Diário · Lesão e Hands-On

O Ajuste Que Mudou Tudo

Em 2007 um ajuste me levou à sala de cirurgia. E me ensinou tudo o que eu sei hoje sobre tocar um aluno.

Edson Ramos4 min de leitura

Em 2007 eu estava fazendo uma prática de Ashtanga.

E como todo aluno que treina Ashtanga, cheguei naquela postura que todo mundo teme. Marichyasana D. Aquela que testa sua flexibilidade, força, e principalmente sua capacidade de lidar com desconforto.

Estava ali, fazendo meu melhor. E o professor veio fazer um ajuste.

Aquele ajuste me gerou uma lesão séria no menisco. Uma lesão que me levou direto para a maca. Para a sala de cirurgia. Para meses de recuperação e incerteza.

Mas aquela lesão também me levou para longe do Ashtanga.

Depois da operação eu tive que migrar. Do Ashtanga para o Vinyasa. Porque o Ashtanga é repetição. É série. É insistência. E naquele momento meu corpo não podia mais insistir.

E hoje posso dizer com certeza: essa mudança forçada foi a melhor coisa que podia ter acontecido comigo.

Quando a pesquisa revela mais do que você quer ver

Depois daquele ajuste, eu fiz uma coisa que todo professor ferido deveria fazer. Pesquisei.

Estudei o máximo que pude sobre lesões no yoga. Procurei por histórias parecidas. Encontrei umas mais graves. Encontrei umas mais leves. Mas em toda pesquisa que fazia, aparecia uma coisa que me incomodava mais do que a lesão.

Histórias de abuso. De assédio. De professores usando a intimidade do ajuste para prejudicar alunos.

E aquilo me fez pensar. Se um ajuste pode causar lesão física, o que um ajuste feito com intenção errada pode fazer?

Fazendo o oposto

Foi ali que decidi fazer totalmente o oposto.

De tudo que vi. De tudo que ouvi. De tudo que pesquisei sobre o que não funciona, sobre o que prejudica, sobre o que transgride.

Criei um estilo de ajuste que chamei de hands-on. Mas hands-on não é só colocar as mãos. É estudar o ajuste do ponto de vista psicofísico.

É entender que quando você toca um aluno, você não está só ajustando o corpo. Está tocando a pessoa inteira. Sua história. Seus traumas. Seus limites.

Então o ajuste precisa ser consensual. Precisa ser respeitoso. Precisa ser educativo.

Ajudando o aluno a ver o próprio corpo

O hands-on me ensinou algo que mudou como eu ensino.

Nem todo asana é para todo corpo. Essa é a verdade que a maioria dos professores não quer admitir.

Se você diz isso, você está dizendo que nem todos vão conseguir fazer aquela postura bonita que está na revista. Você está dizendo que a perfeição do Instagram é uma ficção.

Mas é verdade. Existem asanas que não são para você. E existem técnicas que são únicas para o seu corpo. Para sua estrutura óssea. Para sua história.

Então quando você treina comigo, você aprende a reconhecer qual é qual. Você aprende que limitação não é fracasso. Limitação é informação.

O custo real

Com tudo isso, eu aprendi algo que não dá para não pensar sobre.

As minhas limitações me trazem muitos ensinamentos. Mais do que qualquer texto. Mais do que qualquer teoria.

E não vale a pena forçar um asana de poucos segundos para uma lesão de muitos anos.

Essa é uma equação bem simples. Mas ninguém quer fazer essa conta.

Yoga vira competição. Vira comparação. Vira “quero fazer igual aquele aluno”, “quero ficar bonito como na foto”.

E naquela hora você deixou de ouvir seu corpo.

Realização que não precisa ser física

Até hoje sou julgado por não executar muitas posturas. Vejo nos olhos das pessoas aquela dúvida: “como esse cara é professor se não faz isso?”.

E posso dizer com toda segurança que esses mesmos asanas que não faço estão realizados na minha mente.

Realização não é só movimento. Realização é compreensão. É domínio. É você conhecer aquela postura tão bem que você não precisa fazer ela para saber o que acontece ali.

Marichyasana D? Eu conheço cada fibra daquela postura. Conheço cada limite. Conheço cada possibilidade. E escolho não fazer.

Porque não preciso. Eu realizei. Só não com o corpo.

Responsabilidade

Por isso evito muita coisa. Por isso não forço ninguém a lugar nenhum. Por isso cada ajuste que faço é educativo.

E também por isso ensino as pessoas a conseguirem realizar os asanas com segurança.

Segurança não é chato. Segurança não diminui a prática. Segurança é o que permite que você pratique por cinquenta anos ao invés de parar depois de um ajuste errado.

Então sim, você vai treinar comigo e não vai fazer tudo. Mas o que você fizer, você vai fazer de forma íntegra. Sem medo. Sem dor crônica depois.

E talvez esse seja o maior ajuste que alguém pode receber.

— Edson Ramos


Não o ajuste que o força para dentro de uma postura.
Mas o ajuste que o ajuda a ouvir o próprio corpo.

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