Estudo · Tao Te Ching

Capítulo 2 do Tao Te Ching

Um texto que não fala de yoga e ensina yoga. Sobre a dualidade que a mente cria, a não-ação, e a realização que não se apega.

Edson Ramos6 min de leitura

O texto

Quando os seres sob o céu reconhecem o belo como belo
Então isso já se tornou um mal
E reconhecendo o bem como bem
Então já não seria um bem

A existência e a inexistência geram-se uma pela outra
O difícil e o fácil completam-se um ao outro
O longo e o curto estabelecem-se um pelo outro
O alto e o baixo inclinam-se um pelo outro
O som e a tonalidade são juntos um com o outro
O antes e o depois seguem-se um ao outro

Portanto
O Homem Sagrado realiza a obra pela não-ação
E pratica o ensinamento através da não-palavra
Os dez mil seres fazem, mas não para se realizar
Iniciam a realização mas não a possuem
Concluem a obra sem se apegar
E justamente por realizarem sem apego
Não passam

Um texto que não fala de yoga mas ensina yoga

Esse texto não fala de yoga. Não fala de asanas, de pranayama, de chakras, de despertar kundalini. Não fala das palavras que estamos acostumados a ouvir quando nos aproximamos da prática.

E no entanto, ele ensina mais sobre como viver do que muitos textos clássicos de yoga conseguem fazer.

Porque aqui está uma verdade incômoda que ninguém fala em voz alta: quando você começa a escolher entre um lado e outro, quando você diz “isso é belo, aquilo é feio”, quando você diz “isso é bom, aquilo é mau”, você já criou uma ilusão.

E essa ilusão vai custar caro.

A armadilha da escolha

Vou ser bem claro. Quando falamos que um é yoga e que o outro não é. Quando escolhemos entre ser feliz e tentar a todo custo se libertar do sofrimento, mesmo que façamos outros sofrerem no processo. Quando privilegiamos um caminho e excluímos outro. Aí você criou exatamente o oposto do que pretendia.

Você quis se libertar mas criou prisão ainda maior. Porque agora você está preso à ideia de liberação. Você está sofrendo por tentar escapar do sofrimento.

É uma contradição. Mas é também a realidade de quase todo mundo que tenta de verdade.

Porque quando você diz “quero ser feliz”, você automaticamente criou um estado “infeliz” que precisa ser removido. Quando você diz “quero ser iluminado”, você criou a pessoa escura, não iluminada, que você é agora. E agora você está em guerra contra si mesmo.

O Tao Te Ching vê isso desde o começo. Quando reconhecemos o belo, automaticamente criamos o feio. Quando reconhecemos o bem, criamos o mal. Não porque essas coisas existem de forma independente. Mas porque nossa mente as cria através de comparação.

E nessa criação, entramos em sofrimento.

A dualidade como prisão

A existência e a inexistência geram-se uma pela outra. É isso que o texto diz. Elas não existem isoladas. Elas só existem porque uma define a outra.

É como você e a sombra. A sombra não pode existir sem você. E você não projetaria sombra se não houvesse luz. São inseparáveis.

No yoga clássico, a gente tenta escapar dessa dualidade. Tenta transcender. Tenta alcançar um estado que está além do bem e do mal, além da felicidade e da infelicidade. É lindo. É nobre. É verdadeiro.

Mas muita gente tenta escapar da dualidade de forma dual. Tenta combater o ego com agressividade. Tenta eliminar o medo com força. Tenta negar o corpo para libertar a alma. Tenta, tenta, tenta.

E justamente naquele tentar, aquela pessoa está reforçando a divisão.

O Tao não nega isso. Ele olha direto nos olhos. O duro e o mole completam um ao outro. O alto e o baixo inclinam-se um pelo outro. Não existe escapatória. A dualidade não é um erro. É a estrutura mesma da existência.

Quando você para de tentar

E aí vem a virada.

O Homem Sagrado realiza a obra pela não-ação.

Leia isso de novo. Não-ação. Não significa ficar parado. Significa agir sem a intenção de alcançar algo. Significa fazer sem lutar. Significa deixar a água fluir em volta da pedra ao invés de quebrar a pedra.

Isso mudaria tudo se a gente realmente vivesse isso.

Imagine um aluno que vem para yoga porque quer ser feliz. Quer se libertar do sofrimento. Quer alcançar iluminação.

Agora imagine um aluno que vem porque está aqui. Porque está respirando. Porque a vida é isso, e yoga é um jeito de estar vivo de forma mais plena. Sem tentar escapar de nada.

A diferença? A primeira pessoa vai estar sempre em guerra consigo mesma. A segunda vai estar em paz, mesmo quando está suando em uma postura difícil. Porque ela não está tentando chegar a lugar nenhum.

A realização que não se apega

Os dez mil seres fazem, mas não para se realizar.
Iniciam a realização mas não a possuem.

Aqui está algo que ninguém quer ouvir. Você pode praticar yoga por vinte anos. Pode fazer a postura perfeita. Pode alcançar estados de meditação profundos. Mas se você está fazendo tudo isso para possuir algo, para ter algo, para se tornar algo, você ainda não entendeu nada.

Porque no momento que você conquista, aquilo deixa de ser. Porque você colocou expectativa em cima. Você colocou desejo. Você colocou “eu” naquele resultado.

E a partir daí, a coisa morre.

A realização verdadeira é quando você conclui a obra sem se apegar. Quando você faz sem guardar para si. Quando você pratica e deixa ir.

Por quê? Porque justamente por realizarem sem apego, não passam. Aquilo não passa por você. Aquilo se torna você. Se torna tão natural, tão inerente ao que você é, que não há mais separação entre quem pratica e a prática.

Complementaridade, não exclusão

Um não exclui o outro. Os textos clássicos de yoga falam sobre transcendência, sobre ir além, sobre despertar. O Tao fala sobre aceitar a realidade como ela é. Sobre fluidez. Sobre simplicidade.

Mas quando você coloca os dois lado a lado, eles começam a se conversar.

Porque yoga te ensina que há algo além. Que há libertação. Que há despertar. Mas o Tao te ensina como chegar lá. Sem tentar chegar. Sem lutar. Sem criar conflito.

Yoga te diz: pratique. Estude. Medite. Transcenda.

O Tao te diz: mas faça tudo isso sem querer nada com isso. Realize o desejo de não desejar.

É uma aparente contradição. Mas é também a verdade que resolve tudo.

No dia a dia

Onde isso funciona mesmo? No dia a dia. Quando você está em um relacionamento e tenta desesperadamente ser feliz, você cria infelicidade. Quando você trabalha ao custo da vida de outras pessoas, você não realiza nada que valha a pena.

Mas quando você está ali, presente. Quando você faz seu trabalho porque é o seu trabalho, não porque vai te levar a lugar nenhum. Quando você ama porque ama, não porque espera ser amado de volta. Aí sim algo muda.

A vida não fica perfeita. Mas fica real.

Porque você para de lutar contra a dualidade e começa a dançar com ela.

A síntese

Aqui está o que entendi. Yoga clássico é verdade. Tao Te Ching é verdade. Um diz que há libertação. Outro diz que a libertação vem quando você para de tentar se libertar.

E ambos estão certos.

O erro é escolher um e excluir o outro. É tentar ser espiritual de forma tão forçada que você nega a realidade comum. Ou ser tão realista que nega a possibilidade de transcendência.

A verdade está no meio. Está em praticar yoga sem agarrar o resultado da prática. Está em tentar alcançar iluminação enquanto sabe que iluminação não é um destino. Está em viver a dualidade enquanto reconhece que há algo além dela.

É só isso. Contradição e completude. Ao mesmo tempo.

— Edson Ramos


Como a árvore.
Com raízes na terra.
E galhos tocando o céu.

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