer um curso é receber conhecimento de alguém.
Ser aluno é assumir um compromisso com aquilo que recebeu.

É reconhecer um professor. Uma tradição. Uma linhagem. Uma filosofia. Um caminho que você decide continuar estudando.

E isso não depende necessariamente de proximidade.

O que o budismo me ensinou

O budismo sempre me ensinou algo que considero fundamental. Precisamos de professores.

Existe um limite para aquilo que conseguimos enxergar sozinhos.

Sozinhos, podemos confundir nossas certezas com verdades. Podemos criar justificativas para nossos próprios comportamentos. Podemos passar anos defendendo uma ideia simplesmente porque nunca encontramos alguém capaz de confrontá-la.

O professor ocupa justamente esse lugar. Não é alguém que deve pensar por você. É alguém que consegue enxergar partes do caminho que você ainda não consegue enxergar.

É um espelho. E, algumas vezes, um espelho bastante incômodo.

A história de Marpa

Marpa sempre me inspirou.

Ele era tibetano. Não era monge. Era casado, tinha filhos, trabalhava e vivia no mundo. Mesmo assim, tornou-se um dos grandes mestres de sua tradição.

Viajou para a Índia, estudou com grandes professores, entre eles Naropa, recebeu ensinamentos e voltou ao Tibete para transmiti-los.

Marpa mostra algo importante. Você não precisa abandonar sua vida para ser um aluno verdadeiro.

Precisa estudar.
Praticar.
Se dedicar.
E reconhecer de onde veio aquilo que você recebeu.

O monge e o Buddha

Uma vez um monge me perguntou:

“De quem você é aluno?”

Falei o nome dos meus mestres e expliquei que, pela distância, já não tinha contato frequente com eles. Ele respondeu:

“Eu sou aluno do Buddha. E nunca estive com ele pessoalmente.”

Aquilo mudou minha maneira de pensar. Eu estava confundindo proximidade com compromisso.

Você pode considerar alguém seu professor mesmo sem conviver com essa pessoa. Pode estudar seus ensinamentos. Praticá-los. Permitir que transformem sua maneira de viver.

Mas existe uma diferença importante.

Reconhecer alguém como seu professor não significa reivindicar uma intimidade, uma autorização ou uma posição dentro de uma linhagem que você nunca recebeu.

Uma coisa é dizer: “Eu bebi dessa fonte.”
Outra é agir como se a fonte fosse sua.

O lugar é seu

Se você encontra uma tradição, uma filosofia, uma sangha ou um professor e pensa: “Existe alguma coisa aqui que quero compreender.”

Aproxime-se.
Estude.
Pratique.

Você não precisa esperar alguém declarar que você é digno de aprender. O conhecimento não deveria funcionar como um clube fechado.

Pertencimento também traz responsabilidade.

Se você diz que veio de uma tradição, reconheça quem veio antes. Se aprendeu com alguém, não existe vergonha alguma em dizer isso. Pelo contrário.

Reconhecer nossas fontes não diminui nossa originalidade. Mostra que sabemos de onde viemos.

O caminho solitário

Existe um paradoxo importante nisso.

Precisamos de professores.
E nenhum professor consegue caminhar por nós.

Existe um ponto em que o professor mostra a direção e você precisa colocar os próprios pés no caminho.

Ele pode ensinar meditação.
Não pode meditar por você.
Pode falar sobre sofrimento.
Não pode atravessar o seu.
Pode ensinar liberdade.
Mas não pode libertar você de si mesmo.

Por isso existem duas maneiras muito diferentes de caminhar sozinho.

Existe o isolamento de quem pensa: “Não preciso aprender com ninguém.”

E existe a autonomia de quem compreende: “Aprendi com muitas pessoas. Agora preciso assumir responsabilidade pelo que recebi.”

A primeira pode nascer da arrogância. A segunda nasce da maturidade.

A síntese

Então faça cursos. Estude com pessoas diferentes. Leia. Questione. Experimente.

E quando encontrar alguém ou alguma tradição que realmente transforme sua maneira de pensar, não tenha medo de reconhecer: “Aqui existe um professor para mim.”

Ser aluno não é se colocar abaixo de alguém. É reconhecer que ainda existe alguma coisa que você pode aprender.

E talvez essa seja uma das maiores qualidades de qualquer professor. Continuar sendo aluno.

Chega um momento em que você percebe que caminhar com as próprias pernas não significa ter construído a estrada sozinho.

— Edson Ramos


Significa apenas que chegou
a sua vez de caminhar.

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