Sou budista há quase trinta anos.
Comecei no Zen Budismo e ainda muito novo aprendi a ficar sentado de frente para uma parede, com os olhos semiabertos, observando meus próprios pensamentos.
Aquilo me marcou. Ficou em mim.
O problema é que fora daquela parede eu era Yang demais.
Praticava asanas desafiadores, gostava de aulas difíceis, de intensidade, de força, de energia alta. Sempre alta.
O livro verde
Até que um dia uma amiga me mostrou um livro verde que tinha escrito na capa “Yin Yoga”. Olhei, achei interessante, folheei um pouco, mas não dei muita atenção.
Algum tempo depois fui para a Tailândia fazer uma formação de 300 horas. E, para falar a verdade, nem sabia direito o que estava fazendo lá.
Lá fora muitas formações funcionam diferente daqui. Eles pegam dois ou três métodos e colocam tudo dentro do mesmo treinamento. Você faz 100 horas de Vinyasa, 100 horas de outra coisa, mais 100 horas de outro método e pronto.
Eu caí em uma formação dessas.
E metade dela era Yin Yoga.
O que aconteceu ali
Foi assim que fiz minha primeira prática de Yin. Dentro de uma formação, sem procurar, sem escolher e quase sem saber onde estava me metendo.
Mas alguma coisa aconteceu ali.
Meus olhos brilharam.
Não era exatamente novidade.
Era reconhecimento.
Eu estava encontrando no yoga uma maneira de praticar algo que já conhecia havia muitos anos através do budismo, mas que ainda não tinha conseguido levar para a minha prática física.
Até então parecia que existiam duas coisas separadas.
De um lado esforço, intensidade, movimento, força.
Do outro silêncio, observação, contemplação.
No Yin encontrei as duas coisas juntas.
Yang de verdade, e o que vem depois
E acho que foi ali que começou uma ideia que carrego até hoje.
Se vamos praticar Yang, que seja Yang de verdade. Com intensidade, força, entrega, sem medo.
Mas isso não basta.
Em algum momento precisamos parar. Precisamos absorver aquilo que fizemos, observar, compreender, aquietar.
Com o tempo comecei a perceber outra coisa.
Quando estou fazendo uma prática Yang, tento colocar um pouco de Yin dentro dela. Observação no meio do movimento. Presença no meio da força. Um pouco de silêncio mesmo quando o corpo está trabalhando.
Mas o contrário também precisa acontecer.
A parte que eu ainda estou aprendendo
Quando estou no Yin, preciso encontrar Yang.
Preciso continuar determinado.
E talvez essa seja justamente a parte que eu ainda esteja aprendendo.
Porque existe uma diferença muito pequena entre aquietar e simplesmente desistir. Entre relaxar e perder presença. Entre permanecer e apenas ficar ali.
Descansar é fácil.
Mas continuar inteiro quando aparentemente não existe nada para fazer? Continuar atento, presente e determinado dentro do repouso?
Isso é muito mais difícil do que parece.
— Edson Ramos
E talvez seja exatamente aí
que o Yin começa.