Diário · A origem do Oss Yoga

Quando me disseram que aquilo não era yoga

Trecho do primeiro capítulo do livro que estou escrevendo: a crítica que recebi em 2005 e a brincadeira que, oito anos depois, virou o nome da escola.

Edson Ramos5 min de leitura

Era 2005. Eu tinha vinte e quatro anos e dava aula de yoga no Espaço Nirvana, no Rio de Janeiro. Para quem ensinava naquela época, o Nirvana era o lugar. Era onde os professores mais respeitados do país circulavam, e onde uma carreira começava ou se confirmava.

Cheguei lá sem ter feito uma formação de yoga na vida. Eu vinha das artes marciais, da dança, da natação, da ginástica, e do hábito antigo de ensinar tudo o que aprendia. Meu primeiro diploma só viria sete anos depois, numa viagem à Tailândia. Em 2005 eu tinha um corpo que ainda lutava, dançava e treinava, e ensinava do jeito que sabia: pelo movimento.

A grade da casa organizava as turmas por nível, e a única turma de nível mais alto era a minha. Vinyasa 2. Vinha advogado que entrava de terno e saía arrastando o tapete. Vinha jornalista que tinha fechado matéria às quatro da manhã. Vinha personal trainer querendo entender por que metade dos alunos dele estava me procurando. Vinha gente da dança, da corrida, das artes marciais. E vinha o aluno mais raro de todos, o curioso, que apareceu porque ouviu falar bem em três conversas separadas e quis ver com os próprios olhos. Esse era o que mais voltava.

As aulas fizeram sucesso rápido. Era um yoga desafiante, fisicamente forte, sequências longas, transições inteligentes, gente saindo da sala arrasada e voltando na semana seguinte.

Foi quando as vozes começaram.

Não vinham dos alunos. Vinham de outros professores, de comentários soltos no corredor, de frases que chegavam até mim sempre por intermédio de uma terceira pessoa, e sempre com a mesma estrutura: o que o Edson faz é bonito, mas não é yoga. É ginástica.

A primeira vez que ouvi a palavra, fiquei parado. Eu não tinha argumento. Não porque concordasse, e sim porque ainda não sabia o suficiente sobre yoga para defender o que fazia. Eu sabia ensinar. Sabia organizar um corpo, ler um aluno, fazer quinze pessoas respirarem no mesmo ritmo ao mesmo tempo. Só que a palavra ginástica veio carregada de uma autoridade que eu não tinha como contestar.

Aquilo machucou por um tempo. Mais do que eu admitia.

Um dia, no fim de uma aula, com a sala em silêncio e a respiração dos alunos serenada, me ocorreu uma coisa simples. Aquela palavra talvez não fosse a acusação que eu pensava. Era o nome do caminho.

Quando todo mundo me empurrava para um lado, alguma coisa em mim puxava para o outro. Eu não queria virar o yoga que eles aprovariam. Eu queria descobrir o que era o yoga que eu fazia, mesmo que ninguém reconhecesse aquilo com esse nome. Ali a crítica deixou de ser ameaça e virou eixo.

A via da inversão

Estudando os textos tântricos indianos e tibetanos, encontrei o vocabulário que faltava naquele dia. Os tantras descrevem duas vias. Dakshinachara, a via ortodoxa, do que é prescrito. Vamachara, a via da inversão.

Na via ortodoxa o praticante se afasta do que é impuro. Come o que pode ser comido, vê o que pode ser visto, faz o que pode ser feito. Em troca recebe um progresso ordenado, lento, seguro.

A via da inversão faz o contrário. O praticante aceita o que outras escolas recusam, trabalha com o que outras escolas escondem, atravessa o que outras escolas evitam. A premissa é simples e radical: nada do que é real está fora do caminho. O Tantra clássico chama isso de sarvam yogamayam, tudo é yoga. Não como slogan, como prática.

Foi assim que a palavra ginástica, que tinha chegado até mim como ofensa, virou um pequeno ensinamento. A tradição diz exatamente isso: o que sua escola rejeita é onde está o seu trabalho.

Tudo é yoga, dependendo de quem está do outro lado informando.

Isso não quer dizer que toda prática seja igual. Quer dizer que a definição de yoga não mora na forma, e sim na pessoa que ensina, na pessoa que aprende, e no que acontece entre as duas. Um asana ensinado por alguém superficial é ginástica. Uma série de flexões ensinada por alguém presente é yoga. O nome da técnica diz menos do que o silêncio que existe na sala enquanto ela acontece.

O nome

Em 2013, oito anos depois daquela primeira crítica, o Nirvana me pediu uma coisa que eu jamais imaginei ouvir deles. Queriam uma aula nova, focada em ginástica e queima de calorias. Era o que o mercado pedia naquela década, e queriam que eu liderasse essa frente dentro da casa.

Demorei a aceitar. Mais do que devia. Eu tinha passado oito anos provando que o que fazia não era ginástica, e agora estavam me pedindo oficialmente para dar uma aula de ginástica. Por pouco não recusei. Quando aceitei, foi com uma condição comigo mesmo: se era para fazer ginástica, eu faria do meu jeito, com tudo o que tinha aprendido até ali. E o nome daquela aula seria uma piada minha.

Na favela onde cresci existe um jeito peculiar de falar. Pela falta de estudo formal da maioria, os erros de concordância e principalmente de plural fazem parte da fala, e com o tempo deixam de ser erro e viram ritmo, viram identidade. É comum ouvir "nós fomu", "arrente tamu como". A gramática se torce até virar música.

Foi nessa língua que eu respondi. Olhei o pedido, uma aula de ginástica dentro de uma escola de yoga, depois de oito anos provando que eu não fazia ginástica, e falei do jeito que sabia: "ahhh, entendi. Eu vou ensinar Oss Yoga tudo."

Quer dizer: todas as metodologias de yoga reunidas num lugar só. Vinyasa, Yin, Mandala, Rocket, respiração, ginástica, dança, artes marciais. Todos os yoga juntos. Era a definição mais honesta do que eu estava ensinando.

Esse foi o nome que ficou para a aula. Oss Yoga.

Como nome de aula durou pouco. Mas grudou.

No mesmo ano abri minha primeira escola formal, e ela não se chamou Oss. Chamou-se Rocket Yoga Brasil, com o nome do método que eu tinha acabado de trazer da Tailândia. Em 2014 a operação central nos Estados Unidos proibiu os professores de fora de usarem o nome, e eu fui um dos atingidos. Em vez de brigar, renomeei. Virou Yin Yang Vinyasa, um guarda-chuva para tudo o que eu tinha reunido até então.

Em 2016, quando lancei minha primeira formação de quarenta horas para professores, aquela brincadeira de 2013 voltou. Já não como aula, e sim como marca. Vem ver o Oss Yoga.

A acusação de 2005 tinha virado nome próprio. A palavra que eu não soube defender quando ouvi pela primeira vez estava na placa da minha escola, escondida atrás de uma piada que ninguém precisava entender.

— Edson Ramos


O que sua escola rejeita
é onde está o seu trabalho.

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