Diário · Sangha

E Às Vezes a Gente Solta

A terceira possibilidade da frase que a escola repete, e o aluno que me fez enxergá-la.

Edson Ramos4 min de leitura

Recebi uma mensagem de um aluno dizendo que não tinha se adaptado às aulas de respiração. Ele achava melhor estudar um pouco mais antes de se colocar na prática.

Minha reação foi imediata. Entrei em contato com ele.

Talvez porque, depois de tantos anos ensinando, eu tenha aprendido a prestar atenção quando alguém começa a procurar conhecimento antes de se permitir viver a experiência.

Estudar é importante. Eu mesmo passei grande parte da vida estudando.

Mas existe um momento em que estudar também pode virar uma maneira muito inteligente de não fazer.


Conversamos.

Ele tinha dúvidas se deveria fazer um curso de respiração sem experiência prévia. Algumas técnicas despertavam ansiedade. Ao mesmo tempo, surgiam perguntas sobre Vedanta e outros assuntos que nem faziam parte do que estávamos estudando.

E comecei a perceber que talvez eu tivesse errado.

Talvez aquele aluno simplesmente ainda não estivesse pronto para aquilo que eu estava propondo.

Não por incapacidade.
Por tempo.

Faltava prática. Faltava criar alguma intimidade com o próprio corpo. Faltava aquele período em que você simplesmente pratica yoga, sem tanta pressa de chegar às técnicas mais profundas.

Respiração mexe muito com a gente.

Eu ensino isso há tempo suficiente para saber que uma técnica respiratória não é melhor porque é mais intensa, mais longa ou mais avançada.

A técnica certa é aquela que a pessoa consegue receber naquele momento.


Foi justamente por experiências assim que estabeleci, anos atrás, um critério para alguns dos meus cursos.

Dois anos de prática.

Durante muito tempo achei que isso pudesse parecer rigor demais. Hoje penso o contrário.

Dois anos não servem apenas para aprender posturas. Servem para criar chão.

Você começa a reconhecer seus limites, percebe melhor o que acontece dentro de você e, principalmente, começa a distinguir uma coisa muito difícil de distinguir.

O que você quer aprender daquilo que realmente precisa aprender.


E talvez uma das responsabilidades mais difíceis de um professor seja justamente essa.

Às vezes o aluno quer uma coisa e você percebe que deveria oferecer outra.
Às vezes ele quer avançar e você pede que permaneça.
Às vezes ele quer respostas e você oferece prática.

E algumas vezes ele simplesmente não quer aquilo que você tem para oferecer.

Demorei para ficar confortável com isso.

Porque eu crio vínculo com meus alunos. Não consigo olhar para alguém que estuda comigo simplesmente como uma matrícula, um pagamento ou mais uma pessoa dentro de uma sala.

Existe confiança ali.
Existe convivência.
Existe uma pequena amizade começando a se formar.

Por isso, quando alguém vai embora, eu sinto. É quase como uma amizade que poderia ter acontecido, mas não teve tempo suficiente para acontecer.


Só que ensinar também exige saber deixar alguém ir.

Talvez esse tenha sido um dos aprendizados mais difíceis para mim como professor.

Nem sempre cuidar significa convencer alguém a ficar.

Às vezes cuidar é perceber que você não é o professor que aquela pessoa precisa naquele momento.

Isso não torna o aluno errado. Também não torna o professor errado. Só significa que os caminhos não coincidiram naquele pedaço da estrada.


Aqui na escola eu repito muito uma frase.

Quem está atrás a gente puxa, quem está na frente a gente empurra.

Mas estou começando a perceber que existe uma terceira possibilidade nessa frase.

Às vezes a gente precisa simplesmente soltar.

Não abandonar.
Soltar.

Dar espaço para que aquela pessoa descubra o próprio caminho, mesmo que esse caminho a leve para longe da gente.

Porque existe uma diferença enorme entre querer cuidar de um aluno e querer que ele continue sendo nosso aluno.

Talvez aí esteja uma das armadilhas do professor.

Confundir cuidado com permanência.


Hoje existe conhecimento em todo lugar. Aplicativos, vídeos, livros, inteligência artificial, cursos, professores do outro lado do mundo.

E acho isso maravilhoso.

Mas continuo acreditando profundamente na importância de alguém que já percorreu um pouco mais daquela estrada.

Alguém que possa olhar de fora.
Que reconheça um erro porque já cometeu aquele erro.
Que perceba uma pressa porque um dia também teve aquela pressa.

Um professor não deveria existir para fazer o caminho pelo aluno. Deveria existir para ajudá-lo a enxergar melhor onde está pisando.

Mas até esse encontro precisa acontecer na hora certa.


Aquele aluno pode voltar. Pode não voltar.

Se voltar, talvez chegue em outro momento, com outra experiência e outras perguntas.

Se não voltar, espero sinceramente que encontre alguém capaz de oferecer aquilo que eu não consegui oferecer agora.

E aquilo que compartilhamos durante esse pequeno tempo continuará tendo existido.

Porque nem todo encontro precisa durar para ter sido verdadeiro.

Talvez ensinar também seja aprender isso.

Receber quando alguém chega.
Caminhar junto enquanto for possível.
E ter maturidade suficiente para abrir a mão quando chegar a hora de alguém seguir.

— Edson Ramos


Quem tá atrás a gente puxa.
Quem tá na frente a gente empurra.
E às vezes a gente solta.

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